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A Manifestação de 2 Março: à espera dum Grillo português

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Ideias

2013-03-08 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Quem assistiu à manifestação ou a acompanhou pelas televisões, constata facilmente que é mais grisalha que a de 15 de Setembro. Nesta predominavam os jovens; agora avultam os idosos e reformados, pertencentes um mundo que está em desaparecimento, mas que se sentem roubados e esbulhados pelo Estado que lhes ficou com a parte do salário ao longo de 40 anos e agora não quer pagar.

Esta gente não está resignada a morrer como muitos desejariam. E se o governo pensa que basta estar calado, deixar passar a enxurrada, alterar uma política mais simbólica para tudo continuar igual, pode estar enganado.

Segundo a Teoria Política Clássica, estas manifestações inorgânicas, sem estrutura e sem líderes não deixam marcas. Os movimentos sociais para influenciar o sistema político necessitam ser articulados por uma liderança e a suas revindicações convertidas em propostas políticas. Ora, não tendo estes movimentos esses contornos, esvaem-se os seus efeitos.

Enganam-se mais uma vez os defensores da democracia representativa. As eleições italianas demonstraram que esses movimentos estão contra o sistema político considerado corrupto, seja ele governo ou os partidos da oposição. E se emerge um líder, é bem capaz de haver um terramoto político. A história está cheia de vários exemplos.

O isolamento do governo face aos cidadãos, a incapacidade da oposição e o controlo do Estado por grupos de interesses é o ambiente adequado ao nascimento das ditaduras.

O governo tem contribuído grandemente para esta situação. A sua política confunde-se com o acordo da Troika e mesmo que não existisse a Troika, o programa do governo seria o mesmo, de acordo com as declarações do Primeiro Ministro.

O governo está apostado em destruir a classe média, transformando os portugueses em mão de obra barata e pouco qualificada: um exército de assalariados ao serviço de um grupo dominante, constituído pelos bancos, empresas majestáticas e de capital estrangeiro, alguns grupos de interesses e a superestrutura partidária. Não é uma política económica, mas uma verdadeira engenharia social, meticulosa e friamente implementada. Mais que o cumprimento acéfalo do Programa de Ajustamento, é um Programa Político. Não é um programa neoliberal porque a centralização do Estado se tem acentuado, em nome de uma legitimidade democrática que já não existe porque desmentida pela rua que exige outra legitimidade, não meramente formal. O governo pensa ainda que com um pouco de pão e circo pode tornar a ganhar as eleições em 2015. Mas o mundo mudou e a ideia do português humilde e resignado está em extinção. E que fazem as oposições? Nada.

Movem-se num quadro político ultrapassado, não entendem as aspirações do cidadão, não conseguindo articulá-las numa estrutura aparelhistica desligada da realidade social.
Quem os ouve a falar e contrasta os seus discursos com que se passa na rua lembra-se da caverna de Platão, a qual não é espelho da realidade, mas tão só o desejo que a realidade fosse moldada pela ideia.

Em suma, o país está maduro para um Grillo. Basta avançar alguém credível. A manifestação 2 de Março demonstrou que o país não está adormecido e resignado, mas indignado com a falta de esperança e com a liquidação do futuro.

É necessário que esta revolta se traduza em comprometimento e que não fique pelo enfado, como acentua Stephane Hessel, o pai do “Indignai-vos”.

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