Correio do Minho

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“A marquise do Ronaldo”

Onde está o meu peixe

“A marquise do Ronaldo”

Ideias

2021-06-14 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Há quem diga que, nunca como hoje, o tempo é propício a notícias, muitas e variadas notícias. A mudança que toma conta do mundo de uma forma tão visível quanto perene (afinal, a mudança é o motor do mundo e da sua transformação ao longo dos séculos) e a velocidade (cada vez mais crescente e, tantas vezes, incontrolável) que toma conta da mudança são germinadoras de notícias que vão pontuando e preenchendo o nosso quotidiano, ora de forma inquieta, ora como sinal de esperança, ora feitas retrato do que somos, ora reflexo do que ambicionamos ou do que não somos capazes. A notícia é, assim, parte de nós. E, entre conhecimento, informação, curiosidade e actualização, é (deverá ser) sempre motivo de interesse e atenção. “A marquise do Ronaldo” foi título de notícia nos últimos dias, e, dir-se-á, revela tema e protagonista que, relativamente à dimensão e profundidade de tantos problemas que o mundo enfrenta, será, apenas e só, nota de rodapé que se esfumará sem que nos apercebamos…

Seja como for, há notícias que, “valendo o que valem”, traduzem indirectamente algumas “outras coisas”, gerando constatações e deduções, conclusões e ensinamentos que, é convicção, talvez mereçam algum tempo de pensamento crítico. Não está em causa o objecto, a pessoa ou o local. Afinal, por esse país fora, seja litoral ou dito interior, seja no “campo ou na cidade”, seja quem for, não faltam situações similares de “marquises” e acrescentos, com ou sem controlo urbanístico e arquitectónico, com ou sem verificação municipal e legal. Nem está em causa a pessoa nem o local. Não há pessoas imunes à necessidade de espaço e conforto (que, acredita-se, se traduz na essência da “marquise”: procura de um pouco mais de espaço, esperança de um pouco mais de conforto) nem cidades isentas da multiplicidade de abordagens urbanísticas e arquitectónicas que abundam por este país fora…

Na verdade, tal não estando em causa, são esses mesmos objecto, pessoa e local que sinalizam a atenção do autor destas palavras.
Primeiro, pela natureza da obra: uma habitação que custa milhões de euros, pensada, desenhada e construída em nome de um padrão de oferta imobiliária completa e satisfatória de todas as necessidades espaciais e de conforto, onde “aparentemente nada falta”… ainda precisa de uma “marquise”, de um acrescento para mais um espaço, para mais “qualquer coisa” que investimento de “milhões” não foi capaz de antecipar e satisfazer.
Depois, pelo contexto da pessoa: alguém que conhece o valor do trabalho e o respeito pelo conselho avisado de quem é habilitado, que sabe e experimenta a eficácia da programação e o rigor do seu cumprimento, da importância de não divergir do caminho traçado e que conhece o quanto um passe ligeiramente mal medido ou um atraso ínfimo na chegada ao local da bola podem destruir ou aniquilar jogadas fadadas para o golo… limita-se a satisfazer a sua necessidade e vontade sem valorização ou atender à autoria e ao projecto…

Por fim, pelo local e Cidade: a Cidade é feita de relação (ou seja do contacto de um ser humano com outro ser humano) e enriquece-se e diversifica-se quanto mais relações e interacções for capaz de gerar. Construir edifícios e “nacos de território” fechados sobre si mesmos, arredados da vida da Cidade (embora ocupando espaços centrais da mesma) não é concretizar a urbanidade inerente à (boa) Cidade, antes fazer crescer e “engordar” colagem de edifícios no território que mais não são do que empreendimentos ensimesmados e fechados sobre si, como se o que se passa para lá das suas paredes exteriores não seja da “conta de todos nós”. Na verdade, não é o acto em si e a falta de sentido e, dir-se-á, respeito pela arquitectura e sua autoria. Nem tão pouco pela aparente ausência do chamado “licenciamento municipal” (sendo recorrente a pergunta: até onde seria capaz este “licenciamento municipal” de controlar e verificar, de acrescentar valor e qualidade, de atender à autoria?). Também não é pelo desfasamento de conceitos (será verdadeiramente uma “marquise” que está em causa?) nem pelo local (Lisboa não é diferente nem imune…). É a constatação de que, aparentemente, nada satisfaz e que é sempre preciso acrescentar “alguma coisa”, mesmo que esteja em causa investimento de milhões, espaços sobredimensionados que, por princípio e em princípio, deveriam responder a todas as necessidades; que há uma insatisfação permanente sobre o espaço habitacional e um permanente questionar crítico do acto de habitar, aparentemente tão mais próximo das nossas insatisfação e idiossincrasia humanas e não tanto incapacidade autoral de resposta a uma encomenda / necessidade. É a constatação de que a exigência se desvanece sempre em função deste nosso ímpeto de acrescentar “um tijolo”, tantas vezes, sem questionar verdadeiramente a necessidade, sem consultar verdadeiramente quem pode ajudar…

Naturalmente, sobre esta realidade subjazem problemas autoriais, de controlo legal, de paisagem e de integração… mas não deixa de ser central e impressionante o quanto um investimento financeiro superlativo, um edifício singularmente desenhado e construído, um local imensamente valorizado e reconhecido não são capazes de controlar e responder ao nosso impuldo de adicionar “um ponto ao conto”. E, friamente, relativizamos o significado da nossa atitude, o impacto do resultado, a indiferença perante espaços fechados e ensimesmados, que pouco ou nada revelam de urbanidade.
E tal, não sendo “a marquise do Ronaldo”, é Cidade em toda a sua latitude e significado… que a todos deveria importar e importunar para que, amanhã, a mesma Cidade possa ser melhor, por muito pouco que seja!

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