Correio do Minho

Braga,

A língua tem boa caixa!

A vida não é um cliché

Ideias

2012-02-13 às 06h00

Artur Coimbra

1. Há dias em que um primeiro-ministro não deveria colocar a boca fora do trombone! O actual tem-no feito mais do que seria desejável, e até admissível, a um homem a rondar o meio século de vida.

Diz-se que Passos Coelho tem facilidade de expressão, que “fala bem”, no seu “politiquês” comum a outros dos seus pares, mas que denota um vocabulário curto e pobre. Por isso, é que, não raro, resvala para os dislates e para uma tipo de linguagem que, admissível em tertúlia de café, não se tolera num espaço público em que os políticos se movem.

José Pacheco Pereira chamava a atenção, este sábado, para a muita asneira e ignorância que circula pela “politocosfera”, sobre cultura e História e que levam pessoas, como o primeiro-ministro, a dividir os portugueses em categorias perfeitamente idiotas, como aquelas dos “descomplexados competitivos” e dos “preguiçosos autocentrados”.

Os primeiros, serão os empreendedores, os homens da iniciativa e do risco; os segundos, serão os antiquados, os tradicionalistas, os pobres. Os acomodados com a sorte e o país!

Há dias, nesta primavera antecipada, o primeiro-ministro insultou os cidadãos mais sofredores e sacrificados, acoimando-os de “piegas”. Uma ofensa inqualificável aos portugueses em geral e sobretudo aos que fazem das tripas coração para aguentar a aflitiva situação em que o país foi colocado, e não foi pelos trabalhadores e pelos pensionistas, seguramente.

Talvez quisesse dizer “maricas”, “fracos”, “lamechas”, “efeminados”, “fraldiqueiros”, sempre a queixar-se da vida e das dores de barriga, sem estofo másculo para suportar uma ideologia de austeridade pela austeridade, como só os “patriotas” conseguem e merecem. E é em nome desses portugueses não mimalhos, ausentes de sentimentalismo balofo, empreendedores, que o Pedro, o Miguel, o Vítor e o Álvaro trabalham no duro, sem lamechices, sendo pena quer não tenham eles próprios a imensa vontade que estimulam nos outros, sobretudo nos jovens: a de abandonar a “zona de conforto” e atravessarem fronteiras, sendo escassíssimas as saudades que por cá deixariam!...

Como escreveu Manuela Moura Guedes, cheia de razão, numa frase que espelha cabalmente o que se está a passar, “em Portugal, não há revoltas, só há piegas que aguentam cortes nos salários, nos subsídios, nas pensões, que aguentam subidas de impostos, nos bens essenciais, no custo de vida. Há preguiçosos que trabalham mais que qualquer outro europeu”.

Alguém tem de informar o primeiro-ministro que o povo não suporta enxovalhos gratuitamente. E que deve moderar a linguagem a roçar o primarismo, sob pena de vir a colher os “frutos” das sementes que vem lançando com a maior ligeireza!...

Outro momento de imprevidência linguística do primeiro-ministro teve também direito a parangonas.
Depois de ter troca-tintado tudo quanto prometeu na campanha eleitoral, foi ao parlamento apostrofar que “cumpriremos o que manda a tróica, custe o que custar!”.

A frase foi considerada um mimo de oratória e um emblema da determinação de espezinhar o povo português, se necessário, para conseguir que os agiotas europeus e americanos ganhem muito dinheiro com a desgraça dos países periféricos, neste caso, à nossa custa. Uma expressão absolutamente paradigmática de uma política que não olha a meios para atingir os fins. Uma política sem escrúpulos, sem moral, sem ética. “Custe o que custar”, nem que em prejuízo do sofrimento do povo, do aumento do desemprego, do empobrecimento generalizado. Neste cenário, que importância têm mais umas centenas de miseráveis, uns milhares de desempregados, uma classe média a resvalar para a pobreza envergonhada? São ninharias no grande desígnio nacional do pomposamente reiterado “ajustamento orçamental”.

“Custe o que custar”, haveremos de chegar. Nem que já não haja povo, nem economia, nem empresas, nem comércio, nem serviços, nem juventude, a quem o Estado (todos nós) paga(mos) para se formar e depois o governo manda emigrar, num esbanjamento de recursos humanos e económicos absolutamente deplorável!...!...

Como diz o nosso povo sofredor, na sua eterna sabedoria, que parece não chegar às portas de S. Bento, “a língua tem boa caixa”!...

2. No meio destas trapalhadas linguísticas, quase passa despercebida a decisão do primeiro-ministro de quebrar uma tradição cultural (e turística, e económica) do povo português.

«O Carnaval não é um feriado» e «não estamos num ano qualquer», alega. Foi a «emergência nacional» que levou «à eliminação de quatro feriados», pelo que, no entender do primeiro-ministro, não fazia sentido manter uma tolerância de ponto. «Não estamos em tempo de falar de tradições. Não é tempo de ficar agarrado às velhas tradições; o que nós queremos é vencer as dificuldades».

Que importam as velhas “tradições”, afinal, questiona o primeiro-ministro, de espírito desempoeirado e futurista?
Nem importa equacionar a “forma deplorável” como foi anunciado o fim da tolerância de Carnaval, a escassos dias da sua realização, num manifesto desprezo pelos elevados investimentos que muitos municípios e instituições fazem nos festejos um pouco pelo país e também pelos próprios trabalhadores que, com antecedência, já tinham programado o gozo do dia.

Mas “direitos adquiridos” e “tradições” não existem para o primeiro-ministro, sobretudo quando se trata dos trabalhadores, e em particular os da função pública. Os “direitos adquiridos” das parcerias público-privadas, por exemplo, não podem mexer-se. Os contratos leoninos são para manter intocáveis, custando milhões ao erário público. Um simples dia de Carnaval, que nem aquece nem arrefece na produtividade e na competitividade da economia portuguesa, é içado como bandeira da ideologia da austeridade, do paradigma do trabalho a caminho da servidão, como resulta da famigerada “concertação social”.

Paradoxalmente, ou não, a resposta está a ser dada por dezenas de autarquias, de norte a sul do país e pelos governos das regiões autónomas, que se estão positivamente borrifando para as orientações do primeiro-ministro e para a sua sede insaciável de levar os trabalhadores a laborar cada vez mais por menos dinheiro!...

Mas, como bem referiu o seu correligionário, António Capucho, “nesta fase de depressão, não tinha mal deixar as pessoas festejar”. E não!...

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