Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A Mellany, por Ângelo Abel Ferreira de Carvalho

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2011-07-11 às 06h00

Escritor

- Mamã - choramingou o garoto assustado, batendo de costas contra as pernas da mãe - tenho medo!
No impulso de um só movimento, a mulher elevou a criança do chão como quem a resgata de um rio com piranhas, recolhendo-a num colo de protecção maternal.
- Pronto - sossegando o pirralho enquanto se afastava - a mamã está aqui: o bicho não vai fazer mal ao meu menino!
O perigo vinha de um banco de madeira de pintura rala e assento gasto onde dois corpos tremiam de frio.
Ele, esqueleticamente dobrado - num gesto que ultrapassava a nobreza de um rei - puxou-a para si com delicadeza e abraçou-a com o cobertor, fundindo-se ambos ao abrigo daquela espécie de manto esfarrapado.
- Não ligues - sussurrou-lhe ao ouvido enquanto a acariciava - as pessoas são assim mesmo. Têm medo do que é dife-rente. Mas eu gosto de ti!
Ela olhou-o com a imensa ternura que o gesto merecia.
A doçura que aqueles olhos cor de mel derramavam, era inexplicavelmente mais meiga do que o olhar mimado e caprichoso com que o garoto brindara a mãe quando o levantou nos braços.
- Eu sei - disse-lhe ele baixinho, puxando-a mais para si - eu sei que tu também gostas mim.
Assim ficaram, embrulhados na flanela rompida que os unia na cumplicidade do frio e da vida.

Haviam-se conhecido há alguns anos atrás. Ela não sabia quantos, e ele não se lembrava mais: mas isso não era importante. Partilharam juntos o suficiente para ultrapassarem a necessidade de marcar datas e memórias.
Ele não lhe conhecia família alguma, ou amigos que se denunciassem na extrema debilidade em que a encontrara, um dia, num beco sujo da zona baixa da cidade. Desfalecida - quase coberta por uma caixa de papelão esventrada pelo vento - ela era uma coisa, enrolada em si mesma como um feto que tenta sobreviver mais alguns instantes para lá da fome.
- Calma - verbalizou o vulto que se aproximou com respeito - não te vou fa-zer mal. Fica tranquila.
Ela olhou-o, resignada e digna, ampliando o volume daqueles olhos cor de mel.
Foi a primeira vez que aquela estranha ternura o envolveu.

Na perspectiva do dono da mercearia, os dois vagabundos abusivamente insta-lados no bando de madeira que o minúsculo telhado cobria, eram uma ameaça ao prestígio da casa e à integridade dos seus clientes.
- Xô, escumalha - sacudindo a vassoura com alarido - xô, antes que eu chame a policia.
Mellany sacudiu o cobertor num ímpeto reactivo, mas uma mão segurou-a pelo ventre com firmeza:
- Calma princesa. Calma!
Aos olhos dela - duas gemas cristalinas de apícola néctar - não havia nexo na forma como iguais tratavam o seu protector: O ser humano é pior do que os animais!
- Vamos Mellany - dizia-lhe ele ao ouvido com ternura - vamos embora!
A neve caia doce, mas fria, inocentemente pesada na leveza dos flocos lentos.
Ela olhava-o, meiga, triste e impotente, caminhando a seu lado e deixando no chão as únicas marcas que a vida lhes permitia: pegadas ténues e voláteis, que a neve rapidamente cobriria!
- Ali - sussurrou ele indicando um banco no jardim - vamos para ali!
No dia seguinte uma pá que feria o gelo por baixo do banco, desnudou um farrapo que se desfazia.
Dois corpos, sobrepostos e congelados, jaziam sobre o manto que os unira. Os rostos, colados, enterneciam pela expressão conivente de um sentimento de paz que o abraço confirmava numa mensagem surrealista:
Por baixo - num aspecto esfarrapado - estendia-se o corpo de um homem precocemente envelhecido; Por cima - estendido na amplitude dos seus membros - um corpo peludo, no que parecia ser a derradeira esperança de aquecer o seu protector.
Embora de olhos fechados, escondendo a cor de mel, a cadela Mellany parecia sorrir!

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