Correio do Minho

Braga,

A indústria automóvel e a gestão

Macron - Micron

Ideias

2015-10-09 às 06h00

Margarida Proença

O caso da Volkswagen justifica a atenção que lhe tem sido dado por diversas razões, e que basicamente remetem para a dimensão da indústria automóvel, para a regulação desse mesmo setor por um lado, e para a certificação por outro, e finalmente para questões que têm a ver com o controlo interno das organizações. Qualquer destas abordagens, necessariamente apresentadas de uma forma muito geral, justifica por si só que se perca algum tempo.

A indústria automóvel é hoje um setor maduro, que contribuiu de forma extraordinária para moldar o mundo em que vivemos, quer em termos de mobilidade individual, quer em termos de crescimento económico, já que contribuiu para diminuir os custos de transporte dos produtos.

Em 2013, havia 865 milhões de carros de passageiros a serem utilizados em todo o mundo; nesse mesmo ano, foram produzidos 65 milhões. Em 2017 estima-se que possam vir a ser produzidos mais de 100 milhões de carros anualmente. Trata-se de um crescimento notável, se pensarmos que em 2000 a produção mundial andava na ordem dos 41 milhões. A importância do setor é também indiciada por outros indicadores; por exemplo, nos EUA 90% das pessoas em idade de poder conduzir têm carros, e na Europa ou no Japão andava, em 2008, pelos 50 a 60%.

Na Alemanha, a indústria automóvel representa cerca de 3% do PIB, e 20% das exportações; um, em cada seis trabalhadores alemães, trabalha, direta ou indiretamente para o setor. Em 2014, a Volkswagen era o segundo maior produtor mundial de carros, muito perto da Toyota, respetivamente com 10,14 e 10,23 milhões de carros vendidos; os primeiros meses de 2015 apontavam já, no entanto, para um aumento da quota de mercado da Volkswagen, ultrapassando a Toyota.

Mas a importância do setor vai para além da produção e venda dos carros ou partes. Na verdade, a indústria envolve todo o setor financeiro de forma muitíssimo significativa; a revista The Economist, referia que os braços financeiros dos dez maiores produtores de automóveis, em todo o mundo, detêm quase 900 mil milhões de dólares em ativos. Financiamento da investigação e desenvolvimento, da produção, empréstimos às pessoas para comprarem os seus carros, seguros, etc. Mas a exigência com que o setor se defronta é também significativo; os consumidores querem carros cada vez mais equipados, com mais tecnologia incorporada, mais económicos.

A diferenciação é clara, até porque o setor apesar de tudo ainda é bastante fragmentado; não é só a Toyota ou a Volkswagen, mas também a General Motors,a Renault-Nissan, a Hyundai/Kia, a Ford, a Fiat, a Honda, a Peugeot-Citroen ou a Suzuki apenas para referir apenas dez produtores mundiais.

A crise financeira global de 2008 atingiu o setor, como seria de esperar; trata-se de um produto caro, e que normalmente exige financiamento para a sua compra, e por isso a indústria é sensível aos ciclos económicos e ao grau de confiança dos consumidores. Todas as informações remetem para uma redução dos cash flows e para uma quebra na lucratividade, apesar das falências no setor bem como as alianças, fusões, consolidações e aquisições que foram ocorrendo. O crescimento dos mercados emergentes, nomeadamente a China, mas também a Rússia e o Brasil, permitiu apesar de tudo ultrapassar a crise, mas a tendência é para o abrandamento.

Neste enquadramento, as restrições com que o setor se defronta são cada vez mais relevantes, e, com toda a certeza, definirão o futuro. De acordo com o Automative Institute, trata-se do confronto entre a procura e a oferta de petróleo, as questões relativas á vulnerabilidade das fontes energéticas, e as questões ambientais e de saúde. Os carros são responsáveis por cerca de 12% das emissões de dióxido de carbono, com responsabilidades pelo aquecimento global , daí que a União Europeia tenha legislado no sentido de impor reduções para 2015 e 2021, sensivelmente menos 18% e 40% que em 2007; a regulação das emissões de CO2 vai nesse mesmo sentido em muitos outros mercados, nomeadamente nos Estados Unidos.

O caso dos motores a diesel levanta ainda outro problema ambiental ; ainda que usem menos fuel e emitam menos carbono que os motores a gasolina, emitem mais gases tóxicos - óxidos de nitrogénio - para os quais se tem encontrado evidência de que contribuem para doenças pulmonares e cardíacas. Na Europa, os carros a diesel tornaram-se muito populares e conquistaram uma quota de mercado que se aproxima dos 50%, mas nos Estados Unidos ainda são pouco mais que um nicho.

Claro que o investimento necessário para o desenvolvimento das novas tecnologias, é elevado. Por outro lado, a regulação e certificação das mesmas no que respeita ao cumprimento dos requisitos exigidos pode ser pouco efetiva, e basear-se em grande medida nas informações prestadas pelos produtores. De acordo com a literatura teórica, é de esperar, existindo diferenciação entre produtos, que quanto mais elevado for o custo associado á prestação da informação sobre qualidade, menos informação confiável , digamos assim, é prestada.

E quanto mais tiverem a ganhar os gestores das empresas na demonstração dos ganhos , das poupanças conseguidas ou do aparente sucesso, quanto mais tiverem a lucrar portanto com a “informação escondida” que no fundo é o que lhes dá uma vantagem, quanto menor for o controlo interno, maior será a ineficiência e o problema . Já aconteceu muitas vezes.

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