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Ideias

2021-12-11 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

“Que vivas tempos interessantes” é uma frase habitualmente identificada e/ou citada como sendo uma maldição chinesa. Há dúvidas. Não se sabe muito bem, rigorosamente, a origem e o sentido da suposta maldição. De todo o modo, num certo sentido irónico, ou cínico, ou mesmo ironicamente cínico, tempos complicados e perigosos serão sempre interessantes, em termos de análise distante e salvaguardada dos respetivos efeitos e malefícios desses tempos. O problema é quando tais” tempos interessantes” passam mesmo a ser vivenciados. E a Europa (Portugal também) pode estar a aproximar-se desse ponto de não retorno. Corremos o risco de, a prazo breve, termos mesmo que arrostar com “tempos (nada) interessantes”. No passado dia 2 de dezembro, a UE adotou um novo (o 5º) pacote de sanções contra a Bielorrússia. O Conselho decidiu impor medidas restritivas a pessoas, entre as quais o ditador mandatário de Putin, Lukashenko, assim como ao seu filho (conselheiro do pai para assuntos de defesa), aos membros do Supremo Tribunal da Bielorrússia e aos integrantes do denominado Comité de Controle do Estado. Impôs, ainda, restrições sancionatórias a 11 entidades, entre as quais, nomeadamente, a Belavia Airlines, ou seja, a companhia aérea (também) de “bandeira” da Bielorrússia de Lukashenko. Claro está que na base de tudo isto está a instrumentalização que a Bielorrússia está a fazer, com intuitos, no mínimo, chantagistas, sobre a União, utilizando os refugiados que aportam ao território daquele Estado. Uma pressão para negociar uma solução “humanitária”, leia-se, obter vantagens/ /fundos da União, um pouco na linha - é certo – da solução turca (embora a Turquia nada tivesse feito para criar e potenciar o problema dos refugiados que, em massa, alcançaram e entraram no seu território).

Entretanto, na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia a tensão agrava-se. Putin povoa essa fronteira com militares russos, naturalmente, prenunciando uma invasão àquele país, vizinho da União. Simultaneamente, acusa o Governo da Ucrânia de também concentrar metade do seu exército (125.000 militares) na região leste, de Donbass. Para além da assumida pretensão de Putin de não permitir a entrada da Ucrânia para a Nato, há toda uma ideologia expansionista e um certo imaginário russo – pelo menos, em alguns cidadãos - que legitima, num certo sentido populista e na perspetiva do atual poder de Moscovo, uma possível (e mais do que desejada, por Putin) invasão da Ucrânia e respetiva anexação à Rússia. O risco de tal invasão e anexação é real, sobretudo, depois do fim do Verão afegão que a comunidade internacional observou. Na verdade, tenho para mim que a atabalhoada e incompetente debandada das tropas norte-americanas do Afeganistão, conjuntamente com a tragicómica ingenuidade da administração de Biden, acreditando que “estes” talibãs eram diferentes dos outros (de há vinte anos atrás), deu ideias a Putin. Que ideias? Tatear o terreno, ver qual seria a reação da comunidade internacional, nomeadamente, dos Estados -Unidos, perante uma iminente invasão e anexação da Ucrânia ou de parte do seu território (na linha do que se passou com a Crimeia).

Ora, a União mostrou-se assertiva, no apoio à posição do seu vizinho (da Ucrânia). Esta semana, Ursula Von der Leyen reafirmou a ameaça de sanções a Moscovo. Numa videoconferência com os embaixadores dos Estados-membros, a Presidente da Comissão reafirmou o apoio da União à Ucrânia e declarou que “a Europa responderá de forma apropriada a qualquer nova agressão, incluindo violações do Direito Internacional e toda e qualquer outra ação mal-intencionada contra o bloco (europeu) e os seus vizinhos”.
No entanto, todas essas hipotéticas sansões terão mesmo algum efeito dissuasor? Quando a Europa importa cerca de 43,5 % do gás natural que consome da Rússia e quando este recurso é fundamental para a produção de, pelo menos, 20% da eletricidade consumida na Europa, quem tem realmente mais capacidade para delinear uma estratégia de sansões? Com o Inverno à porta, com a ameaça de uma crise energética afetando alguns (ou todos) os Estados-membros, a questão tem, no mínimo, propriedade…

E realça a premência de a União apostar rapidamente numa efetiva “soberania tecnológica” e “energética”, sem as quais, mesmo com muito e vigorosas boas intenções, poderá colocar-nos reféns dos ventos frios do Leste.

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