Correio do Minho

Braga, terça-feira

A ilha

O seu a seu dono!

Conta o Leitor

2016-07-05 às 06h00

Escritor

Domingos Manso de Araújo

Obairro tinha a forma em T, com a rua principal a bater na Avenida da Liberdade e as laterais, sem saída, a terminarem num muro e numa serração. As casas eram baixas, atarracadas, com divisórias de estuque e tiras de madeira, de um só piso e sem casa de banho. As que estavam na linha sobreposta do T, eram constituídas por dois pisos, sendo que as de baixo tinham um pequeno quintal e, obviamente, uma só família. As de cima eram simples casas pertencentes a uma outra família e servidas de um corredor de acesso para todas elas. Apesar da grande abertura da entrada, o bairro tinha a designação de Ilha. Julguei então que tal se devia ao muro altíssimo que ladeava o lado esquerdo do T e à inacessível serração que fechava o seu lado direito. É verdade que, perpendicular a este lado direito, havia duas cangostas, a da esquerda, que terminava num campo, e da direita, que afunilava numa escapatória da Ilha. Contudo, o seu aspeto era de facto o de uma ilha. Só os moradores nela saíam e entravam. Poucos estranhos se atreviam a olhar, quanto mais a entrar.
Como era de prever, a consanguinidade era o traço do caráter. Todos eram primos, vizinhos, cunhados, compadres e comadres uns dos outros. Os que vinham de fora, por razões de casamento, depressa se entrosavam no espírito da ilha. As festas, os casamentos, os funerais, os batizados, as zangas, as zaragatas, as forquilhas, a fonte, o lavadouro, tudo isto, mais o clube de futebol, era do domínio público. Como públicos e iguais eram os rendimentos. Só quem emigrava começava a exibir algo mais do que a indigência. Ninguém passava fome, mas era difícil haver alguém que pudéssemos dizer que vivia bem. Nesse pequeno mundo, era árdua a tarefa em manter a privacidade, vivíamos numa ilha de mexericos, maledicências, de alegrias e bondades. A vida de todos era como um livro aberto. Nada de riquezas e finezas para mostrar ou exibir. A simplicidade era a entrada da ilha.
Sim, ninguém fechava a porta durante o dia, a casa era o prolongamento da rua e os vizinhos eram, até prova em contrário, de confiança. Éramos muitos. Cada família tinha cinco, seis ou mais filhos. As alcunhas tinham raiz familiar ou eram originadas por uma particularidade física ou psicológica: o Pelica, porque era alto, esguio e com nariz adunco; o Tati, porque era trapalhão a falar; o Come, porque devorava pães a toda a hora; o Pardelho, porque não parava calado e só dizia asneiras; o Mico, porque era o biafra do sítio e espetava gatos em forquilhas; o Rolinha, porque tinha um peido no cabelo; o buchinha porque era gordinho e engraçadinho; o Mocho, porque toda a família tinha uns olhos como tal; e o Cacete, porque era completamente maluco. Portanto, quando sentenciadas, ficavam-nos agarradas à pele como sujidade entranhada. Por vezes, nem nos lembrávamos dos nomes próprios.
Tirando isto, todos tinham a sua identidade: alegres, folgazões, calmos, introvertidos, habilidosos, criativos ou tímidos. Íamos juntos para a escola. Tínha- mos jogos coletivos, para além do futebol. As brincadeiras eram várias, loucas e perigosas. Quando os guarda-chuvas se estragavam, aproveitávamos as varetas, aguçávamos as pontas e, com um elástico agarrado a uma delas, lançávamos setas em direção a um alvo; por vezes, falhada a pontaria, lá ia alguém, com a perna ensanguentada, a berrar em direção à mãe. O jogo da estátua, um círculo de miúdos estáticos, que iriam para o meio se fossem apanhados a mexer-se, era acompanhado de bofetadas que ficavam marcadas na pele. O trinca-cevada, quando realizado com muitos miúdos, era de tal ordem que algum deles espatifava-se no chão. A corrida de carrinhos de rolamentos era sempre acompanhada de muitos arranhões e fugas descontroladas dos elementos da JAE. As zangas, por razões irrisórias, muitas vezes, acabavam em socos e narizes ensanguentados.
