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A mentira como estratégia política

Nem um direito a menos

A mentira como estratégia política

Ideias

2020-01-26 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Que a mentira e a incoerência fazem parte integrante do cardápio da prática da maioria dos políticos, é verdade consabida. Por isso, os políticos têm, do ponto de vista popular, a fama de aldrabões, trapaceiros, impostores, gente sem coluna vertebral.
Que a falsidade é intrínseca à actividade política, quando deveria ser um exercício de honestidade, de nobreza de carácter, de seriedade e ética, também não é novidade para ninguém, sabendo-se por experiência de muitos anos que os políticos vivem muito da ausência (deliberada, a maior parte das vezes) da verdade, da verticalidade, da honradez. A História e a actualidade dão sobejos exemplos desse panorama tão indigno, sabendo-se, obviamente, que não há regra sem honrosa excepção. E não é justo que levem todos pela mesma tabela, mas acabam por padecer os justos pelos pecadores, como sempre acontece..

Numa altura em que tanto se fala de fake news, que é a pomposa designação anglo-saxónica para a mentira, a notícia falsa, talvez seja de olhar para o que se passa por esse mundo fora, nos dias que correm, em que a verdade é maltratada e açoitada diariamente, por estratégia política deliberada, no sentido de alcançar ou manter o poder, o que obviamente não deixa de ser um atentado à ética, à deontologia e à compostura que todos dizem defender.
É claro que a mentira como estratégia política não é de agora. Sempre se ouviu falar dela. Já o cronista Fernão Lopes relatava que, em Lisboa, quando se propagandeou que “mataram o mestre de Avis”, os populares se precipitaram para exercer vingança sobre os alegados criminosos, neste caso, os castelhanos. A verdade é que o mestre de Avis não foi morto, mas a mentira serviu objectivos políticos.

Outro exemplo: durante a Monarquia do Norte, altura em que foi restabelecido o regime monárquico por acção de Paiva Couceiro, durante 25 dias, entre 19 de Janeiro e 13 de Fevereiro de 1919, no norte do país, até à linha do Vouga, a Junta Governativa do Reino propagou um conjunto de notícias falsas para condicionar as populações. Insistia em divulgar que a monarquia se instalara triunfalmente por todo o território continental, o que levou centenas de pessoas a acatar a autoridade pretensamente estabelecida, por receio de retaliações ou por interesse, quando era certo e sabido que os realistas não passaram de Coimbra.
Em pleno salazarismo, também Portugal enviava para fora do país bens alimentares tidos como “sobras”, quando a generalidade dos cidadãos passava fome e privações.

Na História universal e nacional são múltiplos os exemplos destas mentiras divulgadas como verdades. Porém, foi com a emergência das redes sociais que a publicação das fake news se popularizou, “explodiu”, disseminou, influenciou e começou a inquietar os espíritos mais conscientes da sociedade.
Esse termo começou a ser usado com mais frequência durante as eleições de 2016 nos Estados Unidos, nas quais o inqualificável Donald Trump se tornou presidente, à custa de milhares de notícias falsas que fez propagar pelas redes sociais. Na altura, algumas empresas especializadas identificaram uma série de páginas electrónicas com conteúdo duvidoso, usando as redes sociais para denegrir os adversários, em especial a sua principal opositora, Hillary Clinton.

E Trump é de longe o maior dos mentirosos, dos aldrabões, dos que “vingam” na política, não à custa do mérito ou da competência, mas do embuste semeado criterio- samente nas redes sociais. Só o ano passado, envenenou as redes sociais com 2500 notícias falsas… Uma bestialidade.
Também a propaganda do Brexit, que saiu vitoriosa, utilizou a mentira, a falsidade, a manipulação, como estratégia para impor a sua verdade. A verdade da mentira.
A mesma estratégia foi utilizada no Brasil, para fazer eleger esse parvo que dá pelo nome de Bolsonaro, vindo a saber-se depois que todo o estratagema eleitoral passou pela disseminação pelas redes sociais e pelo WhatsApp de notícias falsas, de desinformação, relativamente aos adversários, de modo a tirar proveito directo dessa manipulação.

Se a manipulação dos séculos passados se fazia em pequena escala, hoje por hoje a maior das mentiras espalha-se, em tempo real, pelo mundo aberto que está disponível para aceitar a verdade, mesmo não o sendo, mas também a pós-verdade, que é essa patranha desenvolvida na internet e que toma notícias falsas (fake news) como verdades, apenas porque têm uma difusão massiva.
Pessoalmente, enoja-me profundamente essa forma de fazer política, que hoje está implantada no quotidiano por esse mundo fora, fruto directo da explosão das redes sociais, sem controlo, sem consciência, para pessoas desinformadas, analfabetas funcionais, preguiçosas, inconscientes, que se deixam manusear com a maior das facilidades.

E quem diz política, diz toda a forma de levar mensagens aos outros, seja pelas redes sociais, seja pelos meios tradicionais, utilizando como estratégias a desinformação, a mentira, a manipulação.
Como declarava no final do ano passado, Paulo Pena, autor do livro “Fábrica de mentiras: viagem ao mundo das fake news”, há todo um sistema organizado posto em prática pelas plataformas mais importantes, como o Google e o Facebook de financiamento destas notícias falsas. Ou seja, refere, “por cada clique que uma notícia falsa tenha, o Google paga uma verba em publicidade a essas pessoas que criam mentiras e isso alimenta o negócio”. Impõe-se, assim, uma regulação da actividade das grandes plataformas, para que as estratégias da desinformação e da manipulação deixem de ter a dimensão que têm hoje em dia.
O mundo não se constrói sobre a lama, ou sobre a areia da falsidade, mas sobre o granito duro da verdade, da ética, da seriedade, da hombridade. São esses os valores que valem a pena!

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