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A literatura e a língua

Mil lutas no caminho de Abril

A literatura e a língua

Escreve quem sabe

2021-04-11 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

A literatura é, sem dúvida, uma das mais elevadas representações do espírito humano e deve ser apropriada como património de todos.
Ler textos literários é vivenciar todo um mundo diferente, que de outro modo não conheceríamos. O uso da língua tende a não ser normativo, mas cunhado de vários matizes que remetem para uma leitura mais demorada, mais minuciosa e, consequentemente, mais rica.
Língua e literatura estão, pois, intimamente ligadas. Quanto mais lermos, mais vocabulário ficamos a conhecer, mais estruturas linguísticas descobrimos, para não falar do que obtemos do próprio universo textual. A estória que nos é contada não pode ser dissociada do modo como é contada.
Enquanto professora de Português, apaixonada pela linguística, luto por não dissecar o texto literário quando o apresento aos alunos, mas procuro fazer-lhes ver que a forma como o texto está escrito também é importante. A fuga à norma de Saramago, nos domínios da pontuação e da sintaxe, é uma marca distintiva da sua escrita que será mais bem compreendida se os alunos souberem as regras canónicas. Os diálogos das personagens, inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, sem recurso ao travessão, não são apenas uma marca linguística. Esta opção, para além de compor uma macha gráfica distintiva, propicia uma vigorosa sensação de entrosamento entre o leitor e o texto, coadjuvada pelas constantes interpelações ao leitor, criando, também, uma sensação de cumplicidade entre este e o narrador.
A riqueza vocabular de Eça só é plenamente percebida se tiverem lido outros autores e obras de períodos anteriores, também pa-ra saberem como era usada a língua. Reconhecer a inovação da dupla e tripla adjetivação, muitas vezes com uma função caricatural ou satírica (“Dâmaso era interminável, torrencial, inundante a falar das suas conquistas”, Os Maias) ou do uso do advérbio ao serviço da ironia (O Eusebiozinho foi então preciosamente colocado ao lado da titi”, Os Maias) é tão importante como conhecer o romance entre Maria Eduarda e Carlos ou identificar a crítica social.
Não compreender a linguagem de um texto é, quase sempre, causa direta da sua rejeição por parte de quem lê. O escasso domínio vocabular acarreta consequências consideráveis, visto que pode impedir o completo entendimento dos textos, para já não referir a sua fruição. Mas, não devemos desistir do que é difícil.
Claro que o recurso a dicionários e glossários a cada passo não abona na construção do gosto pela leitura, mas quanto mais lermos, menos temos de recorrer a eles. Ler e reler é um percurso pessoal, marcado por momentos de descoberta e euforia, mas também por momentos de desânimo e frustração.
Como escreveu Italo Calvino, no famoso Por que ler os Clássicos?, “as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude. Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aquelas constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido.”
Na semana que hoje começa, tire um livro da prateleira, esquecido no tempo, e releia-o. Tente lembrar-se de como foi lê-lo pela primeira vez. Certamente que, agora que o revisitou, tem uma perspetiva diferente, mais enriquecedora, pois aporta à leitura a sua experiência de vida, o contacto com outros autores e outras obras.

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