Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A lição de Trump

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-11-22 às 06h00

Jorge Cruz

Uma pessoa imbuída de ideias capitalistas, que sempre as praticou na sua vivência quotidiana, nos seus negócios e até nas suas relações, pessoais e profissionais, dificilmente opera uma transformação tão radical que lhe permita, aos 70 anos, modificar tão profundamente a sua maneira de pensar e a sua forma de estar na vida.
Vem esta nota introdutória a propósito de algumas análises ao resultado das presidenciais nos Estados Unidos, análises que nos sugerem que o Presidente Trump vai ser substancialmente diferente, do ponto de vista do seu pensamento político e consequente conduta, daquilo que o cidadão Trump experienciou ao longo da sua vida.

Acontece que o currículo do 45.º Presidente dos Estados Unidos está longe de corresponder a uma carreira exemplar, do ponto de vista do interesse público, bem pelo contrário, até contém alguns sinais potencialmente assustadores, para os americanos e para o mundo. E nem sequer me estou a referir às sucessivas polémicas que o multimilionário protagoniza com inusitada frequência, e que frequentemente são abrangidas pelas teias da justiça, ou às contradições em que se envolve a propósito das questões mais díspares.

O próximo presidente americano, curiosamente o mais idoso a assumir o cargo num primeiro mandato, não possui qualquer prática prévia de administração pública, quer a nível de governo quer a qualquer outro. Acresce ainda que a área militar, cujo domínio se afigura essencial nas novas funções, também é para ele completamente desconhecida. Ou seja, o presidente da nação mais poderosa do mundo não tem qualquer experiência política. Um personagem tão inexperientemente preparado para assumir os destinos de uma superpotência como são os Estados Unidos da América constitui um facto que tem tanto de inédito como de surpreendente. Claro que não se podem fazer juízos precipitados, há que esperar para ver, mas convenhamos que não estamos a falar de minudências, antes de factos relevantes que pouco têm de tranquilizantes, até pelas opiniões que o próprio já transmitiu e pelas atitudes que assumiu.

Temos, assim, que a grande experiência de Trump foi adquirida no mundo dos negócios, um mundo onde de facto ele se move com extraordinária facilidade e onde se sente, passe a expressão, como peixe na água. Mas temos de convir que o governo de um país, por muito pequeno que ele seja, o que claramente não é o caso, é um desafio substancialmente diferente da gestão de um conglomerado de empresas.
Desse ponto de vista, parece líquido que os Estados Unidos e o mundo poderão ter um problema sério entre mãos. Todavia, e como já tive oportunidade de sublinhar anteriormente, não nos podemos deixar dominar pelo cepticismo, há que aguardar porque em boa verdade não é lícito cruxificar uma pessoa que ainda nem sequer tomou posse do lugar para que foi legitimamente eleito.

Claramente nesta linha de raciocínio, o ainda Presidente Obama fez um périplo por alguns países para deixar mensagens de confiança e, dessa forma, tentar acalmar os responsáveis políticos.
“Acho que será importante para todos, em todo o mundo, não fazer juízos de valor imediatos, mas dar a este novo presidente eleito a oportunidade de montar a sua equipa, examinar os temas e determinar quais serão as suas políticas”, aconselhou Obama. Na capital do Perú, onde se deslocou para participar no Fórum de Cooperação Económica Ásia Pacífico (APEC), o Presidente americano manifestou-se convicto de que com Trump não haverá “grandes mudanças” na política atual dos EUA em relação à América Latina, admitindo contudo que possam surgir “tensões” no âmbito do comércio, devido às propostas defendidas pelo em- presário durante a sua campanha.

Assim, em vez de gastarmos as nossas energias em campanhas mais ou menos violentas, no plano retórico, obviamente, creio que seria mais útil e oportuno analisar as causas deste resultado eleitoral nos Estados Unidos. E convém fazê-lo rapidamente porque o “vírus” que transporta, entre outros, o populismo e o nacionalismo parece já ter atravessado o Atlântico para dar força a alguns protagonistas políticos europeus que, felizmente, têm andado arredados da órbita do poder. Aliás, nem por acaso, numa sondagem ontem divulgada, a líder da extrema-direita francesa aparece em primeiro lugar nas intenções de voto. E aproximam-se eleições importantes noutros países europeus…

Razão tem Jorge Sampaio quando, há dias, publicou um oportuníssimo e estimulante texto em que apela a uma ampla reflexão sobre os desenvolvimentos na cena política internacional, particularmente na europeia e na americana. No documento, Sampaio fala da relevância em “tentar desbravar um caminho de interrogações e perplexidades, que são afinal as de um europeu convicto, que teima em continuar a sê-lo, mas que se confronta com um conjunto de contradições, dilemas e perguntas para as quais as respostas não parecem óbvias nos tempos que correm”, para lançar “um apelo veemente para que se faça algo para inverter esta corrida para o abismo em que parecemos lançados e de que, de resto, a emergência dos populismos, como uma nova tendência global, constitui um sério e preocupante aviso, reiterado com o resultado das eleições americanas”.

É, na realidade, disto que se trata: de tentar inverter a corrida para o abismo que, de momento e face ao autismo e imobilidade dos principais responsáveis políticos, parece imparável. A esperança é a de que ainda haja tempo para sair desse estado de negação para o mais que desejável confronto com a realidade que o mesmo será dizer-se para a necessária reaproximação com as pessoas e para a consequente mudança das políticas.

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