Correio do Minho

Braga, sexta-feira

'A Mosca', por Ana Pires da Costa

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2010-07-24 às 06h00

Escritor

Enquanto esperava pela sopa, Simão lia distraidamente o jornal passando o olhar rapidamente pelas notícias que lhe chamavam mais a atenção, mas sem se deter ou fixar nelas. Mais coisa menos coisa, eram sempre as mesmas e, pelo menos aparentemente, nada do que se publicava alterava de forma significativa a sua vida.

Quando a sopa finalmente chegou, Simão preparava-se para o início da sua refeição diária - vivia sozinho e há muito que optara por comer um bom almoço e contentar-se com algo ligeiro à noite; desta forma mantinha-se relativamente bem alimentado e não precisava de se dedicar à cozinha, além do mais, em termos económicos, era a solução ideal para sobreviver sem grandes problemas durante um mês inteiro com o seu ordenado de empregado de escritório.

O gesto de mergulhar a colher no prato foi no entanto subitamente interrompido ao aperceber-se de que a sopa trazia um passageiro indesejado. Efectivamente e com evidentes sinais de alguma aflição, uma mosca debatia-se à superfície do líquido tentando sobreviver ao que para ela era sem dúvida um terrível acidente.

Com a colher ainda suspensa no ar, ocorreu a Simão a clássica lembrança da situação em que se chama o empregado e se manda a sopa para trás ficando o restaurante na suposta obrigação de, em compensação, não cobrar a refeição.

Sorriu interiormente com a ideia, por acaso até vinha a calhar, um almocito de graça.
Claro que jamais o faria e muito menos aceitaria a oferta do hipotético almoço.
Mas a ideia fê-lo sorrir.
Além do mais, a mosca estava obviamente viva e apenas tivera o azar que muitos têm: pousar no sítio errado e na hora errada.

Ainda assim, Simão sentiu-se um pouco enojado. Pôs-se a matutar por onde a mosca teria andado com as patas, em que porcarias as teria pousado, que bactérias transportariam. Provavelmente não era mesmo boa ideia comer aquela sopa, mas primeiro tinha que decidir sobre o destino da própria mosca. Saltava à vista que, entregue às suas capacidades, não conseguiria libertar-se; por outro lado, com uma ajudinha, poderia sair dali ilesa.
Por breves instantes, Simão apercebeu-se de que, perante a mosca e sem que ela o soubesse, desempenhava naquele momento o papel de Deus.

Simão era católico por hábito e educação, mas desde a adolescência que arrumara a religião e a sua prática no armário da infância, cujas portas só raramente se entreabriam face a uma evocação momentânea provocada por algum acontecimento ou por algum cheiro, o olfacto transportava-o frequentemente a esses primeiros anos.

Era bom homem, daqueles de quem se diz (neste caso bastante a propósito) que não faz mal a uma mosca.
Fosse como fosse, ao sentir-se Deus, isso deu-lhe um certo mal-estar: afinal de contas e à proporção, perante o verdadeiro dono do título, ele era com certeza muito menos que a mosca para ele próprio e no entanto, ainda assim, acreditava que lhe merecia alguma atenção: vivia mais ou menos bem, tinha um trabalho, uma casa, era saudável, enfim, não podia queixar-se da sua sorte. Além disso sabia lá se Deus já lhe salvara a vida alguma vez, era bem possível, nunca o saberia. E nem sequer se lembrava nunca de se sentir grato pela sua bem-aventurança.

Decidiu voltar à mosca. Não era homem de grandes metafísicas e tanta teoria já começava a ser demasiada para ele.
Continuava indeciso entre libertar a mosca e comer a sopa, ou mandá-la para dentro entregue ao seu inevitável destino (a possibilidade de que a mosca fosse removida e a sopa servida a outro cliente nem sequer lhe ocorreu). Não restavam dúvidas de que a mosca é um animal comummente tido como nojento.

Depois pensou nas notas e moedas que diariamente tocava; é certo que não as mergulhava na sopa, mas nunca fora a correr lavar as mãos depois de lhes tocar, nem daí lhe adviera qualquer mal até à data. Enfim, a não ser o mal de ficar sem elas, quando o movimento era para pagar e não para receber.

Há muito que pousara a colher, mas o olhar mantinha-se contemplativo na luta da mosca pela vida. O animal, inconsciente da sua total impossibilidade de resolver a situação, decidira claramente não dar tréguas e debater-se até ao limite das suas forças.

Simão optou então por ajudá-la. Lentamente, com imenso cuidado, aproximou a colher da mosca e elevou-a até à borda do prato.
A mosca levou como dois segundos a recompor-se e em seguida levantou voo.
Simão comeu a sopa que entretanto arrefecera um pouco, com um inesperado sentimento de satisfação. Sentia-se bem com a opção que tomara. E sentia-se melhor ainda com o pequeno exercício de poder e determinação que a mosca lhe proporcionara.

O resto da refeição desenrolou-se normalmente e Simão esqueceu-se completamente do assunto enquanto se deleitava a comer os carapaus assados que escolhera como segundo prato.
No entanto, ao sair do restaurante, teve a sensação momentânea de que uma mosca pousada no vidro o olhava atentamente como se procurasse captar-lhe a atenção. Ao fixá-la, ia jurar que a mosca lhe acenou com a cabeça numa espécie de agradecimento.

Depois a mosca levantou voo uma vez mais.
E ambos seguiram as suas vidas usufruindo das respectivas liberdades renovadas.

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