Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A integração à americana e a marginalização à europeia

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2016-04-17 às 06h00

José Manuel Cruz

Conhecerão, os leitores, figuras políticas francesas como Najat Belkacem, Myriam El Kohmri, Rachida Datti? Alguns - talvez; a maior parte - não. Porém, nada que não se remedeie com rápida passagem pela internet.
Pois vem este meu escrito a propósito de algo que ouvi no curso de um programa de entretenimento. Poderia ser vago, e não chegar a fazer alusão que permitisse identificar programa e intervenientes, mas nem eu nem aqueles que integram o painel em causa somos meninos de pele fina e doentia sensibilidade. Dizia João M. Tavares, na última emissão de Março do Governo Sombra, que a América integrava os imigrantes, e que a Europa os ostracizava, e que tanto os candidatos latinos às primárias dos Estados Unidos eram exemplo de uma coisa, como o terrorismo islâmico na Europa era exemplo da outra.
A mim tanto se me dá que JMT acredite ou não no que diz, e nem me passa pela cabeça que desta forma o corrija, mas quanto um órgão de comunicação confie páginas ou tempo de antena a comentadores, cronistas, bom é que não nos alonjemos do que é justo, do que no melhor dos casos corresponda à realidade. Assim se dá o caso que Belkacem e El Khomri nasceram em Marrocos, que a primeira obteve cidadania francesa pela maioridade, e a segunda de berço por efeito de mãe bretã, e que ambas são titulares de pasta ministeriais nesta bela república marginalizante. Rachida Datti não é ministra, mas já o foi, e se bem veio ao mundo no polígono francês, por pai e mãe teve modestos imigrantes oriundos do Magreb. Fugindo a que me reprovem que tenho olho pronto para mocinhas, apenas, para mais de sangue mouro, cabila ou berbere, passa-me pela ideia a estimável Mme Hidalgo, ilustre maire de Paris, e o seu conterrâneo Manuel Valls, pois um e outro nasceram do lado de cá dos Pirenéus, não sendo franceses senão por naturalização na adolescência ou maioridade. E que não dizer de Sarkozy, por sua vez filho de imigrantes húngaros?
Aqui chegado, sinto-me tentado a fazer eco das dores de Rui Rio: pois não é que parece mais fácil que filho de imigrante singre na grande política francesa, do que tripeiro dos quatro costados encontre caminho entre as passadeiras de S. Bento e Belém?
Integra-se e marginaliza-se dos dois lados do Atlântico, e é de todo irrelevante a contabilidade que se faça. Progridem, os extremismos - mesmo os de gosto terrorista -, por doenças sociais que outros não quererão que sejam cruamente abordadas. Alguém dirá que a Sociedade é um sistema dinâmico, com tensões que nunca chegarão a estar de todo apaziguadas, alguém ligará as derrapagens para a delinquência de justificação teológica, ou anarquista, a distúrbios pessoais de cariz familiar ou psicológico, mas o facto é que a sociedade ocidental atravessa um período de acentuada instabilidade, com recuos no plano dos direitos individuais, com estagnações ao nível da progressão social. Uns colapsam para dentro; outros, fazem questão de deixar rasto. Os segundos são incómodos, não havendo poder instalado que não prefira que os descontentes saiam pela esquerda baixa, discretamente.

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