Correio do Minho

Braga, sábado

A fome nas escolas e fora delas

Telefonemas e sms mais baratas na União Europeia

Voz às Escolas

2012-11-12 às 06h00

J. A. Pinto de Matos

O contexto socioeconómico das escolas muda vertiginosamente, num ambiente de crise que se generaliza, e os problemas emergentes penetram o seu portão e determinam as suas dinâmicas.
A ideologia neoliberal, que “contamina” a economia global, impôs a flexibilidade e a precariedade dos empregos como normas basilares para a sua competitividade e sustentabilidade.

Atua a um ritmo galopante, insensível às “resistências” e, insidiosamente (às claras já), dissemina a opinião de que se trata duma inevitabilidade. Neste clima, as organizações adequam as necessidades de mão-de-obra às necessidades do mercado e da produção, assim “desregulado”, e o desemprego dispara para níveis insuportáveis. As incertezas, a pobreza e a exclusão espalham-se e refreiam a resistência (instalam-se medos…). A fome ganha terreno e atinge setores sociais que até agora pareciam encontrar-se a salvo.

O tema da fome foi amplamente glosado, nesta semana, com polémicas várias. E a escola também esteve envolvida, porque ela é um cadinho onde desagua tudo o que interage na sociedade. A Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação denunciou, no Parlamento, que “há fome nas escolas”.

A afirmação, assim divulgada, na secura de título, teve impacto, mas carece de alguma precisão, quanto à sua génese e âmbito. Não, não há fome nas escolas; há é crianças e jovens que entram nas escolas com fome. As escolas ainda vão conseguindo dar respostar, no seu interior, a este problema. A ação social escolar é uma área que funciona bem, que responde às situações de maior carência.

Sempre as escolas atentaram e atuaram no debelar dos casos mais necessitados, não só com a distribuição do almoço, mas também com a atribuição de suplementos alimentares. É sabido, por ser frequentemente divulgado na comunicação social, que é na escola que muitas crianças e jovens têm a única refeição condigna. No entanto, com os “cortes na educação” que se anunciam para o orçamento de 2013, poderá também estar em causa esta capacidade de atuação, exatamente num contexto em que se prefigura de maior acuidade.

A sociedade vive em contínua mudança, acelerada e mais intensa nas últimas décadas, com alterações profundas nas suas bases sociais e, sempre que há alterações sociais significativas, novas atribuições são requeridas à escola. À escola exige-se sempre uma resposta, mas há soluções que estão a seu montante. Um aluno que entrou na escola com fome tem em casa (se não teve que a entregar à usura do banco), uma família com fome. E a esta dificilmente a escola poderá chegar.

O senhor Secretário de Estado do Ensino e Administração Escolar afirmou que há mais de 10 mil alunos com carências alimentares (cerca de metade já abrangidos pelo Programa Escolar de Reforço Alimentar) e que essa informação vai ser passada ao Banco Alimentar contra a Fome, para que as famílias sejam ajudadas. Discordamos claramente desta intenção: entregar nas mãos da sociedade civil a resolução dum problema como este, apenas denota, de modo evidente, a demissão do Estado.

Aos governantes exige-se outro tipo de ação: que encontrem as soluções para erradicar o problema, começando por medidas que o debelem no imediato (como se impõe numa qualquer catástrofe) e que não embarquem em soluções paliativas, de fim-de-linha, da sociedade civil. A “caridade” é uma ação que atua a jusante, paliativa, portanto, para colmatar as demissões do Estado. Meritória, porque nascida na solidariedade voluntária, mas nunca poderá ser a solução.

Pedagogicamente, na sabedoria de experiência feita, o povo diz que ao pescador não se deve dar o peixe; deve-se ensiná-lo a pescar. Mas, nos tempos correntes, num ambiente de austeridade sufocante, onde o desemprego é enorme e em contínuo crescimento, já não basta ensiná-lo a pescar: o rio pode estar irremediavelmente contaminado ou até seco. Há muita gente que sabe, mas não encontra um “rio”.

É preciso criar condições para o investimento e para a criação de postos de trabalho. Só assim as crianças e jovens terão em casa o devido sustento e a fome não entrará nas escolas (e assim se dispensaria, de bom grado, a caridade). Políticas de braços caídos, vexadas à inevitabilidade da solidariedade da sociedade civil, não fazem sentido.

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