Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A lenda da moura encantada

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2014-07-26 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Foi nos séculos passados muito difícil a sobrevivência nas aldeias, sobretudo nas do interior, em que tudo estava ligado à terra. As populações aceitaram durante muitos séculos este regime de trabalho agrícola, estabelecido pelos ritmos das estações, do nascer e pôr-do-sol, formando equipas familiares de trabalho, que contribuíam para a sua subsistência, mas também para alimentar as gentes das cidades. A entreajuda dos agricultores, foi o modo primitivo encontrado para fazer face a muitos trabalhos, sobre tudo nas vendimas e desfolhadas, onde toda a aldeia participava, pois havia anos que o tempo da colheita era relativamente curto, devido ao mau tempo que impedia essas tarefas rurais.

Foi numa dessas desfolhadas tradicionais participadas pelos vizinhos e amigos numa aldeia do Minho, que nasceu a lenda da moura encantada, que ao longo dos séculos foi contada ao calor da lareira pelos nossos antepassados. Se havia a caneca para dar alegria àquela gente para cantar! Também os mascarados disfarçados de invulgares personagens, desfilavam ao som da concertina ao longo da desfolhada, tornando aquele local alegre e divertido. As luzes das candeias iluminavam os rostos queimados pelo sol, que contrastavam com as cores garridas das suas roupas. O luar fazia brilhar as espigas doiradas que brilhavam nos cestos de vime, que se iam enchendo a ritmo acelerado.

Numa destas desfolhadas, uma personagem mascarada demarcava-se de todas as outras, pelo seu manto dourado e pelo seu véu que lhe cobria o rosto. A curiosidade de todos foi grande, mas ninguém ousou aproximar-se dessa estranha personagem, que depois de percorrer o recinto, desapareceu nas sombras dos olivais que o luar de lua cheia iluminava com todo o seu esplendor. Um moço de nome José, conhecendo bem o terreno, encurtou caminho seguindo essa personagem, acelerando o passo, depressa se aproximou da estranha figura que pensava ser feminina. Mas a situação era cada vez mais estranha, porque essa figura encaminhava-se para o monte, o que seria de uma grande imprudência entrar nesse espaço quase selvagem, já depois da meia-noite.

O caminho em terra era invadido pelo matagal que tornava a passagem estreita, mas o José fazia questão de caminhar a seu lado. Agora em pleno monte, as aves da noite e o uivo dos lobos formavam uma misteriosa sinfonia, que tornava a noite arrepiante, deixando os cabelos em pé ao moço aventureiro. De súbito, a estranha personagem parou frente a um grande penedo, olhou o moço pela primeira vez e perguntou? O que queres de mim?
O moço respondeu: quero saber quem és, e ajudar-te-ei se necessitares…

A personagem respondeu: foste corajoso ao acompanhar-me, mas será preciso muito mais para me resgatar desta fada e levantando o véu, deixou à vista o seu rosto resplandecente, o moço aproximou-se um pouco mais para ver a cor dos seus olhos e ficou encantado com o brilho daqueles olhos verdes.
O moço pensava…

Será uma moura encantada! E ainda estava perdido nos seus pensamentos, quando a misteriosa moça voltou a falar dizendo: Sou cativa deste lugar há muitos séculos, só posso sair de duzentos em duzentos anos, se conseguires quebrar este encanto terás uma grande recompensa, se falhares, dobrarás a minha fada, o moço perguntou! Que queres que eu faça… Vens cá sete dias seguidos à meia-noite, todos os dias te darei um sinal e ao sétimo, terás a recompensa. Aproximou-se do moço, pediu-lhe coragem e beijou-o. Ele ao sentir os seus lábios gelados no seu rosto ficou muito assustado, ela caiu ao chão transformando-se numa serpente que se apreçou a entrar numa fraga do rochedo.

Ele voltou para casa muito transtornado, prometendo guardar segredo, mas mesmo que contasse, ninguém acreditaria na sua história. Ele sabia que tinha de aproveitar o luar da lua cheia e logo no dia seguinte, voltou ao monte à meia-noite, parou junto do rochedo à espera do sinal prometido, após alguns minutos, poisou um passarinho sobre o rochedo, que cantava melhor que um rouxinol.

O José continuava a ir todos os dias, mas cada vez tinha mais medo, todas as sombras se transformavam em fantasmas e animais ferozes gigantes. Com receio de não conseguir enfrentar o medo, confiou o segredo a três amigos, pedindo-lhes para o acompanhar ao sétimo dia. Depois da caminhada os quatro estavam juntos do penedo, à espera de um sinal, poucos minutos depois, ouviram um violento trovão e um raio abriu uma grande fenda no penedo, deixando-os aterrorizados.

O José entrou no penedo contra a vontade dos amigos, estes ficaram amedrontados ao velo entrar. Já no interior, o José ficou ainda mais assustado ao ver tudo ornamentado a ouro. A moura disse-lhe, carrega tudo o que poderes e vamos sair. Mas a voz da fada fez-se ouvir no exterior, perguntando:
Quereis que saia como entrou?
Ou como está?

Os amigos pensaram que estaria morto ou enfeitiçado e pediram que saísse como entrou. No mesmo momento, a moura exclamou! Há malvados que dobraste a minha fada e caiu pelo José abaixo transformada em serpente, ele correu para fora deixando tudo para trás e perguntou aos amigos: porque fizeram isso?
Eles responderam, porque pensávamos que estivesses morto lá dentro. O José perdeu tudo por não ter tido coragem, nem ter confiado no beijo da moura.

No dia seguinte toda a aldeia sabia do sucedido, de nada serviu o pedido de segredo do José, aos amigos. O José carregou o remorso, de não ter conseguido resgatar a moura encantada. Passou a ser conhecido por José da moura e por muitas gerações, o nome Moura ficou ligado à sua família.

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