Correio do Minho

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Ideias

2014-02-12 às 06h00

José Manuel Cruz

Em finais de Novembro esperava-se que a Ucrânia assinasse um acordo de Associação à União Europeia. Com o arranjo desfeito à última da hora, explodiu a indignação nas ruas de Kiev e nos salões de Bruxelas. Dois meses volvidos, mantem-se o braço de ferro e a iminência da desagregação do País. Como nós em ’80, os ucranianos entenderam que a adesão à UE era uma boa ideia: eles, como nós, por uma ilusão de prosperidade, e pela garantia de livre circulação até ao Cabo da Roca; eles - melhor dito, parte deles - para se libertarem da esfera de influência da Rússia. Como se a companhia de alemães e afins fosse necessariamente virtuosa.

O retrocesso de Yanukovitch foi visto como uma traição às legítimas aspirações do seu povo, como uma capitulação cobarde ao imperialismo russo de nova geração. Voltava a ser clara a linha de fronteira entre os bons e os maus, sendo que os bons só poderíamos ser nós. Passa a ideia que a nomenclatura de Bruxelas acreditava piamente que a Ucrânia estaria em condições de subscrever uma parceria progressiva com a EU, recebendo menos do que as vantagens que de momento possui nas trocas comerciais e no abastecimento energético que a Rússia lhe assegura. Pior, passa a ideia que a nata burocrática europeia não reconhece à Rússia a legitimidade para rever, à luz duma nova realidade, os acordos assinados de boa-fé no passado com a Ucrânia. Eu só me pergunto porque é que persiste o bloqueio comercial a Cuba.

No confuso xadrez internacional, os ucranianos de bom grado trocavam a aliança de sangue com os russos por um envelope de ajudas de USD 20MM/ano. A União Europeia avançou com um montante mais de 20 vezes inferior, incomparavelmente aquém do que a Ucrânia beneficia à cabeça pelo preço de favor a que adquire energia e combustíveis à Rússia. Yanukovitch teve que escolher, e fez uma escolha pragmática. Os activistas de Kiev bem podem querer um Estado de fronteiras abertas a ocidente, mas estão cheios de falsas esperanças: nem a Europa ocidental os receberá a todos com pão e sal, nem os que acabarão por ficar para trás irão achar grande piada aos rigores do inverno com a quebra dramática do básico conforto doméstico.

Fixamos os governos da Ucrânia como, alternadamente, pró-russos ou pró-ocidentais, tendencialmente despóticos e totalitários os primeiros; abertos à democracia e à emergência duma sociedade civil plural os segundos. Mais do que uma orientação de políticas e de alianças estratégicas há o facto de que ¼ da população do Estado ucraniano ser russa ou russófila, e muito orgulhosa dos seus pergaminhos nacionais. Se na Ucrânia ocidental praticamente não há russos, na zona sudoeste do país o quadro é genericamente distinto. Não há nação europeia com uma minoria nacional tão expressiva e poderosa como a minoria russa na Ucrânia. Dito isto, podemos antecipar que não é possível obliterar os russos e a ligação à Rússia da realidade política ucraniana.

Propaga-se a ideia de que existe uma inimizade ancestral entre russos e ucranianos, cimentada por centenas de anos de domínio e opressão, com expoente máximo na repressão continuada da primeira metade do seculo passado. Os ucranianos sofreram inenarráveis vicissitudes sob Estaline? Sem dúvida! A polícia política de então, sob a tutela de Beria, cometia atrocidades e fazia desaparecer famílias sem o menor rebuço? Eis uma verdade que também parece estar bem documentada! Mas, centrando-nos nestas duas figuras, a questão é que nem um nem outro são russos, antes georgianos ilustres que chegaram aos píncaros do poder num Estado sem sombra de tradição democrática, e sem a menor vontade de a construir. Os ucranianos sofreram? Sim, sem dúvida! Também os russos, talvez em menor escala. Também os tártaros e os lituanos, e muitos outros indivíduos ou grupos nacionais, apanhados numa voragem paranoica que via conspirações no mais pequeno sinal de indecisão, na menor indicação de pensamento pessoal.

Como quer que visitemos a História, é evidente que os ucranianos têm o direito de escolher aliados, e não há razão para que russos e ucranianos sejam mais próximos entre si do que os portugueses com os castelhanos. A estratégia da UE é clara: persegue uma expansão a leste, com benefícios maiores que se antecipam para o lado alemão. Os alemães sempre olharam com muita simpatia para as estepes orientais, tendo, durante a II Grande Guerra, chegado a cometer a proeza de encher comboios intermináveis com fértil terra negra da Ucrânia, que aplicaram na melhoria de solos germânicos de pior qualidade. Talvez também faça parte da estratégia a provocação dum conflito entre russos e ucranianos. Logo se vê.

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