Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A mulher que sonhava ser gato

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2016-08-01 às 06h00

Escritor

Ana Maria Monteiro

A Manuela tinha-me avisado, mas confesso que fiquei estonteado quando nos apresentou; ela nem sequer era propriamente bonita, antes uma presença que se impunha naturalmente de forma naturalmente bela.
Fiz tudo por me manter ao seu lado durante essa noite. O bar estava cheio, havia muito ruído e o nosso grupo era grande. Ela aparentava uma certa indiferença relativamente a mim, mas mal eu desviava a atenção, emitia um sinal (não consigo explicá-lo de outra forma) que de imediato me fazia regressar à sua órbita.

Isto sucedeu poucas vezes porque todo eu estava concentrado nela, no seu fascínio natural (embora ainda mais acentuado pela sua vontade própria de o exercer), nos seus movimentos, suspiros, silêncios, olhares, enfim, em tudo.
Falámos de tudo e de nada. A dado momento questionou-me sobre as minhas aspirações. Falei-lhe do carro, das férias de sonho, da vida glamourosa, enfim, aquelas coisas normais que quase todos desejamos.

Olhou-me com um certo desdém.
- Não. O que é que gostarias mesmo de ser?
E eu, na mesma, homem e prático, a querer mostrar-me ambicioso, dinâmico, capaz, sei lá, essas coisas que as mulheres costumam gostar, não é?
- Bem, na realidade espero vir a ser o próximo gerente da sucursal (sou bancário) e, talvez a partir daí, ir ainda mais além. Quem sabe, na reforma não serei daqueles com direito a helicóptero?... as coisas estão bem encaminhadas.
E ela, aparentemente enfadada, mas continuando:
- É tudo?
Piquei-me.
- Nunca é tudo, mas, para começar já me parecem boas perspectivas, agora que metade dos meus colegas de curso são caixas em supermercados ou nem conseguiram ainda o primeiro emprego.
Encolheu os ombros. Mantinha o ar ligeiramente enfadado.

Olhou-me nos olhos, tinha um olhar intenso e penetrante. Perturbou-me e excitou-me. Penso que corei, até, mas “com o barulho das luzes” deve ter passado despercebido, pelo menos assim espero.
Aproximou-se ligeiramente, quase me roçando o rosto cada vez mais afogueado. E, em tom de confidência:
- Pois o meu sonho era ser gato.
Fiquei aparvalhado, esperava tudo menos aquela saída.
- Bem, para falar verdade, o teu sonho até nem anda muito longe da realidade, és uma verdadeira gata.

Acreditem ou não, ela detestou a minha observação. Chamou-me convencido, supérfluo e mais umas coisas assim, nada elogiosas.
E, mantendo-me debaixo de olho, dedicou-me o seu desprezo pelo resto da noite.
Eu aproveitei para ouvir a música, beber mais uns copos e continuar a observá-la, era duma languidez quase lasciva.
Mais tarde, já em casa, tive dificuldade em conciliar o sono, ela não me saía da cabeça, nem da imaginação.
O meu subconsciente fez-lhe a vontade: sonhei com ela em forma de gata. Felizmente no sonho eu era gato. Por isso podem imaginar o resto.
Acreditem ou não, acordei todo arranhado.

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