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A maior confusão política da República Portuguesa

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Ideias

2015-10-25 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O momento político que Portugal vive atualmente é complicado, é difícil, mas está longe de ser o pior ano político de todo o regime republicano. Houve, noutras ocasiões, anos em que a conflituosidade política atingiu momentos de verdadeiro dramatismo.
Neste contexto, recordar-se-á aquele que, por ventura, foi o pior ano político de todo o regime republicano português, que já tem 105 anos. Refiro-me ao terrível ano de 1921!

A nível económico, esse ano ficou marcado por pedidos de empréstimos frustrados, como o que ocorreu em agosto, quando Afonso Costa tentou contrair um empréstimo de 50 milhões de dólares junto de Jefferson Wiliams, mas não se chegou a concretizar por se descobrir que este era um burlão que usava uma identidade falsa. Como consequência, o presidente do Ministério, Tomé de Barros Queirós, demitiu-se.

Esta situação agravou mais ainda as dificuldades dos portugueses, onde a fome e a miséria passaram a fazer parte do seu dia-a-dia. Em Braga esta realidade era bem visível: os escassos alimentos, que se encontravam à venda, eram de imediato comprados pelos açambarcadores de bens alimentares que, posteriormente, os vendiam a preços mais elevados.

O domínio que estes açambarcadores faziam dos alimentos era de tal modo preocupante, que motivou mesmo uma reunião no Governo Civil de Braga (23.11.1921) e presidida pelo Governador Civil, José Leão Ferreira da Silva. Nessa reunião, ficou decidido que a “Comissão Distrital de Abastecimentos” iria reprimir violentamente todos os açambarcadores de bens alimentares, assim como adotar medidas que impedissem a saída desses bens para fora do concelho de Braga.
Exemplo desta realidade foi o que aconteceu em Braga, no dia 22 de novembro de 1921, quando a Polícia Civil apreendeu, na estação do caminho-de-ferro desta cidade, 193 galinhas, que tinham como destino a Espanha, sem qualquer autorização. Estas galinhas foram depois colocadas numa capoeira que existia no Comissário da Polícia de Braga, para posteriormente serem distribuídas pela população.

O dinheiro quase não circulava e, quando isso acontecia, desconfiava-se da origem do mesmo. A polícia fazia várias diligências, para descobrir alguns falsificadores de notas. Uma dessas suspeitas motivou mesmo a ida do Chefe da Polícia de Braga, Carlos Machado, a V. N. de Famalicão, no dia 6 de agosto de 1921, no sentido de tentar descobrir quem eram os passadores de notas falsas que aqui eram distribuídas.

O dramatismo do nosso país ficou ainda mais evidente no plano político. Só entre janeiro e agosto de 1921 (oito meses), existiram quatro Governos: o primeiro, liderado por Álvaro de Castro; o segundo, por Liberato Pinto; o terceiro, por Bernardino Machado e, o quarto, por António Granjo!
Os ataques, as perseguições e os atentados políticos faziam parte do quotidiano dos portugueses.
Em outubro de 1921, passam agora 94 anos, uma revolta militar derrubou o Governo liderado por António Granjo. Os momentos que se seguiram foram arrepiantes! No dia 19 de outubro, de madrugada, “Uma camioneta sinistra, com soldados, marinheiros e civis armados, andou à procura de figuras públicas: Machado Santos, António Granjo, Carlos da Maia, Freitas da Silva, Botelho de Vasconcelos, entre outros”. (1)

A descrição seguinte tem contornos inéditos, em Portugal, e totalmente macabros: “António Granjo, ouvindo as coronadas na porta da sua residência, refugiou-se pelas traseiras, em casa do seu vizinho e opositor político, capitão Cunha Leal. Foi aí que os assassinos o prenderam. Levaram-no na camioneta da morte para o Arsenal e abateram-no a tiro. Cunha Leal foi ferido. O comandante Carlos da Maia discutiu com os «insurrectos» e a esposa, com um bebé nos braços, implorou que não lhe levassem o marido. Em vão. Foi também abatido no Arsenal. O mesmo sucedeu ao capitão-de-fragata Freitas da Silva, chefe de gabinete do ministro da Marinha.
O coronel Botelho de Vasconcelos, sexagenário, antigo ministro de Sidónio, pediu que lhe deixassem fumar um cigarro antes de morrer. Machado Santos foi fuzilado no Intendente. O motorista da camioneta fantasma, Carlos Gil, recusou-se a continuar. Foi assassinado numa taberna. Tamagnini Barbosa (outra das possíveis vítimas) foi salvo por um ferroviário amigo, chefe da estação de Oeiras”. (1)

Os momentos seguintes foram de reprovação geral, por parte de todas as forças políticas portuguesas, que demonstravam o verdadeiro horror que se vivia em Portugal!
Para João Chagas, “O Manuel Coelho preside a um governo que ninguém quer fazer parte. O António José de Almeida fala em ir-se embora. Os partidos desapareceram. Os chefes, como o António Maria da Silva, a quem também quiseram matar, andam escondidos”!
Foi neste contexto político e social que surgiu a célebre revista “Seara Nova”, cujo número 1 saiu a 15 de outubro de 1921, e da qual faziam parte Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Câmara Reis, Jaime Cortesão e Raul Proença.

Quando recordamos estes momentos e os comparamos com os vividos na atualidade, facilmente concluímos que a confusão política de hoje é bem suportada pelos portugueses, fruto da sua maturidade, que advém dos 105 anos de República, e dos últimos 41 anos de Democracia.

1) Saraiva, JH, MLG, “Diário da História de Portugal”, SRD, Lisboa, 1998.

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