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A ilusão do “fim da guerra” e globalização

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A ilusão do “fim da guerra” e globalização

Ideias

2022-03-19 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

Francis Fukuyama, em 1992 e na sequência de um seu artigo divulgado em 1989 (“The End of History?”, na revista “The National Interest”), publicou o seu ensaio “O Fim da História e o último Homem” (edição em português da Gradiva). Neste texto sobejamente conhecido, Fukuyama questiona se a História da Humanidade tem um rumo, se segue uma direção mais ou menos linear e aponta duas grandes forças motrizes da evolução do Homem e das sociedades: “a lógica da ciência moderna” e a “luta pelo reconhecimento”. Com efeito, segundo o Autor, essas duas forças motrizes impeliriam a Humanidade para. natural e inevitavelmente, acabar com as ditaduras, estabilizando-se na vivência de uma democracia capitalista liberal – entendida como um estádio final da História política. No fundo, uma forma de organização e de relacionamento finais (o fim de um processo histórico) em que o Homem se sentiria minimamente satisfeito. Não vamos discutir as ideias do “fim da História” de Fukuyama; porém, de certo modo, encontro um relativo paralelo entre as suas hipóteses e a ilusão de que vivíamos também, pelo menos na Europa, uma era de “fim da guerra”. A ilusão do fim ou da impossibilidade histórica, na atualidade, de confrontos armados e invasões militares, motivados essencialmente pela vontade de conquista e de ocupação/anexação ou de controlo territorial. Igualmente, a ilusão da estabilidade definitiva, jurídica e de facto, das fronteiras. A guerra de Putin contra a Ucrânia estilhaçou essas ilusões que vivíamos na Europa. E, já agora, relembrou-nos (pese embora a Rússia não ser exemplo nem único, nem recente!) que as ditaduras subsistem mesmo em regimes que tentam aproveitar em benefício próprio, alguns aspetos (só alguns aspetos!) ou simulacros da democracia liberal.

Com o fim daquela ilusão (genericamente, da impossibilidade da guerra), teremos realmente que reajustar as políticas europeias, criando novos rumos para a integração: já se assumiu a necessidade premente de se construir uma “política comum da defesa” e não apenas um mercado interno dos produtos e serviços militares. A necessidade de se criar uma “soberania europeia” entendida, esta soberania, em primeira linha e como refere o Presidente francês Emmanuel Macron, como a capacidade de a Europa defender autonomamente os seus cidadãos.

No entanto, o fim da ilusão do “fim da guerra” não é o único fator de consciencialização da premênciae de mudanças; não é o único catalisador dos novos rumos (ordem?) que a Europa começará, com certeza, a percorrer. A pandemia colocou em evidência a necessidade de outros tipos de soberania, nomeadamente, a denominada “soberania tecnológica” europeia. O repensar-se um modelo de organização económica e social que sirva emergentes e prosaicas necessidades, agudamente sentidas. A política industrial europeia terá necessariamente algo de disfuncional quando, na verdade, perante uma situação de urgência pandémica, verificamos não dispormos, sequer, de capacidade imediata de nos auto fornecer de máscaras e de simples zaragatoas. Além disso, a crise energética – também potenciada pela guerra - colocou a nu a necessidade de a Europa não depender da Ásia para dispor de semicondutores, “chips” e outros pequenos/grandes equipamentos que, de um modo simples e cómodo, comprávamos, sem nos preocuparmos em produzi-los.

Perante este contexto atual, simultaneamente trágico e, na verdade, incerto, muitos avançam com a ideia da desaceleração, ou mesmo do fim da globalização. Importa, desde já, fixar algumas ideias. Em rigor, aquilo que denominamos globalização tem uma caraterística nuclear qual seja o imediatismo comunicacional. A instantaneidade (sob o prisma económico e não só) da oferta e da procura, proporcionada, potenciada pela evolução tecnológica e pelo desenvolvimento vertiginoso das tecnologias de informação. Vivemos todos juntos, estamos, uns em relação aos outros, à distância de um “clique” (embora possamos, também e mais facilmente, fecharmo-nos em nós próprios, procurando apenas as mensagens e os contatos com os quais já nos identificávamos previamente!). Claro que isso, esse modo de viver e de comunicarmos, é imparável. A cultura e a vivência globais e digitais são irreversíveis. No entanto, poderemos assistir a uma revalorização das fronteiras (esbatidas pela globalização e pela digitalização) – pelo menos, a um desacelerar estratégico da globalização económica e política, na justa medida do necessário para que nos sintamos relativa e minimamente autossuficientes.

O paradigma de crescimento económico poderá começar a revalorizar os mercados internos e a colocar menos enfase nas exportações e no comércio internacional….
No entanto, essa tendência, segundo dados divulgados através de várias “fontes”, já se fazia sentir ligeira, mas consistentemente, antes da pandemia e da guerra (por exemplo, “Estatísticas do Comércio Internacional – 2016”, do INE, edição 2017).
Talvez estivéssemos apenas desatentos, ofuscados pela ilusão do “fim da guerra”.

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