Correio do Minho

Braga,

A morte lenta do nosso Planeta

Macron - Micron

Conta o Leitor

2015-07-03 às 06h00

Escritor

Naquela manhã acordei com um estrondo que mais parecia uma bomba. O meu corpo tremia. Preparava-me para saber o que se passava junto de minha avó quando lembrei: aquele era o dia que marcava o início da construção de uma estrada e por isso era necessário proceder ao rebentamento de pedras com toneladas de peso que surgiam no caminho planeado.

Até então apenas era servida pelo Homem para disfrutar de passeios ou como via para as suas bouças ou campos e pelos carros de bois carregados com mato ou lenha, um caminho irregular e com muitas pedras que entretanto nunca foram obstáculos para levar o “carro” ao seu destino. Foi assim durante anos que passaram gerações. Era sinal de que os tempos estavam em mudança. A partir daquele dia nada seria como antes. Lembro que andei vários dias triste e cabisbaixo por vezes sem vontade até para brincar.

Ora aquele estrondo que tanto me abalara e o que ele significou trouxe-me aos dias de hoje: Aproveitei alguns dias de descanso para dar uma arrumadela na minha “biblioteca”. Enquanto arrumava, folheava um ou outro livro, passava os olhos por alguns textos e poemas quando encontrei numa revista sobre Natureza ‘A mais bela declaração da Natureza’ redigida em 1822 por Chefe Seattle. Jamais tinha lido algo semelhante no que toca às palavras escolhidas pelo Chefe que traziam emoções, carinho e carregada de simbolismo.

Podem através do título procurá-la na internet. Dar-me-ão com certeza razão. Palavras sábias de alguém que amava e respeitava o que a natureza tinha para oferecer. Deixo aqui apenas o início da missiva para aguçar a vossa curiosidade:
“Como pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?
A ideia é estranha para nós.

Se nós não somos donos da frescura do ar e do brilho da água, como podem comprá-los?
Cada parte da Terra é sagrada para o meu povo…”
Aproveitando o que aconteceu naquela manhã em que me cortaram os sonhos, tive vontade de lhe “responder” quase dois séculos depois:
“Apesar de estar a escrever em 2014, dois séculos depois de ler a sua carta, posso dizer que ainda consegui ver a beleza pura e intacta da natureza onde o Homem só interferia para bem da comunidade de si e dos seus, mas nunca fugindo da terra que lhe dava o sustento e que era sua. Muito menos o vi a destruir.
Raramente os ecos da modernidade passavam por lá.

Apenas de vez em quando um ou outro carro interrompiam a quietude daquele quadro com pinceladas dignas de um grande pintor, onde o verde imperava sob a imponência das montanhas geresianas e de vales que eram serpenteados pelas águas transparentes e límpidas do rio.
Onde as árvores, os campos, as veigas e várzeas e os caminhos de pedra calçados comungavam da harmonia do canto matinal das aves que me faziam despertar alegremente para uma jornada passada entre o calor daquelas coisas que agora me parecem bem longe no tempo.

Recordo ainda hoje com nostalgia o perfume das flores, a sombra que as árvores nos davam, a água fresca e cristalina que tantas vezes me matou a sede. Longe de mim pensar ver-me privado daquele quadro naturalista.
Porém este momento de contemplação edílica foi sol de pouca dura. Durou enquanto durou a minha infância, ou seja, muito pouco tempo, mesmo!
A idade da inocência levou consigo aquele quadro pintado de cores vivas e alegres, que remetiam para a meditação e regalo dos olhos. Foi-se um tempo em que tudo era mágico e de imagens que pareciam tiradas de um postal ilustrado.

Apenas ficaram as recordações da minha aldeia e dos seus traços rurais com a floresta sem incêndios, os bandos de pardais à solta, numa liberdade efémera e a vivência saudável entre Homem e Terra.
Depois foi tempo de mudança. Radical.
Parti em direção à floresta de pedra. Lembro a forma como os meus olhos contemplavam a novidade.

Também eu deixei de ouvir o cantar madrugador e despertador dos pássaros, as águas a correr entre as várzeas em direção ao rio. O cântico noturno das rãs e dos grilos e outros animais que esperavam pelo breu da noite para se juntarem num autêntico concerto noturno.
Dentro de mim senti aquelas flores morrer, as árvores a arder, a floresta a ser esventrada, rasgada no seu âmago para abrir as estradas do progresso (?), tal como naquela manhã. Vi árvores caírem derrotadas e por fim mortas pela força da maquinaria usada pelo Homem. Aquela paisagem outrora bela desaparecera quase por completo. O antigo era subjugado pelo moderno como que dando por perdido o jogo. Sim, aquela paisagem bela tinha desaparecido.
Se o meu cantinho já sofria enjaulado com as investidas do Homem, na minha cidade de pedra passei então a procurar algumas origens. Debalde.

Os pequenos espaços pintados de verde por entre o cimento e os prédios da cidade que quase escondem o Sol eram uma visão redutora muito distorcida pois sentia que a vida, o mundo tinha mudado. As árvores e os pássaros que outrora voavam livremente pareciam-me agora ornamentos que completavam o cenário citadino com os seus famosos bancos de jardim gastos pelo tempo, onde apenas os mais velhos pareciam dar-lhe valor.
Vi automóveis em autêntica correria, as indústrias a roubarem espaço aos campos de verde vestidos mas que em breve servirão outros propósitos, outros interesses. Senti o cheiro a alcatrão e o aroma nauseabundo das fábricas que laboravam a todo o vapor.

Agora aquele quadro que eu desenhei na infância, para além dos meus sonhos só o via na televisão, outro nome que era novo para mim desde que me mudei para floresta de pedra. A tal caixinha que dizem, mudou o mundo. Se tivesse sido apenas a televisão! Mas não, agora parece que tudo tinha mudado para pior.
Em todas as tuas palavras via coragem. Lutaste e venceste na investida. Nunca vendeste a tua alma ao diabo. Sempre soubeste respeitar a natureza e dela apenas tirar proveito apenas para a tua sobrevivência. Não foste megalómano. Já eu vi o Homem ávido de ganância, de matar a natureza sem pensar no amanhã. E hoje vemos o resultado.

A terra, o mar e o ar mudaram de cor, até parece que mudaram de lugar. Tenho saudades de ser pequeno outra vez. Continuo a ter vontade de correr pelos campos outrora meus companheiros de jornada, tal como tu nas tuas pradarias. É este o nosso Mundo dois séculos depois, meu velho e bom Amigo. Eu sei que o nosso Mundo está a morrer lentamente pois basta estar atento ao que se passa diariamente nas mais variadas latitudes do planeta para considerar que realmente estamos a assistir á morte lenta do planeta outrora apelidado de… verde! Maior ironia não podia haver.
E o mais curioso é que aqueles que podiam fazer algo para mudar ou pelo menos atenuar parecem ser os que menos intervêm quando o tema é a mudança climática, o degelo….
Agem como se nada tivessem a dizer.
Onde nos vai levar esse silêncio?

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