Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Grécia, de novo

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2012-05-18 às 06h00

Margarida Proença

Nos últimos anos foi-se criando a ideia que os grandes culpados eram os economistas, até porque tinham falhado redondamente na previsão de uma crise muitíssimo grave. E as tentativas de explicar que a economia é uma ciência social, que se trata de pessoas que fazem as suas próprias escolhas e as vão alterando face a novas circunstâncias e aos resultados que pensam que podem vir a obter e que portanto é muito difícil prever, não resultam.

Mas na verdade, a situação económica, social e política na Grécia complica-se cada vez mais. Começa a tornar-se clara a hipótese de o país ter de sair da zona euro; apesar de cerca de 85% dos gregos não o desejar, os resultados das eleições e a impossibilidade de conseguir fazer um governo colocam esse possível resultado como provável. Em Junho a Grécia poderá não dispor já de dinheiro suficiente para fazer face aos compromissos internos, para pagar os salários e as reformas, para manter em funcionamento os serviços públicos, incluindo a saúde e a educação.

Por um lado, a rejeição do acordo com a troika e das condições de austeridade, a tentativa de fuga de um clima económico profundamente recessivo, a ausência de uma colaboração efetiva e responsável entre os políticos que correm muito menos riscos do que a generalidade da população, e por outro lado, a incapacidade cada vez mais óbvia de se chegar a uma união europeia política, com instrumentos efetivos de monitorização deste tipo de crises contribui para explicar esta quadratura do círculo em que a Grécia está metida. E que pode vir a ter um sério efeito de contágio em outras economias da zona euro, como a Espanha, a Itália, a Irlanda e Portugal, entre outras.

A saída do euro na Grécia tornaria possível ao país a emissão de uma moeda, voltando porventura à dracma e possibilitaria o recurso à política monetária para resolver os seus problemas. Imprimindo moeda, poderá pagar os salários e as pensões internamente, mas o risco de se tornar numa “moeda local”, só reconhecida pelos gregos dentro do seu próprio país é muito elevada.

A Grécia poderá tornar-se numa espécie de país pária nos mercados internacionais, com dificuldades muito sérias para se financiar, o que aliás aconteceu na década de noventa na Argentina. A inflação irá certamente disparar, acompanhando um contínuo empobrecimento do país, embora a desvalorização da taxa de câmbio contribua para o aumento da competitividade dos bens e dos serviços gregos. Na Argentina, o consumo diminuiu cerca de 60%, o desemprego disparou, bem como os preços dos bens importados.

A saída do euro poderá ser precipitada pela corrida aos bancos; desde o início da crise, em 2009, já foram retirados do sistema financeiro mais de 60 mil milhões de euros, de acordo com o Financial Times. Este mesmo jornal noticiava ontem que só entre segunda e quarta feira, nesta semana, as pessoas, com pânico do que poderá vir a acontecer, levantaram quase 1, 2 mil milhões, o que representa 0,75% do total de depósitos do país.

Como os bancos são assim uma espécie de folha de cálculo que contabiliza entradas e saídas de dinheiro depositado e investido, se a corrida aos bancos se intensificar, a situação ficará muito complicada, podendo mesmo exigir medidas de restrição de levantamentos bancários. Em 2001, na Argentina, houve pessoas que chegaram a dormir nas ruas, em frente das caixas de multibanco para poderem levantar dinheiro, e o governo acabou por congelar todas as contas e impedir levantamentos acima de um dado valor, aliás relativamente baixo. Esta fuga de capitais dificulta muito o cumprimento da exigência da troika para recapitalização bancária. A Grécia poderá ter de criar novos bancos, com forte intervenção pública, para controlar todo o processo.

As elites financeiras na Europa parecem oscilar entre a preocupação com os custos que a saída da Grécia do euro, que podem no pior dos cenários provocar uma queda de 5% no output europeu, e a sensação de que afinal de contas tudo correrá bem, isto é, os efeitos de contágio nos outros países não serão significativos. O Banco Central Europeu deixaria de financiar os bancos gregos, que passariam a fazê-lo internamente, na nova moeda, e que teriam de declarar uma moratória sobre a dívida.

É a este cenário que se chama de saída desorganizada, mesmo quando foi criada a zona euro, nunca se previra estes problemas, e portanto não foram criados instrumentos económicos e financeiros que possibilitassem uma saída organizada do euro. Embora seja naturalmente otimista, a globalização das economias, as intricadas interligações que existem atualmente nos mercados de capitais, a estreita interdependência entre as economias europeias, incluindo a Alemanha, me leva a olhar com muita preocupação para a saída do euro por parte da Grécia.

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