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A guerra, Putin e Hitler e o “teste do pato”

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A guerra, Putin e Hitler e o “teste do pato”

Ideias

2022-03-05 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

“Se anda como um pato, grasna como um pato, tem penas e voa como um pato, então, provavelmente é um pato”. Este provérbio norte-americano, é atribuído a Emil Mazey (1923-1983) que foi, nos Estados-Unidos, um sindicalista influente. Mazey terá formulado tal ideia (o “teste do pato”) em 1946, numa reunião do seu sindicato, pretendendo ilustrar porque é que, apesar de não ter provas cabais, entendia que alguém que o tinha interpelado, seria comunista (isto – convém não esquecer – numa fase de obsessiva e histérica propaganda anticomunista que se vivia, então, nos Estados Unidos).
Ora, recordei-me do “teste do pato” a propósito de uma comparação que, efetivamente, nestes tempos de guerra, tem sido esboçada: será Putin comparável a Hitler? Será Putin um “novo Hitler” do século XXI?

Ao contrário do que alguns têm indignadamente recusado, creio que, até ao momento e cingindo-nos à análise dos comportamentos e da ação militar russa no terreno da Ucrânia, há realmente uma similitude de comportamentos e também uma narrativa do Kremlin que legitimam aquela comparação entre Putin e Hitler. De resto, as declarações de Putin e de alguns responsáveis russos (por exemplo, declarações ameaçadoras da porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, relativamente à Suécia e à Finlândia) só serão claramente compreensíveis à luz de alguns conceitos e de uma visão geopolítica partilhados, também, pela cosmovisão inicial do “nacional-socialismo” e da geopolítica de Karl Haushofer, o teorizador da ideia de “espaço vital” (“Lebensraum”). Recorde-se que tal teoria do “espaço vital” serviu, também, de justificação para o arranque do expansionismo nazi Se pensarmos unicamente em alguns acontecimentos imediatamente antecedentes à invasão em curso, como, por exemplo, a anexação, pela Rússia, em 2014, da Crimeia e da cidade de Sebastopol, então, a ideia-força de “espaço vital” é inevitavelmente sugerida a partir da narrativa de Putin. As declarações de Putin convocam-nos para um paralelismo com a referida teoria... e não só!

A Rússia, como é sabido, anexou como subdivisões federais a península da Crimeia e Sebastopol. Isso, na sequência do denominado Euromaidan – a revolução ucraniana que culminou com a deposição do presidente pró-russo Viktor Yanukovych - deposição essa que a Rússia sempre afirmou ter sido um “golpe de Estado”, portanto ilegítima, apesar de ter ocorrido no Parlamento da Ucrânia. Naquelas regiões, significativamente pró-russas (mesmo etnicamente), foi declarada unilateralmente a respetiva independência relativamente à Ucrânia, na sequência de um referendo reconhecido apenas pela Rússia. A Crimeia e a cidade de Sabastopol foram anexadas, embora de modo separado: a Crimeia como uma República da Federação Russa e Sebastopol como uma cidade federal. A Ucrânia e a comunidade internacional não reconhecem esta anexação. De salientar o modo como Putin expressou o seu contentamento relativamente à anexação da península da Crimeia, referindo-se a um regresso da Crimeia a casa da “Mãe Rús- sia”. Esta expressão (a “Mãe Rússia”) era uma expressão do czarismo; uma forma de se exprimir e legitimar a visão e o poder imperial da Rússia oitocentista.

Assim, creio que conceitos como o de “espaço vital” da Rússia, sendo esta, de certo modo, subentendida como um império com reminiscências czaristas (logo, natural e tendencialmente expansionista, sob o prisma territorial e de influência geopolítica), são traços característicos da narrativa atual do Kremlin. Ademais, traços esses reforçados pelas declarações de Putin, afirmando que os ucranianos sempre foram russos (negando a existência de uma nação ucraniana).

