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O maior desafio dos 50 anos de Democracia

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Ideias

2024-01-20 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

N…nada de novo! Infelizmente. O impasse no teatro das operações da guerra – impasse esse atualmente com tendência para se mover um pouco no sentido da Rússia – não favorece os interesses da Ucrânia e da Europa. Já Kant, em 1795, no seu “Projeto de Paz Perpétua”, nota que as repúblicas democráticas não se guerreiam entre si. Vivem no pressuposto da paz, quer entre si, quer perante terceiros Estados despóticos. Já os despotismos, por outro lado, podem fazer a guerra facilmente – pelo menos sem os entraves internos que os Estados com constituição republicana e não despóticos têm. Um desses entraves é, desde logo, a vontade dos próprios povos, relativamente à qual os regimes despóticos fazem tábua rasa. Isto significa que os poderes não democráticos, totalitários ou autoritários têm mais tempo. O tempo é fundamental: nas democracias que conhecemos, o tempo político é sempre curto e divide-se em ciclos eleitorais. Numa “Rússia putiniana”, mesmo com eleições marcadas para este ano de 2024, os planos de guerra continuam sem pestanejar, quer porque já se sabe, de antemão, o resultado pró-Putin dessas eleições, quer porque esse mesmo resultado (note-se, existindo ou simulando-se existirem eleições) é irrelevante para a vontade de quem decide.

O “eixo Estado Unidos – Nato – União Europeia” terá, necessariamente, que ir de encontro à História (na sua/nossa perspetiva dita ocidental). Ou seja, iremos ser confrontados com a necessidade de se encontrar ou pela via diplomática (pouco provável), ou pelo lado operacional, uma forma de auxiliar decisi- vamente a afirmação dos interesses e/ou as ações militares da Ucrânia. Sem pejo.
O risco é, para tal eixo ocidental, ter de fazer diretamente a guerra e generalizá-la …ou então, desistir, deixar que o sentido da História, desde o Iluminismo, mude ou, pelo menos, recue muitos passos (décadas).
O bem-estar, a liberdade individual, uma relativa solidariedade social (modelo social europeu), direitos fundamentais tal como os entendemos e vivenciamos e, naturalmente, a democracia, geraram um modo de vida relativamente egoístico (hedonista) e individualista, no dito ocidente. E bem! Foi para isso que, em termos políticos, fomos trabalhando a História, nestes últimos (pelo menos) dois séculos.

No entanto, o reverso da medalha é a pouca resiliência do Homem/ cidadão ocidental (e, portanto, também europeu), perante tudo aquilo que perturbe o seu modo de vida habitual! Tendencialmente, somos solidários, empenhados em valores e causas que nos salpicam de humanismo e de sentido de justiça, preservamos a nossa historicamente conquistada liberdade individual, porém, tudo isso durante algum tempo sempre relativamente limitado. Unamuno dizia que o “Homem ocidental gosta de viver habitualmente”.
Na verdade, o deixar de se viver habitualmente é sempre o limiar de resiliência que, nas nossas democracias, também habitualmente temos! Putin – recorde-se – sabe-o e já o disse claramente (“o povo russo é mais resiliente do que o ocidental, por isso a Rússia ganhará a guerra”).
Ora, os resultados do mais recente “Eurobarómetro” (relativo a dezembro de 2023) vão um pouco no sentido geral que atrás assinalamos. Com efeito, centrando-nos em Portugal, há a salientar o facto de os portugueses serem os cidadãos europeus que mais positivamente encaram a integração: 64% dos portugueses expressaram uma opinião claramente positiva sobre a União Europeia, sendo que só 9% têm uma visão negativa.

No entanto, as preocupações nacionais viram-se francamente para a economia. Os portugueses revelaram que estão francamente preocupados com a situação económica interna, sendo que 80% dos inquiridos considera a situação económica portuguesa má ou muito má. Além disso, e logo a seguir à economia, os portugueses são também aqueles que, na União, maior queda na satisfação face à respetiva democracia nacional exprimiram. E no que diz respeito às preocupações / objetivos que deveriam ser prioritariamente prosseguidos pela União Europeia, os portugueses colocaram em primeiro lugar (primeira prioridade) a economia, no sentido do combate à pobreza e ao desemprego. Esta preocupação com o lado da sobrevivência material é compreensível, na medida em que dois terços dos portugueses inquiridos assumiram que, durante, 2023, tiveram dificuldades (permanente ou regulares) em pagar as dívidas e os respetivos compromissos financeiros. Note-se, em termos de média europeia, a situação inverte-se: só uma pequena percentagem de cidadãos europeus é que assumiu tais dificuldades (que, pelo que percebemos do Euro- barómetro, são quase generalizadas, em Portugal).

Naturalmente, centrando-nos em Portugal e com eleições à vista, corremos o risco de a preservação do “modo de vida habitual” e (sobretudo) material, vir a ser a maior preocupação, suplantando – se tal tiver, porventura, que ser objeto de escolha – as preocupações com a geopolítica, com a democracia e com a guerra a leste.

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