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Braga, segunda-feira

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A greve dos sineiros de Braga

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Ideias

2013-10-14 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As recentes eleições autárquicas originaram uma profunda alteração nos destinos de muitos municípios portugueses. Como consequência, novos rostos e novas práticas irão substituir, gradual ou mais abruptamente, a orgânica que tinha sido aplicada durante os anos anteriores.
Aos que saem, devemos deixar uma palavra de gratidão pelo trabalho desenvolvido e convidá-los a fazer uma análise de tudo o que de correcto e/ou incorrecto fizeram ao longo dos seus mandatos. Aos que entram, desejamos que sejam ponderados e assertivos nas suas decisões, tendo sempre como princípio a ideia que o poder não é eterno e este estará sempre subjugado aos interesses da população.

Esta realidade vem a propósito de uma greve inédita, que envolveu os sineiros de Braga, e que ocorreu há exactamente 100 anos.
Tudo aconteceu durante os agitados anos que se seguiram à implantação da República no nosso país, nomeadamente após a publicação da célebre “Lei da Separação” da Igreja do Estado.
Tal como acontece na actualidade, quando os dirigentes políticos nacionais tomam alguma medida, não falta quem, a nível local, queira ser mais intransigente e mais rigoroso na aplicação dessa medida do que os próprios decisores nacionais.

Assim aconteceu em 1913, quando o administrador do concelho de Braga, tenente Norberto Guimarães, enviou a todos os regedores um ofício, no qual solicitava o cumprimento escrupuloso do edital de 8 de Agosto de 1911, que entre outras situações regulamentava o toque dos sinos dentro da cidade de Braga.
Neste ofício do administrador do concelho de Braga, esclarecia-se que os regedores deveriam evitar os abusos que existiam com o toque dos sinos dentro da cidade, exigindo que fossem feitas participações imediatas dessas situações à administração municipal dirigida por si.

A decisão do administrador do concelho de Braga foi ainda mais intransigente que o conteúdo do próprio edital de 8 de Agosto de 1911, e resolveu impedir que os sinos na cidade de Braga tocassem mais de dois minutos seguidos, acrescentando que só deveriam tocar apenas de duas em duas horas, e só entre as 7 e as 17 horas.
Sendo Braga a “terra dos sinos”, com as suas igrejas, as suas torres e os seus sinos, imagine-se o impacto que esta decisão teve na altura!

Os sineiros de Braga, que viviam deste trabalho, não gostaram e resolveram dirigir-se ao administrador do concelho, pedindo-lhe que revogasse essa decisão. A reunião que se seguiu foi de tal forma tensa que, perante a intransigência do administrador do concelho, um dos sineiros revoltou-se e dirigiu-se-lhe em termos considerados pelo administrador como menos próprios, acabando por ser detido pela polícia. Como consequência desta inflexibilidade do tenente Norberto Guimarães, os sineiros de Braga resolveram fazer greve ao serviço, recusando-se tocar os sinos para qualquer serviço religioso que se realizasse na respectiva paróquia.

Durante as semanas seguintes este tema foi muito discutido em Braga, até porque atingia frontalmente a sociedade bracarense, profundamente católica. Nas paróquias, nas ruas, no trabalho ou em casa, a greve dos sineiros estava sempre presente nas conversas das pessoas.
Esta situação manteve-se durante várias semanas e só terminou de uma forma que merece verdadeiro destaque:

No dia 14 de Outubro de 1913, o administrador do concelho, contestado pelos sineiros de Braga, apresentou o seu pedido de demissão, sendo substituído no cargo pelo presidente da Comissão Administrativa Municipal de Braga, major Albano Lopes Gonçalves, que passou a acumular os dois cargos. Nesse mesmo dia, o novo administrador do concelho recebeu em audiência os representantes dos sineiros, tendo-lhe estes solicitado que os autorizasse a tocar os sinos nas igrejas de Braga, tal como consta no edital da Lei da Separação, e publicado a 8 de Agosto de 1911. E a atitude do major Lopes Gonçalves foi clara: aceitou de imediato as pretensões dos sineiros e autorizou o toque dos sinos nas igrejas, tal como estes pretendiam.

O resultado desta decisão surtiu um efeito imediato, uma vez que os sineiros de Braga terminaram, nesse mesmo dia, com a greve ao toque dos sinos na cidade. Como era de esperar, a alegria e o alívio apoderou-se não só dos sineiros, mas também de todos os católicos de Braga.
O exemplo que o major Lopes Gonçalves transmitiu a todos os bracarenses devia ser analisado e seguido por muitas das pessoas que, na actualidade, ocupam momentaneamente cargos de poder.

Pelo grande desenvolvimento que se verificou em Braga durante o seu curto mandato (pouco mais de dois anos), mas também por este tipo de decisões éticas e ponderadas, considero que o major Lopes Gonçalves foi um dos três melhores presidentes do município de Braga, desde a sua instituição no Código Administrativo de 1836.

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