Correio do Minho

Braga, terça-feira

A grande comunicação não liga ao interior

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2011-03-21 às 06h00

Artur Coimbra

1. É uma crítica recorrente e, deixem-me confessar, perfeitamente justa: a comunicação social de expressão nacional, a começar pelas televisões e a acabar nos jornais, salvo raríssimas e episódicas excepções, não liga a mínima peva ao que de positivo, agregador e entusiasmante se está a fazer pelo país, e sobretudo no interior. Quando uma desgraça acontece, um assassínio, um acidente, uma manifestação contra o encerramento do centro de saúde ou quando episódios de violência de qualquer espécie são conhecidos, as televisões saltam, como por encanto, para a rua, os jornais enviam pressurosas equipas de reportagem, as rádios dão directos emocionados para os principais serviços noticiosos.
O sangue, a violência, o sexo, o dramatismo, o exacerbado “vendem” páginas de jornais ou aberturas de telejornal, porque o “voyeurismo” dos portugueses é explorado até à alma. Tudo o que é negativo ganha lugar de destaque nos media, porque responde aos estereótipo do que alegadamente os espectadores e leitores estão à espera.
Pelo contrário, as notícias positivas, quaisquer que sejam, mas sobretudo da área da cultura, aparecem na comunicação social de expressão nacional, quando acontecem nos palcos da capital ou, quando muito, do Porto. Ou quando o Presidente da República visita uma exposição, ou José Sócrates inaugura um museu. O resto do país e do tempo mediático, continuam, revoltantemente, a ser paisagem, não interessando minimamente às agendas dos editores dos grandes meios de comunicação, que não conhecem o território e que vão exercendo os seus pequenos poderes nos espaços em que se revêem, por razões nem sempre de índole informativa.

2. As afirmações anteriores traduzem algum pesar pela (quase) indiferença com que a grande comunicação tem tratado uma das maiores manifestações culturais que por estes dias teve como palco o município de Fafe.
Desde a passada segunda-feira e até hoje, 21 de Março, Fafe protagonizou um evento de grande dimensão cultural e educativa, concretizado nas Segundas Jornadas Literárias de Fafe, sob o lema “Palavras com Liberdade”.
Ao contrário de outros eventos congéneres, em que se convidam escritores e se “compra” um formato de certame para o qual apenas é necessário ter orçamento recheado, em Fafe todas praticamente as iniciativas foram organizadas e levadas e efeito pela comunidade local, dos jovens aos adultos.
Desde logo, o que haverá a evidenciar é a adesão à iniciativa de todos os agrupamentos e escolas do concelho. Além do município, que financia e coordena as Jornadas, estão envolvidos na organização a Escola Secundária, os Agrupamentos de Escolas Prof. Carlos Teixeira, Montelongo, Arões, Silvares e Padre Joaquim Flores, a Escola Profissional e o Colégio da ACR Fornelos, bem como o Núcleo de Artes e Letras de Fafe, o Cineclube de Fafe, a editora Labirinto e a Academia de Música José Atalaya. Mas outras entidades locais participam nos diferentes números do evento, que se salda pela maior participação popular em termos de espectáculos e de iniciativas culturais ao longo de todo o ano. Muitos dizem que é um acontecimento “histórico”.
Basta ver que na segunda-feira passada, o espectáculo de abertura, no Pavilhão Multiusos, juntou várias centenas de jovens de inúmeros estabelecimentos de ensino e bem mais de mil espectadores, durante mais de duas horas onde imperou a música, a dança e a poesia.
Entretanto, além do lançamento de diversas revistas e obras literárias e de encontros com escritores (Moita Flores, por exemplo), de espectáculos de teatro para a população escolar, de filmes, exposições e outras actividades realizadas em cada agrupamento e escola, em homenagem a escritores como Camões, Fernando Pessoa, José Saramago ou Alice Vieira, o realce vai para um grande espectáculo realizado este sábado, intitulado “Memórias de um Povo”, que avivou tradições, usos e costumes e levou ao Pavilhão Multiusos mais de um milhar de pessoas, metade dos quais figurantes, que recriaram procissões, actividades agrícolas, cantares de reis, marchas sanjoaninas, desfiles carnavalescos e outros números de grande impacto local. Para a noite de hoje, dia mundial da poesia, da árvore e começo da primavera, está previsto um grande espectáculo de encerramento, sob o tema plagiado a Florbela Espanca, “Ser Poeta é Ser Mais Alto”, no Teatro-Cinema, durante o qual serão entregues prémios literários, será declamada poesia e se assistirá à recriação de uma fabulosa obra de Fernando Pessoa (Mensagem), pela Academia de Música José Atalaya.
A cultura em Fafe está em alta, quer em quantidade, quer em qualidade. Indubitavelmente. Pergunte-se aos milhares de pessoas que estão a participar activamente nestes eventos. Infelizmente, a comunicação social que leva a informação aos lares dos portugueses ignora o que se está a passar neste município, desconhece o esforço e o sacrifício de dezenas de pessoas que andaram pelas escolas e pelas aldeias a ensaiar e a cativar jovens e menos jovens em torno de uma causa cultural, educativa e de lazer. É o geral silêncio sepulcral e ensurdecedor, quando coisas bonitas se estão a fazer na cidade e no concelho.

3. E se durante um espectáculo destas Jornadas altamente positivas e frutuosas, em termos educativos, culturais e sociais, mobilizando afirmativamente todo um concelho, um palco ruísse e dois actores ficassem feridos (lagarto, lagarto…) com alguma gravidade?
Ninguém mais falava no êxito indesmentível de uma semana gloriosa, o que não é interessante para a história. As televisões saltariam, como por encanto, para a rua, em direcção a Fafe, os jornais enviariam pressurosas equipas de reportagem, as rádios dariam directos emocionados para os principais serviços noticiosos…

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