Correio do Minho

Braga, terça-feira

A linguagem é um corpo com poder de fascinação

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2015-08-18 às 06h00

Escritor

Alexandra Pinto

Um homem jovem oscilava na minha órbita como uma partícula com carga. Girava em torno da minha inteligência, que parecia exercer sobre ele um certo domínio. Eu estava quieta e usava palavras pouco comuns, como ele referia. Ensinei-lhe o significado de algumas que não conhecia. No exercício subtil da minha expressão, que era o meu modo de me dar, utilizei sinónimos que lhe eram igualmente estranhos. Quis explicar que por vezes o meu único anseio é o anódino momento em que das minhas entranhas todo o peso se esvai, quando o recuo das sombras me liberta espaço. “Anódino?” Perguntou-me. “Sim, lenitivo.” Olhou-me com surpresa. Rimo-nos. “O que acalma a dor.” Expliquei. Ficamos em silêncio.

“Ok. Agora percebi.” Senti que aquelas palavras me perscrutavam. Até no silêncio podia constatar um aglutinante interesse, como se um fascínio o absorvesse. Eu movia-me com graça, com subtileza e determinação. Qualquer gesto meu era uma encenação bela a seus olhos. Senti que me avultava em graciosidade feminina. Não era de mim que o encanto nascia. Eu sempre me sentira uma terra árida. Longínqua. Um pouco indomável, até. Caminhava sozinha, habituada aos meus próprios limites.

A elegância que sentia só me pertencia naquele momento. Ele devorar-me-ia se eu o deixasse. Avistava a nudez do homem e imaginei sem qualquer pudor o corpo jovem, ainda belo. Vi com clareza o dorso do seu desejo. A linguagem era um corpo com poder de fascinação que nos unia na estranheza e no imprevisto lugar do encontro. Se a distância do tempo e das figuras nos tornava um dueto improvável, era também essa separação que fundava o fulgor e a potência aterradora que me atraía nele.

A beleza que eu reclamara assistia-me. Ela chegara através do sussurro erótico dos corpos. E cada um inventava do outro a imagem que desejava preservar. Eu sabia. E por mais que me desse ao inesperado instante, que se demorava ainda em virtude da minha relutante e recuada falta de coragem, eu sabia que a travessia seria breve. Não permaneceria ali por muito tempo porque aquele lugar não me pertencia. Eu tinha apenas uma dúvida, a de saber no momento da partida qual dos dois partiria partido.

Deixei-me mergulhar na opiácea doçura como se lhe recebesse já o membro e senti no meu ventre um barco partindo. Nos meus seios imaginei-o náufrago e cada gesto seu uma onda soçobrando-me. Naquele momento, o movimento musical que a volúpia compunha, e que pendia sobre a minha imaginação, fez-me desejá-lo de um modo que era mais ficcional do que real. Nessa viagem confiava-me a um gosto antigo, como alguém que, depois de deixar o continente dos afectos, regressa finalmente ao lugar do desejo. Eu mantinha a mesma velha distância, mas pouco a pouco encontrava no meu antigo vício de solidão um trilho que lhe abria passagem até mim.

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