Correio do Minho

Braga, terça-feira

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A Livraria Municipal Bracarense Pereira Caldas

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2017-05-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Na nossa sociedade existem pessoas que ficam na memória coletiva devido ao contributo que deram para o desenvolvimento da sociedade do seu tempo.
Uma dessas pessoas foi o Professor José Joaquim da Silva Pereira Caldas, que nasceu em Vizela, a 26 de janeiro de 1818. O seu desempenho na área da política, do ensino e da cultura, tornaram-no numa referência da segunda metade do século XIX.
Foram várias as áreas em que Pereira Caldas se destacou, mas aquela que quero recordar relaciona-se com o seu gosto pelos livros. Depois da morte da sua esposa, em 1856, e da sua única filha, em 1882, Pereira Caldas sentiu-se sozinho no mundo. Por essa razão, e numa altura em que pressentia que eram escassos os anos de vida que lhe restavam, preocupou-se muito com o destino a dar ao seu espólio bibliográfico, considerado na época uma das melhores bibliotecas particulares de toda a Península Ibérica e que mereceu, inclusive, a visita do Imperador do Brasil, D. Pedro II.
Foi nesse contexto que Pereira Caldas endereçou uma carta à Câmara Municipal de Braga, em maio de 1886, a apresentar uma proposta de criação da “Livraria Municipal Bracarense Pereira Caldas”. A enorme importância dessa carta merece a transcrição na íntegra:
“Exc-mos snrs. presidente e vogaes do senado municipal bracarense: - Achando-me sem família no mundo, no ultimo quartel da vida, e sofrendo cada vez mais os anexos concomitantes dos anos, desejo dispor dos meus livros predilectos, que tanto me custaram a coleccionar para constituir com eles uma livraria particular, de que no paiz e fôra d’elle é conhecido o renome como uma das mais selectas e abundantes, para que parece escassa a vida de um só homem, e parcos os meios de uma só pessoa ainda.
Offereço-os, por isso, ao ilustre senado bracarense, para com eles constituírem aqui em Braga uma livraria especial, na convicção de que presto um serviço de valia a esta capital do Minho, pátria adoptiva para mim, e onde tenho nas valas mortuárias entes caríssimos da minha extinta família, desde 18 de abril de 1882, com a morte sentidíssima da minha filhinha Idalina Augusta Pereira Caldas, ultima pessoa dessa família minha.
É meu desejo intimo que a livraria com os meus livros por v.ex.ªas organizada na menor delonga possível de tempo, conserve o nome do senado por v.exc.as representado, adjuntamente com o meu também: e parece-me razoável, para isso, a designação que lembro a v.exc.as - Livraria Municipal Bracarense - Pereira Caldas”.
Offereço a VV. EE. esses livros meus, que v. exc.as poderão examinar directa ou indirectamente, por metade do valor e estimação d’elles em amigável avaliação estatuída por ambas as partes.
Não exijo ao senado bracarense, nem capital nem juros do valor aludido: quer simples e unicamente, de seis em seis mezes até completa extinção da dívida por v. Exc.ª contraída, a semestralidade de reis 150$000 em metal sonante.
No contrato a este respeito exarado, estatuir-se-á no meio das clausulas e condições, que nunca nenhum dos livros, por mim oferecidos, possa da livraria municipal sair para fóra, seja qual for o pretexto para isso alegado, e dimanado embora seja de quem for.
Durante a minha vida, que não será longa sem duvida, pedia eu ao ilustre senado bracarense, para eu em subordinação a elle preservar os aludidos livros como bibliotecário respectivo: - com o que nada tem o município a perder e antes a lucrar e todos os respectivos bibliológicos.
Logo que VV. EE. obtenham casa fixa e opportuna, para a colocação conveniente dos meus livros oferecidos, ficam á disposição do senado bracarense esses livros todos.
Tendo-me custado muito reunir, e com não poucos sacrifícios pessoais, descerei descançado á valla mortuária, vendo-os assentes com ordem n’uma casa fixa, livres dos baldões e extravios a uma casa d’aluguer inherentes, e a que eu de nenhum modo os queria ver condemnados, ainda debaixo da minha vigilância em vida.
Ainda em avaliação bibliológica aludida - a VV. EE. o afianço aqui solemnemente - eu arredondarei a verba total em beneficio do ilustre senado bracarense, e d’esta cidade que do coração estimo.
Em reda d’estas clausulas e condições em summa, oportunamente exaradas com reciproca segurança legal, prestamos nós todos a Braga um serviço prestimoso, como em consciência tem para si:
O Professor Decano do Lyceu de Braga, José Joaquim da Silva Pereira Caldas - Ill-mos e exc.mos snrs. presidente e vogaes do senado municipal bracarense”.
Deste modo, a Câmara Municipal criou uma comissão para analisar esta proposta, composta por ilustres figuras da época: José Borges de Faria, António Maria Pinheiro Torres, Alves Mateus, José de Sousa Machado e ainda Bernardino Senna Freitas. No entanto, não concordou com a proposta apresentada por Pereira Caldas, que ficou desta forma sem efeito.
A partir dessa altura, a biblioteca particular de Pereira Caldas foi perdendo o seu acervo, que ficou repartido pela Biblioteca Pública de Braga, Biblioteca Martins Sarmento (Guimarães), Biblioteca Nacional e Biblioteca do Liceu Nacional de Braga. Contudo, muitos dos seus valiosos livros encontram-se hoje em parte incerta.
Podemos afirmar, claramente, que a figura de Pereira Caldas não foi devidamente respeitada pelas instituições portuguesas, devido à rejeição pela Câmara Municipal de Braga, do pedido de criação da “Livraria Municipal Bracarense Pereira Caldas” e pela rejeição da atribuição do seu nome ao Liceu de Braga, preferindo o de Sá de Miranda.
Pereira Caldas morreu em Braga, a 19 de setembro de 1903, sem ver o seu principal desejo concretizado: o da criação da “Livraria Municipal Bracarense Pereira Caldas”. Creio estarmos ainda a tempo de lhe realizar uma justa homenagem. Haja bom senso e conhecimentos para a efetuar.

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