Mas, se prestarmos atenção, existem outros pontos comuns entre a narrativa de Putin e uma cosmovisão historicamente nazi (nomeadamente, de 1938 e do contexto da Conferência de Munique). Putin sempre utilizou como justificação imediata, no que diz respeito à anexação da Crimeia e de Sabastopol – tal como sucedeu, agora, em relação à intervenção russa em Donbass (região que se divide em duas: Donetsk e Luhansk) - o argumento do auxílio a comunidades pró-russas. Ou seja, a ação da Rússia seria, segundo a narrativa inicial, motivada pelo resgate, pelo apoio e/ou mesmo defesa de cidadãos russos ou russófonos. Putin (a Rússia) começou, agora, por reconhecer tal proclamação unilateral de independência no Donbass e usou o argumento do auxílio aos cerca de 3 milhões de cidadãos que aí residem e que falam russo, para iniciar a ocupação em curso. O primeiro argumento utilizado e publicitado por Putin foi, portanto, o da ajuda a comunidades russófonas. A exaltação (embora inicial, nos acontecimentos em curso) de um panrussianismo, fundado na língua, em vínculos de cidadania e/ou ideias difusas sociológicas ou étnicas, está, assim, presente, na narrativa de Putin. Recorde-se, também em 1938, a pretensão de Hitler em relação ao Sudeto na Checoslováquia, fundava-se alegadamente numa ideia (também decorrente e entrecruzada com a teoria do “espaço vital”) de pangermanismo. A Alemanha nazi, depois de lhe ter sido oferecida, na Conferência de Munique de 1938, a região do Sudeto, na Checoslováquia, no pressuposto de que o expansionismo de Hitler se ficaria por aí, acabou por, em 6 meses, tomar todo o território checoslovaco. Putin, acenando leve e rapidamente com a auto proclamação, por si teleguiada, de independência do Donbass e do interesse unicamente nessa região, em 2 dias desencadeou uma guerra e iniciou a tentativa de tomada de toda a Ucrânia. Nisso, na rapidez de ação, Putin leva a melhor em relação a Hitler!

Mas Putin dispõe ainda de algo mais temerário comparativamente com Hitler: as armas nucleares. A Rússia de Putin é a maior potência militar nuclear. E isso leva-nos à consideração de um outro argumento invocado pela Rússia contra a Ucrânia e muito salientado por alguns comentadores que se sentem particularmente desconfortáveis em condenar, sem reservas, as ações de Putin (porque entendem sempre que, do outro lado, estão os Estados-Unidos e o mundo ocidental). Refiro-me ao argumento da segurança russa, perante um Estado vizinho que quer integrar a NATO (e aspira, também, a ser Estado-membro da União Europeia).

A Rússia sempre disse não querer, não admitir poder fazer fronteira com a Ucrânia integrada na NATO. Essa posição tem as suas raízes justificativas numa perspetiva marcada por um sentimento pré - “Guerra Fria”, marcado por um equilíbrio militar entre Pacto de Varsóvia vs. NATO. No entanto, na nossa perspetiva, é compreensível, histórica e simbolicamente, a pretensão (ou o trauma) da Rússia. Deveria ser considerada, pelo menos, como condição de diálogo e como forma de atenuação de possíveis tensões ou mesmo de resquícios de “ressentimento histórico”. Note-se, entendemos a relativa propriedade de tal pretensão, atualmente e numa perspetiva histórica, não pretendendo pôr em crise, por outro lado, o direito que cada Estado tem de tomar livremente as suas opções soberanas. De todo o modo, uma invasão e a destruição de um país independente, o provocar-se deliberadamente uma guerra e tentar, por essa via, impor a sua vontade, é manifestamente um excesso criminoso, uma desrazoável e desproporcionada recusa em aceitar o Direito Internacional. Independentemente da discussão relativa às pretensões russas pré-invasão da Ucrânia, o que Putin provocou foi um atentado aos quadros civilizacionais de que vamos dispondo e uma auto proclamação da Federação Russa como sendo, à luz do Direito Internacional, um estado intencionalmente pária!

Relembre-se: a Ucrânia já tinha sido desnuclearizada. A via diplomática poderia e deveria ter sido sempre utilizada (mesmo interminavelmente!) pela Rússia, impondo, por exemplo, condições à atuação da NATO no território da Ucrânia – e isto, precisamente, se a vontade soberana da Ucrânia continuasse a ser integrar-se naquela Aliança e nos quadros de vida ditos ocidentais.
Em resumo: sim, Putin parece, com as devidas adaptações às circunstâncias do tempo histórico, partilhar alguns “(i)racionais” e cosmovisões com Hitler.
E, como diria Mazey, se anda como um pato, se grasna como um pato e voa como um pato, talvez seja mesmo (ou queira ser) um pato.

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