Correio do Minho

Braga, terça-feira

A justeza de salários e homenagens

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2013-03-06 às 06h00

José Manuel Cruz

Enquadrado por jovens empresários, Cavaco Silva dizia não encontrar virtude competitiva nos baixos salários. Espero que os empresários tenham registado o conselho e que venham a agir em conformidade. Por agora, - e em concreto do papel do Presidente da Republica, - poderemos depreender que nenhuma outra lei que diminua o rendimento do trabalho será publicada? Melhor: que dentro da proverbial magistratura de influência de Belém, se seguirão medidas positivas para a convergência dos patamares salariais portugueses com os valores praticados na Europa?

Ou será que nos continuarão a embalar com a história da produtividade? Sabem, aquela lengalenga de que os trabalhadores não podem ganhar mais - em média com a Europa - porque a produtividade entre nós é muito pequenina, tanto que não dá para puxar os vencimentos para o dobro, mesmo que por acréscimos graduais! É que a esta mistificação só me ocorre responder que, ao que consta, a produtividade na China é estrondosa, mas os salários em geral são de fome.

A historieta da produtividade é herdeira doutras justificações igualmente luminosas. Já se disse que eramos pobres porque a agricultura era fraca, feita a sobrecusto em terras magras e acidentadas, ou semidesérticas. Que eramos pobres porque não tínhamos recursos naturais de monta, porque não tínhamos indústria, porque o povo era iletrado, ignorante e tacanho. E pobres continuamos pelos desmandos de Abril, por perversidades legislativas, pela proteção excessiva do Trabalho, por uma vaga sugestão de socialismo na Constituição.

Quanto azar: tantas explicações para um só mal! E se estiver tudo bem, menos aquilo que deveria ser o papel das elites?
Aos mesmos empresários, e através deles a todos os empreendedores portugueses, dizia Cavaco Silva que os via como merecedores de reconhecimento público, fonte de orgulho idêntico ao que sentimos por futebolistas e artistas. Aqui perdi-me de todo no sentido da mensagem e, naturalmente, no conselho prático que lhe é subjacente.

Sugerirá Cavaco Silva que, tal como os trabalhadores são injustamente compensados no salário, também os empresários o são em respeito e reverência? Sugerirá Cavaco Silva que, do mesmo modo que os cidadãos anónimos se lançam em peregrinação pelo mundo à procura de trabalho, também os empresários fecham aqui para abrir portas onde sejam mais apaparicados? Já agora, de onde vem a ingratidão: dos populares e trabalhadores, ou do Governo?

Perdoe-me Cavaco Silva o zelo interpretativo, mas eu estou interessadíssimo em que os empresários se sintam aconchegados, e que por isso invistam, e assim aumente o emprego: talvez eu próprio possa voltar a trabalhar! Perdoe-me o facto de tentar perceber o sentido das suas palavras, mas num País em que simples proposições abrem caminho a candidaturas camararias, nenhum esforço clarifica-dor é realmente em vão.

De onde vêm os maus-tratos aos empresários. Se eu tomar como exemplo o criticado Alexandre Soares dos Santos, e o quanto ele se queixou quando mudou uma sede de negócios para a Holanda, a vilania sobre os empresários é exercida pelos governos. Se eu tomar uma ideia feita, uma daquelas ideias nunca cabalmente demonstradas, mas que tem curso porque desvia as atenções de onde convém a quem decide, então a vilania só poderá vir dos trabalhadores, que descuram as suas obrigações, exigem o que não podem, destroem o que todavia não está seguro, e que por cegueira de classe não são capazes de abordar a defesa do posto de trabalho também na óptica do empregador.

Desconheço se há mais vilania dos trabalhadores ou dos governos no desgaste emocional dos empresários. Sei é que trabalhadores e empresários nem sempre se encontram em lados distintos da barricada. Pelo menos não vejo que o Sr. Fortunato Frederico dos calçados Kyaia não receba senão deferências dos seus trabalhadores. Não vejo que os administradores duma das grandes construtoras de Braga não se sintam senão orgulhosos dos seus trabalhadores, que no dealbar da actual crise prescindiram de uma semana de férias em prol da empresa.

Enfim, muitos conhecerão outros exemplos. Talvez um dos mais paradigmáticos possa ser o que decorre duma moção aprovada em Assembleia de Freguesia, em S. Victor, em 2007, moção submetida pelo eleito da CDU e coordenador das comissões de trabalhadores do distrito de Braga. Propunha-se uma homenagem a António Peixoto ‘Pachancho’, com o descerramento de um busto no Largo de Monte d’Arcos. Ninguém desconhece que os trabalhadores da ‘Pachancho’ estariam entre os mais politizados do distrito, mas não consta que as relações de empresa disso se ressentissem. Daí a prevalência da memória do empresário e o desejo de justa perpetuação monumental.

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