Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A gasta história da obediência

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-12-22 às 06h00

José Manuel Cruz

Sou um fim de linha numa cadeia de correio electrónico. De fiel proveniência me chegam anedotas e convites à oração, paisagens de viagens invejáveis e os avanços na frente tecnológica ou urbanística, sequências a roçar a sordidez e resumos da indignação social pelo estado deplorável da vida pública. Dos últimos dias retive uma piada de ocasião sobre o que é um encarceramento chique, e uma declaração de Ramalho Eanes sobre o efeito pernicioso da obediência.

Procurei estabelecer em que circunstâncias o senhor general e antigo presidente da República teria produzido tal intervenção. Não cheguei nem à data nem ao evento. Captei a sugestão, entretanto, de que em torno de si cresceria uma vaga de fundo com o propósito de o recuperar para a política a tempo inteiro e, ao que julgo, em articulação com Rui Rio.
Pareceu-me que uma certa opinião pública, por outro lado, encontrava na declaração de Eanes argumentário para ilibar José Sócrates. O ex-primeiro ministro seria o cordeiro pascal, o inocente sacrificado para que os “grandes ladrões” prosseguissem impunes.

Como referi, desconheço o momento e o local do libelo acusatório de Eanes. Não sei, inclusive, se teria remetido o parágrafo para a fonte original. A acusação remete para a viragem entre os anos ’60 e ’70. Não é, por conseguinte, a propósito de Portugal, sobre os nossos malogrados banqueiros, ou qualquer servidor público sem escrúpulos. Não é, mas não quer dizer que não se ajuste, prove ou não a justiça a escroqueria.
E mesmo quando proferiu o epigrama, não se referia Howard Zinn por si só à sua época e ao contexto americano. Portanto, a frase remete para um contexto intemporal, para a denegação da liberdade responsável, dos direitos de cidadania progressiva, orquestrada pelos poderes hegemónicos ou totalitários, para a cobardia ou tibieza dos cidadãos complacentes perante esses mesmos poderes.

Dos anos ’70 para hoje, porém, alguma coisa evoluímos. No ano transcorrido, por exemplo, tivemos o bem-sucedido levantamento popular de Kiev. Tivemos, também, a persistência inconsequente da revolta dos guarda-chuvas em Hong Kong. Independentemente de simpatias pessoais, registo que o movimento da praça Maidan foi profusamente divulgado na imprensa ocidental, colheu simpatias e amplo suporte de Varsóvia a Washington. Dê eu por boas e argumentáveis as razões de ucranianos, e logo me assalta uma dúvida: e em Hong Kong? Julgo que, ao abrigo do estatuto especial, vigorava a obrigação de as autoridades de Pequim aceitarem os candidatos propostos a partir da base pelos habitantes de Hong Kong. Pequim, sabendo que os seus candidatos perderiam, revogou o princípio, declarando que admitiria a escrutíneo apenas os candidatos que sancionasse. Democracia na China? Liberdade?

Tal como eu vejo as coisas, a revolta ucraniana foi amplamente acarinhada, a revolta em Hong Kong foi noticiada com reservas e a contragosto. Entenda-se que não falo nem de uns nem de outros. Na aspirante a cidade-estado não se pedia a independência, mas bem que o poderiam fazer. Hong Kong não será menos que Singapura, e não teria dificuldade em sobreviver como nação autónoma. Em Hong Kong exigia-se a satisfação do acordado e elementar democracia. Mas na Europa e na América do Norte achou-se que não éramos tidos nem achados.

Combatemos animadamente o imperialismo russo e ignoramos olimpicamente os atropelos da nomenclatura chinesa. E deveríamos perguntar porquê, principalmente numa semana em que um tribunal chinês decretou prisão perpétua por crime de opinião a Ilham Tohti, economista, professor universitário, que mais não terá feito que apelar ao diálogo entre os Han, enquanto etnia dominante chinesa, e os Uigures, povo que nunca cessou de clamar pela independência.
Não tenho ilusões: a generalidade dos portugueses não fará a menor ideia de quem sejam os Uigures. E não é nas acanhadas linhas deste artigo que eu me poderei alongar. Embora no domínio público nada se saiba deste povo turco-mongol, nem da forma como acabaram subjugados numa Grande China, sabemos, por outro lado, como a China anexou o Tibete com a complacência ocidental. Foi há qualquer coisa como 60 anos. Há testemunhos vivos, há documentários.
Tivemos que desmantelar o império soviético, porque estava às portas da Europa, porque era um empecilho à progressão duma certa Europa. Rejubilará quem traçou a estratégia. Soviéticos e europeus partilhavam uma fronteira, e uns viveriam sob a perigosa ameaça de outros. Combateu-se na frente económica o que se encenava com as armas estacionadas em arsenais. Promoveu-se a economia chinesa quanto se procurou erodir a soviética. Um e outro esforço deram resultado.

E não será hoje - como já o era então - a China uma ameaça? E por que é que goza de isenção de crítica? E por que é que lhe somos permeáveis industrialmente? E por que é que a sua produção é uma ameaça a estabilidade do emprego na Europa? Em suma, os poderosos não se limitam a expropriar-nos duma parte significativa do nosso trabalho, e duma parcela luminosa do nosso futuro. Condicionam, mais profundamente, as nossas opiniões, o que pensamos e podemos sentir. E é por aqui que podemos começar a desobedecer.

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