Correio do Minho

Braga, sábado

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A freira apaixonada e o padre que casou os seus pais

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2010-03-22 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As notícias que têm sido tornadas públicas, e que envolvem elementos da Igreja Católica, quer a nível nacional, quer a nível internacional, tem provocado enormes ondas de indignação na sociedade internacional.

Começam a ser vários os episódios de pedofilia, e outros escândalos, que envolvem padres e outros elementos com cargos elevados na hierarquia da Igreja, e que ocorreram/ocorrem na Alemanha, no Brasil, na Bélgica ou na Irlanda.

Estes acontecimentos fazem-nos recordar outros episódios, que ocorreram em Portugal, mas em contexto inverso, e que, pelo seu carácter de pureza e até inocência, merecem ser recordados:
- O primeiro refere-se a uma freira que se perdeu de amores por um capitão francês. Mariana Alcoforado, a freira, nasceu em 1640, em Beja, e apaixonou-se pelo capitão Noel Bouton (Conde de Saint-Léger e, posteriormente, Marquês de Chamilly), que veio para Portugal integrado nas tropas francesas que ajudavam o nosso país na luta pela confirmação da independência nacional.

Enquanto o capitão estava em Portugal, Mariana Alcoforado (que vivia no Convento de N:ª Senhora da Conceição, em Beja) mantinha, presume-se, encontros amorosos, às escondidas, com o militar. No entanto, quando a paz entre Portugal e Espanha foi assinada e o militar regressou a França, Mariana pediu-lhe desesperadamente que a levasse com ele. Das várias cartas que Mariana escreveu ao militar, apenas uma obteve resposta. Apesar disso, a freira apaixonada insistia no envio de cartas, todas de elevadíssimo cariz romântico.

Essas cartas foram publicadas em França, em 1669, com o título de “Lettres portugaises”, e presume-se que algumas delas tivessem sido alteradas pelo próprio Noel Bouton, o militar, uma vez que se vangloriava publicamente das suas paixões. Estas cartas, que tiveram grande sucesso e que foram tema de numerosas análises e estudos internacionais, foram publicadas em edições francesas, portuguesas, italianas e inglesas tendo, só em França, atingido mais de cinquenta edições.

- O segundo episódio ocorreu há quase um século e meio (147 anos), aqui bem próximo, no Porto.
Numa época em que a sociedade portuguesa estava marcada por grande fervor religioso, tendo as igrejas um papel de grande dinamismo na sociedade oitocentista, houve um casal que resolveu subverter todas as regras sociais e religiosas existentes no nosso país. Esse episódio conta-se em poucas palavras:

- Corria a década de sessenta, do século XIX, quando um homem e uma mulher decidiram viver juntos, na mesma casa, apesar de não se encontrarem casados. Desta vivência, marcada por uma forte amizade, união e amor entre os dois, apesar da fortíssima oposição da Igreja, nasceu um filho.

O curioso desta situação é que este rapaz, à medida que ia crescendo, demonstrava cada vez mais vocação religiosa, ao ponto dos pais decidirem inscrevê-lo num Seminário.
Com o passar dos anos, este rapaz foi-se destacando cada vez mais na vocação religiosa e, enquanto alguns dos seus colegas acabavam por desistir deste percurso religioso, o rapaz continuou com grande rigor os seus estudos, acabando mesmo por se formar como sacerdote.
Começando de imediato a exercer a sua vocação católica, este rapaz, agora homem, acabou por criar uma situação estranha aos seus pais, uma vez que estes sentiam-se numa posição incómoda, já que tinham um filho sacerdote e eles próprios não estavam casados.

Mas o exemplo “religioso do esperançoso filho foi tão edificante, enterneceu tanto os paes contra lei, que um dia acordaram com remordimentos na consciência, depois de terem sonhado com o querido filho…” (1). Então, estes pais tomaram a decisão de pedir autorização à Igreja para se casarem: “O sonho foi fecundo em resultados, e ambos resolveram unir-se pelos laços matrimoniaes para passarem o resto dos seus dias em plácida harmonia com a consciência”. (1) E essa autorização foi mesmo dada pela Igreja!

O caricato desta situação é que, após obterem esta autorização, a cerimónia de casamento dos pais ocorreu na igreja onde o filho exercia a sua actividade religiosa, tendo o matrimónio sido feito pelo seu próprio filho: “Ora eis ahi um filho natural, que se legitima a si mesmo!”, afirmava muita da imprensa da época. Ou seja, o filho casou os seus pais!

Este caso foi noticiado por todo o país. Em Braga, o jornal “O Commercio de Braga”, do dia 17 de Julho de 1862, terminava desta forma a notícia sobre este curioso facto: “Ora eis ahi um filho natural, que se legitima a si mesmo! O caso é notável, e digno de se registar nas columnas do noticiário, já que os avaros e seccos esclarecimentos do movimento parochial não podem chegar tão adiante, e deixam o leitor sempre ás escuras n’estes pormenores”.


(1) - Jornal “O Commercio de Braga”, de 17 de Julho de 1862

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