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A lição dos gnomos de jardim

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A lição dos gnomos de jardim

Ensino

2022-05-18 às 06h00

Ana Filomena Curralo Ana Filomena Curralo

Públicos ou privados, domésticos ou laborais, os espaços exigem uma crescente flexibilidade no sentido da multifuncionalidade. Isto ficou bem patente durante a recente pandemia. Os espaços revelaram-se adaptáveis a novas realidades.
Através de processos simples de transformação pelos próprios utilizadores, os espaços permitiram ressignificação e novas vivências, intercâmbio e pluralismo colaborativo. Enriqueceram patrimónios emocionais, num paradigma ecológico de reconversão e reabilitação, reciclagem e reutilização. No modelo de promoção da autonomia do utilizador, as salas de estar tornaram-se salas de aula e home-office. Salas de reuniões tornaram-se salas de espera. Estes são os espaços dinâmicos, passiveis de reconfiguração, abertos a novas funções e diferentes atividades.
Este dinamismo e abertura, próprio da modernidade líquida (Bauman, 1925- 2017) traduz também a abordagem experimental típica da arquitetura moderna. Na década de 1920, Le Corbusier (1887-1965) projetou um bairro residencial para trabalhadores fabris: a Cité Frugès de Pessac em França. A intenção era aliar arte, progresso social e inovação construtiva. Do ponto de vista social, as moradias foram equipadas com os elementos de conforto mais inovadores em termos de equipamentos e disposição dos espaços. Foi uma das primeiras cidades-jardim para a classe trabalhadora de acordo com os cânones da estética moderna. Plasticamente é uma obra de arte, com formas vanguardistas e policromia impactante. Do ponto de vista construtivo, foi um local de experimentação sem precedentes em modularidade e padronização.
Contudo, os operários não se identificaram e recusaram-se a mudar para o novo bairro. Mais tarde, os residentes adicionaram novos telhados, persianas rústicas, cercas de estacas, e estatuetas decorativas de gnomos de jardim.
Hoje, o espaço Pessac é um marco arquitetónico de contornos museológicos. Monumento histórico, o conjunto é património mundial da Unesco. Os telhados, vedações e gnomos de jardim foram removidos. Contudo, Le Corbusier talvez não aprovasse essa “esterilização”. A força dos seus desenhos reside exatamente no facto de serem tão facilmente adaptados. Questionado sobre os gnomos de jardim, declarou que é a vida que está sempre certa; o arquiteto é que está errado. Ou seja, a primazia não é da ideia abstrata, por melhor que seja. A primazia é do individuo que habita, que vive o espaço.
Na década de 1960, o designer Robert Propst (1921-2000) criou o "The Action Office" um sistema elegante de mobiliário de escritório para a empresa Herman Miller. Os cubículos em planta aberta permitiam aos trabalhadores sentar, ficar de pé, deslocar-se e configurar os espaços conforme as necessidades. Porém, foi construído um sistema de divisórias modulares baratas. Segundo o designer, buracos estéreis para ratazanas. Eliminando o conceito chave de acção (Action Office), numa filosofia anti custos, os gestores da empresa excluíram o arbítrio dos trabalhadores, amputando a sua criatividade.
Na década de 1990 o designer italiano Gaetano Pesce (n. 1939) foi contratado para conceber o primeiro open office para uma agência de publicidade. Pretendia que os trabalhadores tivessem o mínimo controlo sobre os espaços, deixando os seus pertences em cacifos, para se sentarem em locais avulsos e impessoais. Sendo inovadora a ideia de um escritório virtual, a “esterilidade” do espaço gerou sobretudo distrações e queixas de prejuízo ao processo criativo.
Em relação à casa, a empresa deveria proporcionar um ambiente de trabalho muito superior, por ser concebido com esse fim. Mas apesar de o espaço em casa ser exíguo, o trabalhador é livre de se rodear dos objetos que entende, e de organizar o espaço como for mais conveniente. Parece trivial, mas é essencial. Humaniza o que é humano.
Na nova sociedade líquida, de impermanência de coisas e pessoas, espaços dinâmicos satisfazem diferentes exigências espaciais em simultâneo, e satisfazem rapidamente novas exigências. Numa era de liquefação das certezas, incluindo laborais e económicas, organizar o espaço de acordo com as próprias necessidades é um exercício de livre-arbítrio e expressão da vontade, sendo o bem-estar e a participação ativa do trabalhador um fator de coesão, motivação e produtividade.
Ao contrário da imutabilidade projetada para os nossos antecessores, os espaços dinâmicos são flexíveis e ajustados à complexidade atual, com diferentes materiais, formas e volumes; diferentes relações com o espaço interior e exterior, com a família e o trabalho, consigo e com o mundo. Espaços dinâmicos refletem atitudes permeáveis, influências externas e as mudanças na sociedade. Híbridos e fluídos, adaptam-se ao presente, à diversidade e permeabilidade que caracteriza o momento em que vivemos. Esta é a lição dos gnomos de jardim.

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