Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A Lei do Escuteiro no pensamento de Baden-Powell: artigos 7.º e 8.º

A pretexto de coisa alguma

Escreve quem sabe

2015-12-18 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Os dois artigos da Lei do Escuteiro sobre os quais vamos hoje refletir, convocam dois valores: obediência e alegria, que, se mal interpretados podem transformar a ação educativa libertadora da cidadania, que é sempre um movimento valorizador do ser humano, num instrumento de repressão e de escravatura da condição humana.
Baden-Powell, na explicitação que formula para estes dois artigos é muito claro e e de uma atualidade impressionante, sobretudo se tivermos presente que estes textos foram publicados há quase 95 anos, em 1922.
7.º artigo - O Escuta é obediente1
«Como Caminheiro adaptas-te à disciplina e colocas-te pronta e gostosamente ao serviço da autoridade constituída para o bem comum. A sociedade mais disciplinada é a mais feliz, mas é preciso que a disciplina venha de dentro e não seja simplesmente imposta de fora. E daqui o maior valor do exemplo que dás aos outros a este respeito.»2
Este artigo conduz-nos ao mundo de um equilíbrio delicado, mas fundamental na vida de qualquer cidadão que pode ser sintetizado pela harmonia entre os direitos e os deveres consagrados. Ainda hoje, este conceito de disciplina que vem de dentro de cada um, por oposição àquela que é imposta do exterior, é de uma atualidade tão pertinente que se tornou num dos pilares da vivência democrática.
Assalta-nos ao pensamento o conselho que o fundador nos deixou no Livro Girl Guiding (Guidismo, na versão em português) «para que possas exigir obediência, tens de compreender tu mesma como obedecer. Só pela prática da tua própria autodisciplina poderás perceber como desenvolvê-la nas outras [guias]».
8.º artigo - O Escuta tem sempre boa disposição de espírito
«Como Caminheiro todos esperam de ti que não percas a cabeça e que em caso de emergência te servirás dela com alegre coragem e optimismo.
- Se conseguires manter a serenidade quando todos em volta perdem a cabeça e te lançam as culpas ...
Meu filho, serás um homem.»3
Para melhor compreendermos o alcance desta explicitação, talvez seja bom recorrermos à sua formulação inicial: «O Escuta sorri e assobia perante as dificuldades», agora vemos melhor o alcance desta sincronia fundamental entre o estado emocional positivo, a alegria, por oposição a qualquer outro negativo como o desespero ou a fúria, e a racionalidade do reconhecimento das dificuldades, por forma a que a alegria seja uma alavanca para a racionalidade nos conduzir à resolução de qualquer problema.
Neste enquadramento, ser capaz de irradiar alegria é, desde logo, um elemento fundamental e contagiante para predispor os outros a concentrarem-se na ação, isto é, na resolução do problema. Assim sendo, compreendemos melhor o alcance da convicção de Baden-Powell expressa na sua última mensagem, que já só conhecemos depois da sua morte: «Creio que Deus nos colocou neste mundo encantador para sermos felizes e apreciarmos a vida. (...) Mas o melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros».
Finalmente, nesta quadra natalícia, a expressão libertadora destes dois dons pode ser reconhecida na resposta de Maria ao anjo Gabriel aquando da Anunciação: «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Maria não hesitou em aceitar, prontamente e com alegria, pois sabia que a sua vida só tinha sentido se fosse colocada ao serviço do bem comum e na alegria de Deus «que tenham em si a minha plena alegria» (Jo 17,13).
P.S.
Aproveito para apresentar, a todos os leitores e colaboradores do Correio do Minho, votos de Santo Natal e Feliz Ano Novo, envolvidos no manto da Misericórdia.
1Versão usada pelo Corpo Nacional de Escutas
2Baden-Powell, A Caminho do Triunfo, edição do C.N.E., Lisboa, junho, 2009, p.194.
3ibidem.

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