Correio do Minho

Braga, terça-feira

A ignorância como arte de gestão

O conceito de Natal

Voz às Escolas

2015-01-02 às 06h00

José Augusto

Em Portugal, no ano de 2014, ficamos a saber como a ignorância foi transformada na mais refinada arte da gestão de topo. Finalmente, numa sucessão de casos exemplares, os portugueses contribuíram para a demonstração prática do famoso princípio de Peter. Confrontados com falhanços que rebentaram com estrondo na esfera pública, diversos titulares de altos cargos na administração pública e privada vieram revelar, finalmente, o segredo do seu sucesso pessoal e profissional: o nível de excelência a que elevaram a arte de não saber de nada.

Notem bem, não saber de nada é um feito ao alcance de poucos e justifica plenamente exorbitantes compensações e amplos poderes de decisão. Não ouvir, não ver, não questionar é muito difícil, mas é a melhor das defesas quando falha algo que não era suposto falhar. Pois é garantido que, quando se está na mais alta posição da cadeia de comando e não se sabe de nada, haverá sempre um informático, um contabilista ou um porteiro para alombar com as culpas.

A natureza humana impele-nos para o conhecimento. Contudo, há que reconhecer, como ficou demonstrado durante o finado ano de 2014, a elevada competência na arte de não saber de nada parece ser um requisito comum a muitos titulares de altos cargos públicos e privados. Ora, isto coloca um desafio incontornável às escolas. As escolas organizam-se em função da promoção do conhecimento. As escolas procuram ensinar as crianças e os jovens a ouvir e a questionar; a ver e a entender; a pensar e a agir. As escolas procuram estimular a curiosidade e a procura do conhecimento. Então, se aquela narrativa ter vencimento, as escolas estão a falhar, as escolas não estão a preparar as novas gerações para os altos cargos da gestão pública e privada.

Apesar de todos os percalços, a progressão do conhecimento tem tornado as sociedades humanas mais conscientes e responsáveis. Em síntese, mais humanas. Numa sociedade humana saudável, o crescimento económico, o sucesso pessoal, profissional e empresarial são acompanhados do aumento da responsabilidade social, isto é, do “cuidar dos outros”, de todos os “outros” e não apenas dos “nossos”. O desenvolvimento do conhecimento deve ser acompanhado do crescimento da responsabilidade. Então, o que poderá estar em causa nas narrativas do desconhecimento não é a falta de conhecimento, é a falta de sentido de responsabilidade.

Aliás, talvez seja apenas a falta de vergonha e excesso de desprezo pelos outros, por todos os outros. Desprezo, em particular, pelos que tiveram a pretensão de alcançar melhores condições de vida ou, como muitos outros foram dizendo, pelos que ousaram viver acima das suas possibilidades.

A ligeireza e a hipocrisia com que convocam os “outros” à expiação das culpas do endividamento público e da irresponsabilidade da despesa privada, só tem par com a rapidez com que descartam responsabilidades próprias. Havendo desfaçatez e falta de escrúpulos, esta é uma cartilha fácil de seguir: digam que não sabiam de nada, digam que alguém vos devia ter avisado.
Retomando a dúvida, será que devemos continuar a transmitir o valor do conhecimento aos nossos jovens estudantes?

Julgo que sim, porque o que temos assistido não é fruto da falta de conhecimento, é resultado da falta de sentido de responsabilidade. E daqui talvez se possa tirar uma virtuosa lição. Talvez estes exemplos sirvam para desmontar outros mitos, em particular os que prescrevem a possibilidade de uma instrução desprovida da educação para os valores.

É tempo de confrontar aqueles que defendem uma educação escolar meramente instrumental; uma educação subordinada aos interesses imediatos do mercado de trabalho; uma educação ao serviço da economia orientada apenas para a formação de mão-de-obra eficiente e obediente; uma educação desprovida de formação para os valores essenciais da humanidade; uma educação despida de estímulos ao desenvolvimento pessoal, social e ético das crianças e dos jovens. O conhecimento, o poder de decisão, a capacidade de determinar a vida de outros, tem que assentar sempre num forte cimento de valores, de ética e de responsabilidade social. Acredito que um qualquer ano novo há de trazer esta nova realidade!
Um melhor 2015 para todos nós… os outros!

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