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Ideias

2017-05-07 às 06h00

Artur Coimbra

1. Ao contrário do que muitos supõem e escrevem, as eleições que hoje determinam o próximo Presidente da República em França não respeita apenas aos eleitores daquele país mas a todos os europeus e aos cidadãos do mundo. Aliás, por aí se compreende a “entrada” na campanha do ex-presidente americano Barack Obama, em mensagem de apoio a Emmanuel Macron, quando frisou que “o sucesso da França interessa a todo o mundo”, detalhando que o candidato apela “às esperanças e não aos medos”.
Porque o que está hoje em votação final global é muito mais que dois estilos, duas personalidades fortes, duas imagens de políticos vigorosos e ambiciosos de chegar ao Eliseu. O que está em equação são dois modos completamente diferentes de encarar a política, dois sistemas ideológicos e pragmáticos absolutamente contraditórios, quanto ao lugar da França na Europa e ao da Europa em França.
O que está em questão é a permanência ou a saída da França da União Europeia e da moeda única. É a manutenção ou a ruptura do próprio projecto europeu, cujos baluartes são exactamente a Alemanha e a França. É o encerramento da França ao mundo exterior ou a continuação da globalização.
Simbolicamente, estamos em presença da dicotomia entre a “Pátria da Luz” ou a “Pátria das Sombras”, se assim podemos afirmar.
Marine Le Pen corporiza um programa político baseado nas ideias nacionalistas, racistas, xenófobas, populistas, anti-emigratórias, anti-liberais e anti-democráticas. E sobretudo, a explorar a seu favor o medo: do estrangeiro, do diferente, do refugiado, do emigrante. Em toada absolutamente demagógica, do que vem “roubar” o emprego aos franceses, como se a França de hoje não fosse o produto da contribuição dos emigrantes das várias partidas do mundo!...
Para a líder da Frente Nacional, copiando o chauvinismo que hoje vem do outro lado do Atlântico, a França é para os franceses, as fronteiras serão fechadas, emigrantes e refugiados são para bem longe dos limites gauleses, a Europa enquanto práxis é uma entidade a abater, pelo menos, enquanto não se tornar conveniente, o franco como moeda nacional é para regressar, talvez coexistindo com o euro. O que significa que não são apenas mais de um milhão de portugueses e lusodescendentes que estão em risco (por exemplo, Paris é a terceira cidade portuguesa, depois de Lisboa e Porto…), apesar de se saber que, paradoxalmente, inúmeros votam na candidata de extrema-direita, mas também o impacto que poderá ter em Portugal a eventual saída de França, em caso da vitória de Le Pen, da União Europeia, que seguramente se desmantelaria, sob os destroços de um “Francexit”!...
É claro que não faria mal nenhum que a burocrática e longínqua Europa levasse um bom abanão para despertar para a necessidade de se adaptar aos novos tempos e aos anseios dos Europeus, que se revêm cada vez menos nos aparelhos autocráticos do funcionalismo de Bruxelas e Estrasburgo, que tudo comanda e regula, sem ponta de legitimidade política. Mas não será, porventura, pelo abandono de um país com a dimensão de França que essa necessária e inadiável reforma das instituições europeias deverá ser equacionada!...
Por seu turno, e voltando às presidenciais francesas, Emmanuel Macron é o feliz reverso de Le Pen, propondo a continuação de uma França liberal, aberta à modernidade e à globalização, mantendo os princípios de liberdade, da tolerância e da democracia que fazem do país o centro do mundo contemporâneo, desde a época das Luzes e da Revolução Francesa.
Como ontem escrevia João Miguel Tavares, na última página do Público, “sólido na economia, humanista na emigração” e com uma clara supremacia de competência técnica e política sobre a candidata da extrema-direita, patentíssima no longo debate da última quarta-feira, em que os campos se separaram cristalinamente, como a água do azeite, em favor do candidato do movimento “Em Marche!”.
É evidente que, a menos que esteja tudo louco e as sondagens que dão nesta altura uma diferença de mais de 20% entre os dois presidenciáveis não passem de mera diversão, tudo aponta para uma claríssima vitória de Emmanuel Macron, em quem a imensa maioria vota por convicção e outros apoiam por ser contra a extrema-direita. Um voto táctico, quando é útil...
Tudo aponta assim para que logo à noite Macron seja o sucessor de Holland no Eliseu.


2. Contudo, há ainda duas notas que merecem ser apontadas, na minha perspectiva.
Uma primeira é que, se a candidata da extrema-direita chegar aos 40% da votação, como poderá chegar, institui-se como um perigo para a política e para a democracia francesa, porque será uma questão de tempo até chegar ao poder. Qualquer votação expressiva no radicalismo, na xenofobia ou no isolacionismo será altamente arriscada e indesejável, como é evidente, para quem ama a democracia e a liberdade. A Europa ficará obviamente apreensiva, se tal vier a acontecer.
Uma segunda nota tem a ver com a perigosa ideia de alegados e algo lunáticos esquerdistas em França e em Portugal que apoiam a candidata extremista de direita, Marine Le Pen, afirmando que tanto vale votar nela como em Macron, pois são ambos equivalentes e será caso para escolher entre “a peste e a cólera”, para usar uma expressão em voga em terras gaulesas.
Afirmar estas barbaridades é manifestar a mais supina ignorância política do que está em jogo nas eleições francesas. É comparar o incomparável. Será como cotejar um democrata republicano e uma candidata radical que põe em causa os próprios fundamentos da República francesa, como escrevia esta semana o Le Monde. Não é definitivamente a mesma coisa, temos de convir!

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