Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A festa sanjoanina: o segredo está no folclore que a rodeia

Plástico - Pequenos passos no caminho certo

Ideias

2016-06-08 às 06h00

José Hermínio Machado

Vamos juntar alguns factos vividos recentemente por nós para perspectivarmos a nossa ideia com este artigo: no dia 4, sábado, um passeio a Lamego, à festa das cerejas de Penajóia, serve de argumento aos hábitos de consumo e de promoção dos produtos da terra, com este género de festivais a tornar-se prática «costumeira». Na peregrinação à Senhora do Sameiro, no passado dia 5 de Junho, o senhor arcebispo primaz desenvolveu uma argumentação a favor da emergência da criatividade no processo de vivência das tradições, a qual pode facilmente ser transposta para outros campos do conhecimento.

A tese central consistiu num apelo vivo à confirmação da fé no quotidiano presente das pessoas, sendo a dimensão missionária a dimensão mais dinâmica dessa confirmação ou reafirmação. Isto, trocado em miúdos de popularização significa que as pessoas devem renovar, recriar, reinventar, os argumentos que justificam as suas crenças religiosas e as suas vivências, ou seja, as pessoas devem justificar criativamente as razões cristãs do seu estilo e orientação de vida. A própria peregrinação, sendo uma prática «costumeira», apela à integração de novidades.

No dia 5 de Junho, à tarde, uma viagem a Caminha, ao evento «Entre Margens - Encontro de Tocadores», um evento preenchido com mostras de construtores de instrumentos musicais portugueses e galegos, com oficinas, palestras, bailes, comércio e outros momentos artísticos. Neste evento, deslocado do seu calendário «habitual», a música e a organologia instrumental tornam-se as mediadoras narrativas deste apelo à criatividade no interior das tradições. Nós esperamos que as festas confirmem tradições de ser e fazer, como esperamos também ser surpreendidos com manifestações de novidade, sejam elas notáveis ou discretas, sentidas ou pressentidas, suspeitadas mesmo.

Estamos já em tempo de vivência da festa sanjoanina e mais uma vez estamos todos curiosos de saber como vão manifestar-se as tradições e os sinais de sua renovação ou recriação. É útil introduzir aqui uma pequena reflexão sobre a palavra «folclore» para a confirmar como a dimensão de todas as novidades. Quando, em 22 de Agosto de 1846, o bibliotecário do parlamento inglês, William John Thoms (1803-1885), cunhou a palavra «Folk-Lore», assim hifenizada, porventura não terá tido a consciência da funcionalidade que a nova palavra acabaria por ganhar tanto no uso comum como nos estudos científicos.

Dedicado à literatura, às antiguidades, às mitologias, Thoms destacou particularmente as histórias de fadas, os romances populares, as «maneiras» como as coisas se justificavam ou se faziam, cabendo neste conceito uma diversidade de dimensões ou elementos: o que se diz, o que se pensa, o que se imagina, o que se inventa para dar sentido às coisas, tornou-se uma obsessão para o pai do termo «folk-lore». Convencido de que o progresso técnico e tecnológico (o comboio estava então a desenvolver-se como meio de transporte que iria colocar em causa todo o modo de viver tradicional), Thoms apelou fervorosamente aos seus contemporâneos para registarem toda a «sabedoria do povo» ligada aos modos de vida então praticados pelas populações: «as maneiras, as convenções, os costumes, as observâncias, as superstições, as cantigas narrativas, os provérbios»; mais tarde acrescentou «as lendas, as tradições locais, as canções de embalar».

Thoms respondeu ao seu próprio apelo com um artigo sobre um nome dado ao diabo. Desde então, a palavra folclore tornou-se uma chave metafórica: por ela se diz tudo o que pode manifestar a criatividade. A frequência com que atribuímos a esta palavra um sentido «depreciativo», «excessivo», «desconforme», é uma revelação dos seus poderes de comunicação: o diabo está em pormenores e, no caso de estarmos a viver a S. João, o acumulado de lendas, mitos, efabulações, costumes, histórias, casos e exemplos que associamos ao santo precursor é folclore que basta para recriar a festa e não temer por seu futuro.

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