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A intervenção das Forças Armadas no Liceu de Braga

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Ideias

2011-11-14 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Opercurso da Escola Secundária de Sá de Miranda, antes ‘Lyceu Nacional de Braga’, que a 17 de Novembro deste ano assinala 175 anos, está marcado por vários acontecimentos, alguns dos quais ficaram na memória dos seus protagonistas e das gerações seguintes.
O acontecimento que aqui vou lembrar ocorreu há 104 anos e necessitou da intervenção das forças armadas no exterior e no interior do liceu.

O ano de 1907 ficou marcado por várias crises, concretamente a nível económico, financeiro, político, social, cultural e educacional. Seria enquadrada nesta última que uma grande agitação ocorreu no Liceu de Braga.

Tudo começou quando o Governo decidiu encerrar todos os estabelecimentos públicos de ensino superior, como consequência de uma greve geral de estudantes da Universidade de Coimbra, motivada pela reprovação, em 1907, nas provas de doutoramento, de José Eugénio Dias Ferreira. Essa decisão originou grande apoio dos estudantes de Coimbra, que chegaram a transportar José Eugénio Dias Ferreira, aos ombros, pela cidade, enquanto outros apedrejavam e insultavam os professores que o tinham reprovado.

Este motivo foi suficiente para que vários estudantes do país, até de outros graus de ensino, aproveitassem para protestar contra o estado em que se encontrava o ensino em Portugal.
Como seria de esperar, os estudantes do Liceu de Braga, então situado nos Congregados, decidiram aderir a este protesto nacional, fazendo greve às aulas.
Na segunda semana de Abril de 1907, um grupo numeroso de estudantes colocou-se à entrada do liceu, diariamente, aconselhando os seus colegas a aderirem à greve.

A adesão destes a esta manifestação foi-se tornando cada vez maior e menos pacífica ao ponto de, no dia 12 de Abril de 1907, ter existido a necessidade de se chamar a polícia para co-locar ordem nos estudantes. Nesse dia foi necessária a intervenção de 40 praças de infantaria e 12 de cavalaria, e mesmo assim tiveram a ajuda de todos os funcionários do liceu para acalmarem os estudantes.

O facto destes militares terem entrado no interior do liceu originou um protesto do professor João José de Freitas, que o registou no “livro de ponto do liceu”. O receio dos distúrbios originados pelos estudantes era muito, tendo os militares sido obrigados a não autorizarem que nenhum estudante parasse junto ao exterior do liceu. Este motivo fez com que os estudantes se refugiassem no interior das lojas que se situavam entre os Congregados e na então rua conselheiro João Franco.

No meio de toda esta euforia estudantil, houve um estudante do liceu que não aderiu à greve e, quando saiu das aulas, às 14 horas, teve que ser acompanhado até casa por um polícia. Mesmo assim, os seus colegas estudantes resolveram atacá-lo e “logo à porta do snr. Visconde de Gramosa foi apanhado pelos collegas, que o quizeram espancar; mas acudindo mais polícias, houve um enorme reboliço, narizes a esguichar sangue, murros, terçados desembainhados, não sendo, porém, mantida prisão alguma. Entretanto, o académico que queriam espancar tinha fugido”. 1)

À porta do liceu, os estudantes aglomerados criticavam e enxovalhavam os professores que pertenciam a partidos políticos e aplaudiam os professores que não pertenciam a nenhum partido.
Em relação aos seus colegas do Colégio de S. Tomás de Aquino, os estudantes do liceu tudo fizeram para que aderissem à greve. Assim, no dia 11 de Abril de 1907 reuniram-se à noite e decidiram fazer greve geral às aulas.

De seguida dirigiram-se ao referido colégio e pediram ao seu reitor, reverendo Manuel Joaquim Peixoto Braga, que os ajudasse nesta pretensão. Uma vez que o reitor não colaborou, os estudantes do liceu dirigiram-se aos seus colegas do colégio, incentivando-os à greve. Como estes não aderiam, foram impedidos de entrar no colégio pelos seus colegas do liceu, o que motivou que o reitor do colégio tivesse que chamar os militares.

Os estudantes do liceu de Braga, apercebendo-se de que os seus colegas do colégio não aderiam à greve, chegaram a per-seguir o director e os seus perfeitos e, quando estes se dirigiram para casa, resolveram apupá-los e insultá-los, usando adjectivos que não são próprios aqui reproduzir. Mais uma vez a cavalaria e a infantaria de Braga tiveram que se deslocar para junto do colégio, para manterem a ordem e evitar consequências menos agradáveis.

No dia 13 de Abril de 1907 chegou a ocorrer outro episódio lamentável: próximo da Arcada, o professor do liceu, João de Freitas, envolveu-se numa cena de pugilato com o capitão Fir-mino Mota, comandante do esquadrão de Cavalaria de Braga. Isto porque o professor tinha publicado um texto no jornal ”A Palavra”, no qual criticou o referido militar.

Quando se encontraram os dois na Arcada, o oficial pediu explicações ao professor, mas como este não as deu, o militar atirou-lhe com o jornal à cara, tendo-se defendido o professor. No meio desta confusão, o comandante ainda levou com uma forte bengalada na cabeça, dada por um desconhecido que de imediato se colocou em fuga.

Ainda nesse dia à noite, os estudantes do liceu provocaram e ameaçaram o sargento Sarmento (da Cavalaria de Braga). Pouco depois os mesmos estudantes confundiram um empregado comercial com um “contínuo” do liceu e espancaram-no violentamente.
O professor João Freitas, já mencionado, esteve envolvido noutro episódio, quando, no interior do liceu de Braga, resolveu enfrentar dois oficiais do exército, não chegando a agressões mais violentas, devido à pronta intervenção do reitor do liceu, padre José Martins Barreto.

De referir ainda que o próprio administrador do concelho de Braga acompanhou de perto todos estes acontecimentos, mantendo-se junto às instalações do Liceu de Braga durante vários dias.
A greve às aulas fez com que muitos estudantes decidissem regressar às suas terras de origem (muitos vinham de terras situadas a dezenas e até centenas de quilómetros de distância do liceu).

Outros, decidiram escrever às suas famílias a relatar tudo o que se tinha passado, uma vez que estavam assustados com os boatos que iriam perder o ano por faltas.
A sorte destes estudantes veio do próprio ministro do reino, que resolveu enviar um telegrama ao reitor do liceu de Braga a autorizar a justificação das faltas dos estudantes que tinham feito greve.

1) Jornal “Commercio do Mi-nho”, de 16 de Abril de 1907

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