Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A minha velha casinha

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2013-08-06 às 06h00

Escritor

CARLOS ALBERTO RODRIGUES

Aquela manhã de junho tinha despertado com chuva. De tal forma que me fez acordar de um sono profundo pelo cansaço acumulado na jornada anterior.

Era cedo. Por causa dos céus carregados de nuvens mal dava para vislumbrar o que fosse. Uma pequena trégua dada pelo rei astro pois nos dias que corriam a esta hora era impossível manter-se na cama, tal era a canícula do dia a dia. Mesmo assim, de um salto saí da cama, abri a janela de madeira e fui logo assaltado pelo aroma inconfundivel - no campo ainda mais - da chuva quando cai no pó seco da terra, o mesmo que ainda hoje sempre que chove leva-me até essa idade, onde tudo era puro e sadio onde não se conheciam vícios ou maldades, onde parecia que o mundo acabava ali e retratava tudo que de belo no seu esplendor existia.

Mantinha-me à janela a pensar, cabisbaixo, o espírito errante, enquanto procurava no escuro resposta para algumas coisas que iam aparecendo na minha vida pela primeira vez tal como acontecera com o primeiro riso, a primeira palavra que se tornou frase, o primeiro desenho, o soletrar das primeiras letras ou mesmo as reprimendas do mestre quando era preciso. Desta vez o assunto era outro e já que não me apetecia voltar para a cama preferi continuar ali, impávido mas sereno a pensar nela. Tinha-a visto uns dias antes e desde então não me saía da cabeça. Vinha-me á memória a sua pele de tez branca, cabelo da cor dos trigais num corpinho de cinderela. Devia ser mais nova que eu uns dois, três anitos. Mas os traços não enganavam: Seria daquelas por quem os rapazes iam correr, um dia, quando adultos pois por ora a pureza dos meus pensamentos não passava para além daqueles olhos azuis e da boca de onde surgia um sorriso que contagiava. De cotovelos aninhados sobre o beiral da janela, com os dedos a desenhar o seu nome no escuro, desejei saltar no tempo, vê-la adulta e por isso bela e perfeita. Queria saber se mantinha aqueles lábios que escondiam o sorriso que me ofereceu dias atrás. Senti-me melancólico. Pensei que os olhos dela podiam ter perdido o brilho daqueles dias quiça porque jamais a vi e por isso perdera por aqueles dias o furor. Não. Não se trata de sobranceria mas a verdade é que a vida com as voltas que dá nem sempre divide a felicidade como deve ser ou a quem, por direito.

Lembrei-me agora da elegia sanjoanina de Rui Veloso cuja letra anda à volta da noite de São João e ele no meio do corropio foi parar aos braços dela. Dançaram, beberam vinho e cerveja e acordaram manhã alta nas traseiras duma igreja. Á aflição dela por causa do pai, qual cavalheiro disse-lhe que o enfrentaria. O seu Pai queria alguém prendado enquanto ele tinha apenas o lume aceso para a abrasar. Termina:

Disseste que eu era demais Quase me chamas-te artista Nas carícias dos portais Mas era tudo fogo de vista.

Hoje talvez nada te falte O teu homem é Doutor Mas o teu olhar perdeu Daquela noite o fulgor
Por isso pergunto quantas elegias sanjoaninas e quantos finais como este aconteceram. Até talvez contigo, Não?

Ainda chovia. Acredito que só eu estava acordado naquela casa. Mas melhor assim. Aquela casa era especial. A cada chegada para as férias de verão ou de natal era uma ocasião festiva. Parecia sempre que era a primeira vez. Então por alturas da chegada dos filhos da terra que foram para fora tentar melhor sorte, a alegria era a dobrar. Era a ansiedade em receber brinquedos que meus tios traziam e que eu religiosamente tão bem tratava e guardava quando via que o seu prazo tinha terminado. Mas não os deitava fora. Por isso a minha paixão, hoje, pelas miniaturas, tantos foram os carrinhos, as motos ou mesmo os camiões que todos os verões e natais eu recebia.

E com eles, como se de um bónus se tratasse, vinham os meus primos. Todos juntos formavamos uma autêntica cinderela de alegria. Podia não ser rico mas tinha a maior riqueza que alguém pode desejar: família e saúde. Uma família humilde mas feliz.

Quem não gostava muito que andassemos todos juntos muito tempo era o meu avô. Significado de que a fruta mesmo verde era arrancada das árvores só pelo prazer de dar uma trinca para aferir se estava ou não “verde”, ou fazer dela moeda de troca nas nossas brincadeiras. Pior era quando alguém se lembrava que havia uma ou outra árvore porque pôdre no tronco precisava de ser derrubada. Procurava-se a foiçe ou mesmo a machada e zás. Menos uma no pomar. Daí até se ouvir raios e coriscos da boca de meu avô ia um pequeno instante. Mas como costumava dizer: Por mais que gritasse ou se zangasse era coisa de pouca dura pois ele era do tipo “querido avozinho” e estes nunca se zangam verdadeiramente com os seus netos. Assim era o Zé do Rita.
Homem respeitado e dado ao respeito lá na aldeia. Era o “enfermeiro” lá do sítio pois em tempos andou pelos corredores do hospital de Vieira do Minho e aprendeu a arte de dar injeções. Quantos rabiotes de homens e mulheres não lhe terão passado À frente...

De repente senti frio, reparei que o meu tronco franzino estava completamente molhado. Tinha despertado daquelas viagens que queria não tivessem fim. Era assim a minha casinha na aldeia: Qualquer hora do dia ou da noite serviam para refletir,enquanto olhava o estrelado dos céus ou as nuvens cor de chumbo. Cada dia aparecia para me dar lições de vida que fizeram de mim Homem, filho querido e neto amado, sobrinho desejado e saudado. Dou graças sobretudo pelos que já cá não moram. Foram eles a minha fonte de onde bebi cada gota de sabedoria ancestral, onde aprendi o bem e o mal e prometia que assim seria com meus filhos, como foram eles e meus pais para comigo. Apesar de desocupada e quase a cair ela será sempre a casinha que me viu nascer. Chovia menos, agora. Já vislumbrava lá longe as silhuetas das montanhas por detrás das quais brevemente, logo que a chuva desse tréguas, nasceria o sol e com ele o verde dos campos havia de parecer mais verde e as gotas que teimaram em manter-se sobre as folhas das árvores virariam pérolas pelo brilho do sol.

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