Entretanto, muitas outras vivências ocorriam: os mergulhos à cristo na piscina do parque da Ponte; as subidas tortuosas e difíceis ao monte Picoto; o estouro dos petardos do bicarbonato de sódio enfiado em latas, a desafiar a estridência e o perigo; o serrim da oficina que ladeava a rua, para espalhar pela humidade da terra batida do quintal; a fuligem forte que emanava da construção artesanal de fogões de ferro, feitos, em plena rua, pelo Funheca; os banhos, semanais, em bacias repletas de sabão e sujidade; o mergulho em riachos que julgávamos serem rios; a excitação dos cinemas da paróquia, para ver o Trinitá ou artes marciais; o degolar de galinhas e coelhos, com a faca em riste, pela Maria Fachete, mulher alta e bondosa; o fartote de comer ameixas roubadas, com os bolsos cheios e o lavrador à perna; as febres altíssimas, abafadas com muito cobertor, xarope e papel almaço; os tapetes em flor para receber o Senhor; e as festas da rua ou do bairro, com os altifalantes espetados em postes, a debitarem sons intensamente românticos e sedutores da música francesa. Tudo isto, em dias normais, em férias ou antes delas, sem televisão nem Zx Spectrum, na rua ou na cangosta, em grupo e loucas correrias, tendo como pano de fundo os gritos das mães a chamar os miúdos para o almoço ou jantar. Mas nada disto era comparado ao medo que experimentávamos na escola.
Alguns de nós bloqueavam logo na primeira classe. A autoridade era de tal ordem que tínhamos medo de falar. Na sala de aula, tudo era rígido, imobilizado e ordenado em função da disciplina. Entrávamos de forma ordenada, levantávamo-nos, quando entrasse o diretor. Os cadernos diários eram escrutinados. Os deveres não cumpridos ou erros ortográficos cometidos eram sentenciados com reguadas de palmatória. Gracinhas a despropósito eram corrigidas com cana de bambu nas orelhas. Má educação era automaticamente acompanhada por uma corretiva bofetada da professora, acompanhada da cumplicidade dos pais. Quanto ao resto, havendo condições e motivação, o ensino, de muita memorização, cantilena e difíceis exercícios de aritmética, era ministrado sem problemas. A escola era o reflexo da sociedade. O Cristo no meio, o Salazar num extremo e o Américo Tomaz no outro, impunham o silêncio e o respeito requerido. Quem tinha livros e facilidades em casa, notava-se logo pelo falar e pela roupa. A escola como elevador social só começou a funcionar depois da revolução de abril. Até lá, quem podia ia até à escola comercial e técnica. Uns poucos seguiam para o Liceu e, de seguida, para a Universidade. Os restantes ingressavam cedo na vida laboral. Não sendo inteiramente desse tempo, e apesar de já ter apanhado o ensino unificado, fui dos poucos que apanhei esse elevador social.
Nem por isso sou mais rico, materialmente falando. Tão pouco julgo ter sido o mais inteligente, mas sempre tive como objetivo sair da ilha. Não porque a ilha me repudiasse ou envergonhasse. Simplesmente, à medida que fui crescendo, é que me foi apercebendo do anátema de ter nascido na ilha. A condição era praticamente a mesma em todas as famílias: pai e mãe todo dia fora a trabalhar, crianças entregues a si na rua ou na escola, raríssimas idas à praia, dias intermináveis de férias na piscina municipal, poucos horizontes para além do almejado casamento e constituição de família o mais depressa possível.
A única saída desta interminável roda de ratinho era estudar ou emigrar. Talvez por alguns dos nossos familiares terem sido emigrantes, poucos de nós se aventuraram a fazer vida lá fora. Os poucos que foram por lá ficaram.
Este facto foi provavelmente a sábia e a única razão da resistência dos nossos pais. Portanto, a maioria de nós cedo constituiu família. O Come, por razões que desconheço, vive na Alemanha. O Pardelho, na sua enorme verborreia, continua a teimosamente a querer levar a vida para a frente. O Mico vive na mesma família nuclear e já não tem a rebeldia que tanto nos assustava. O Cacete é um senhor comparando com as loucuras que cometeu na infância. O Tati, em tempos o maior coscuvilheiro do bairro, é hoje um honesto trabalhador e julgo que pai de família. O Buchinha, não sendo tão gordinho como era, conseguiu fazer aquilo que sempre quis, viajar e conhecer novos lugares para além da piscina municipal e da estreita rua do seu bairro. O Mocho, talvez pelo peso do nome, continua teimosamente confiante, julgando-se mais do que aquilo que é capaz. O Rolinha, tendo ainda bem acentuando o peido característico da família, é o único que consegue manter o cabelo escuro quando todos os irmãos o têm branco. O Pelica, por razões adversas da vida, morreu cedo. E o bairro, a Ilha, já não existe, apesar de muitos ainda tentarem preservar a memória desses tempos com almoçaradas nostálgicas e bem regadas. Como era de prever, mesmo não querendo, a ilha não me sai da cabeça. Afinal, todos nós somos filhos da ilha, seja ela qual for.



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