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A importância da história para o futuro da Europa

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Ideias

2020-04-12 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O dia de Páscoa, que hoje se celebra, ficará associado a um dos dias mais excecionais de sempre, pois nunca a Páscoa foi celebrada em aconselhável confinamento domiciliário e sem a alegria festiva própria desta época, que advinha das cerimónias religiosas no exterior. A razão prende-se, naturalmente, com o momento que estamos a atravessar, marcado pela pandemia que afeta praticamente todo o mundo.
O problema de saúde pública que nos atinge, sem escolher idades (há já crianças e jovens vítimas mortais deste vírus) e estatuto social (tanto atinge líderes de países como sem-abrigo) causa uma perturbação latente na sociedade, misturando-se o presente e o futuro numa proximidade sem paralelo. Assim, é fundamental conhecer o passado para, através dele, prepararmos melhor aquilo que nos aguarda nas próximas semanas, nos próximos meses. Desta forma, seguimos a resolução do Parlamento Europeu (RSP 2019/2819) sobre a importância das lembranças europeias para o futuro da Europa.
Num cartoon satírico, publicado no dia 27 de junho de 1918, no “Ridículos”, Portugal estava retratado por um Zé Povinho, “Farto. Farto, Fartíssimo”, que protestava desta forma contra o custo de vida: “Água mais cara. Petróleo caríssimo. Eléctricos mais caros. Sabão mais caro. Não há açúcar! Velas mais caras! Calçado mais caro! Feijões a 3 tostões. Carnes mais caras. Carvão muito caro. Ovos mais caros. Fósforos mais caros. Basta! Com todos os milhões de diabos!”.
Creio ser praticamente inegável que desta pandemia resultará uma crise não só económica e social mas também política. Se, atualmente, existe uma condescendência relativamente às lideranças de topo nacionais, creio que os próximos anos, os próximos meses, serão marcados por uma crise económica com enormes consequências sociais e, inevitavelmente, políticas.
Em Braga, há cem anos, a vida era muito difícil e eram raríssimos os lares que não tinham sido atingidos pela crise económica. Atualmente, as afirmações de alguns autarcas da nossa região já mostram a sua enorme preocupação quanto à gravíssima crise que nos atingirá em breve. Basta recordar que há cerca de 4000 novos desempregados por dia. Basta recordar que o lay-off já abrange 40 mil empresas! Basta recordar as palavras da diretora do FMI, Kristalina Georgieva, que considera estarmos perante a maior recessão desde a Grande Depressão de 1929.
Há cerca de cem anos, em 1918, quando se procedia à transferência de vários detidos da sobre lotada prisão do Governo Civil de Lisboa para a Cadeia de Caxias, o grupo foi atingido por atiradores nas esquinas das ruas próximas. Em consequência morreram sete pessoas, entre os quais o Visconde de Ribeira Brava, e ficaram feridos sessenta, neste episódio dramático que fi-cou conhecido pela “Leva da Morte”! Hoje fala-se da libertação de presos, não havendo consenso quanto a esta medida! Há quem fale, de forma absolutamente excessiva, no pandemónio, que resultará desta decisão.
Em 1913 verificou-se em Portugal um surpreendente “superavit”, fruto da severa contenção de despesas (a famosa lei-travão). Três anos depois, em 1917, a fome alastrava pelo país. Em maio desse ano a fome era tanta que das manifestações resultavam prisões e muitos mortos! Em 1919 Portugal estava economicamente arruinado. Atualmente Portugal encontrava-se em assinaláveis excedentes orçamentais trimestrais!
Há cem anos, as revoltas políticas e sociais foram várias: a revolta de Santarém; a de Monsanto e depois a da Monarquia do Norte. As greves sucediam-se: dos trabalhadores dos telégrafos-postais; dos operários, dos corticeiros, do gás, da água, da carris, da moagem, da imprensa, dos marceneiros, dos padeiros, dos cesteiros… Em junho foi declarada uma greve geral.
Em junho de 1920, o chefe do Governo António Maria Batista morreu em plena sessão do Conselho de Ministros, depois de sofrer uma síncope cardíaca. Em janeiro desse ano houve um governo que durou cinco dias (Alfredo Sá Cardoso) e outro que durou apenas cinco minutos (Francisco Fernandes Costa).
As dificuldades que a Europa atravessou há cem anos conduziram-na a regimes totalitários: em 1924 surgiu o Estalinismo, na URSS; em 1925 surgiu o Fascismo, na Itália, com Mussolini; em 1933 o Nazismo, na Alemanha, com Adolfo Hitler; em 1933 o Salazarismo em Portugal. Dispensável será lembrar as consequências destes regimes totalitários.
É importante recordar ainda que há 70 anos abriam-se valas comuns para enterrar os mortos, tal como hoje são abertas valas comuns nos EUA para enterrar as vítimas desta pandemia.
Alguém duvida que após esta crise na saúde pública não irão surgir atores políticos defendendo autoritarismos, extremismos e nacionalismos? Alguns deles já se estendem pela sociedade, conseguindo inclusive ser eleitos para os Parlamentos nacional e até europeu.
Este é o momento para invertermos alguns dos rumos para que a sociedade estava a caminhar. O excesso de confiança que se apoderou da sociedade consumista dos últimos anos, o esbanjamento, o individualismo acentuado deve servir de lição e dar lugar a uma sociedade mais tolerante e, preferencialmente, mais humana.
Como já referi, há pouco mais de meio ano, a 19 de setembro de 2019, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa. No 21.º ponto dessa resolução, salienta-se que “o trágico passado da Europa deve continuar a servir de inspiração moral e política para enfrentar os desafios do mundo de hoje, incluindo a luta por um mundo mais justo, a criação de sociedades e comunidades abertas e tolerantes para com as minorias étnicas, religiosas ou sexuais e a promoção dos valores europeus para todos”.
Esperemos que as consequências desta pandemia não nos façam regredir a um período que todos imaginamos impossíveis de voltar. A crise económica traz, inevitavelmente, agitação social e tensões políticas. Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu, referiu há três dias apenas que “os trabalhadores estão mais em risco atualmente do que em qualquer outra altura desde a década de 1930”, defendendo a solidariedade geral.
Cabe a todos impedir uma crise acentuada, mas para isso também é importante aprendermos com as lições do passado.

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