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A miragem

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2016-02-21 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Cara mal lavada pela manhã e um sobressalto nos assola: como teriam fechado as Bolsas orientais? Continuará a economia chinesa a afundar? Que ventos virão de Xangai, de Tóquio ou Singapura?

Auscultamos a pulsação e medimos a tensão arterial dos mercados com mais zelo do que aquele que prestamos à nossa saúde, nutrimos com fartura um capital divino, consagrando-lhe as primícias do nosso labor e o bem-estar familiar, como outrora levávamos aos altares de deuses caprichosos e vingativos o que de melhor pudéssemos ter em casa, filhos, por vezes, sacrificados em oblação pura. E dizem-nos que tem que ser assim, que não há outra opção - there is no alternative! E não haver quem grite: ai, TINA, que eu fazia-te e acontecia-te!

Quanto não queiramos dar expressão à revolta, lá nos saem a caminho os agentes dos paninhos quentes, os especialistas na arte de caldear água fria sobre panelão borbulhante. Que a culpa no fundo é nossa, atestam, que se produzíssemos com abundância, que se fôssemos competitivos, nenhum Céu nos teria desabado sobre a cabeça, e que só à força de porfiados jejuns, acrescentam, e jornadas intermináveis de silício, purgaremos inenarráveis pecados.

Teríamos nós levado o País à ruína por nacional estupidez? Porque sejamos torpes? Ou porque de todo os altos nos ludibriaram, com a complacência arregimentada daqueles que desavisadamente elegíamos, eles que por si escapam ilesos a renovadas agruras?
Portugal não produz quanto baste para satisfazer as necessidades e as expectativas criadas! E não teríamos gasto anos sem jeito a desmantelar o aparelho produtivo em troca de compensações e subsídios, em favor de uma economia integrada? E como poderemos nós confiar a administração do remédio a quem tudo fez para difundir a doença?

Que malbaratamos ajudas, que não nos modernizamos, que não nos especializámos - tais serão as nossas faltas. Concluiria, juiz benévolo, que adolescente crédulo e influenciável, ter-se-ia Portugal rodeado de rufias, e que, para não parecer ridículo, para botar figura diante de flamejantes compinchas, todos os maus passos deu à menor das sugestões murmuradas, assim chegando ao despenhadeiro em que se viu.

No ponto em que estamos, parece não haver volta a dar, e mais uma razão para que bem reflictamos. A economia integrada e global em que deveríamos ter montado banca é uma acabada miragem - não lobrigamos lugar ao sol em tempo útil, e não será agora que o encontraremos. Era Portugal atractivo para investimento produtivo numa Europa de blocos, e passou a sê-lo menos com as múltiplas expansões a leste. Algumas vantagens conservaríamos no quadro de uma Europa proteccionista, e poucas se vislumbram no seio de uma economia sem barreiras alfandegárias, em que até alhos e amendoins vêm dessa remota China.

Esmaga-nos a produção de uma mão-de-obra contratada por tuta e meia, e, salvo excepções, não teremos como com eles competir. A China não chegou a este patamar sozinha, antes à custa dos capitais ocidentais inoculados em Frankenstein social, besta tricotada de capitalismo e comunismo, espelho dos defeitos, mais do que das virtudes que pudessem encerrar os progenitores.

Inchou, a China, por força dos esteróides financeiros injectados na linha de tratamento prescrito por Nobel doutor Kissinger. Agonizava, o império maoista, nesses idos de 70, no rescaldo da Revolução Cultural. E eis que descobre, a administração americana, que há comunistas bons e comunistas maus, e a uns se alia, quanto outros continua a combater. Lá engraçada é a História. Quanto à santa aliança - essa continua, porque remunerados são os capitais acima do que possamos imaginar.

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