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A ferrovia, finalmente

A resolução de conflitos de consumo através da Internet (RLL)

A ferrovia, finalmente

Ideias

2021-05-04 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“Estamos a fazer o que não é feito há décadas em Portugal. Estamos a cumprir a Ferrovia 2020 e vamos concluir, aproveitando o quadro comunitário, até Dezembro de 2023.”

Pedro Nuno Santos, o ministro das Infraestruturas e Habitação, era um homem feliz quando, há cerca de uma semana, proferiu as palavras com que inicio este texto. E a verdade é que o governante tem razões de sobra para manifestar a sua satisfação porque, de facto, o seu ministério está a levar por diante “uma revolução na ferrovia”.
Na circunstância, Pedro Nuno Santos referia-se, em concreto, à inauguração da modernização do troço ferroviário entre Viana do Castelo e Valença, uma aposta que o Primeiro-ministro considerou igualmente “uma revolução no transporte de mercadorias”. Contudo, depois de ultrapassar mais esta etapa no longo percurso da obra da ferrovia, “uma obra sempre inacabada”, o ministro da tutela já prepara a fase seguinte daquilo que reconhece ser a “prioridade” da ligação a Espanha, sobretudo nas relações comerciais com a Galiza.
Nesse sentido, e uma vez que a ligação existente se destina, preferencialmente, ao transporte de mercadorias, o governante reforçou o “compromisso”, anteriormente assumido pelo governo, de criar uma nova linha, esta com maior foco nos passageiros. Será, conforme tem sido divulgado, uma ligação rápida entre Porto e Vigo, servindo o Aeroporto de Pedras Rubras e a cidade de Braga, onde será edificada nova estação. A esse propósito, Pedro Nuno Santos destacou que “hoje a viagem de Valença a Lisboa faz-se em cinco horas, depois vamos fazê-la em 2.15 horas”, o que, naturalmente, irá contribuir para incrementar ainda mais as relações económicas e sociais”.
“A ligação ferroviária à Galiza é estratégica e nós queremos começar a trabalhá-la desde já. A ligação Lisboa-Porto-Vigo é para nós fundamental”, tinha garantido dias antes o ministro, explicando que “privilegiamos neste momento a ligação à Galiza” por se tratar da “região espanhola com quem Portugal tem mais relações económicas e sociais”.
O próprio Primeiro-ministro, que presidiu à inauguração da modernização do troço ferroviário entre Viana do Castelo e Valença, reconheceu que a aposta na ferrovia “é absolutamente decisiva para o fortalecimento da capacidade e da competitividade desta grande região, que é a Galiza e o Norte de Portugal”.
Creio, portanto, não restarem quaisquer dúvidas quanto às enormes vantagens de apostar na ferrovia. Aliás, António Costa enfatizou, na altura, que a modernização agora concluída “muda completamente o quadro da relação de um lado e de outro da fronteira”, sublinhando que essa relação “é muito importante do ponto de vista comercial, da restauração, da convivialidade”, pois “vai continuar a densificar a interligação do tecido industrial entre o Alto Minho e Galiza”.
Embora com um atraso incompreensível, estão agora criadas as condições para uma melhor e mais rápida ligação entre os portos de mar de Leixões, Viana do Castelo e Vigo. Isto é, com a aposta na ligação ferroviária, o conjunto de grandes infraestruturas portuárias da frente atlântica desta euro-região pode finalmente reforçar consideravelmente a sua posição competitiva, facto que, como é óbvio, fortalecerá a própria economia regional.
Há, por outro lado mas não menos importante, a candente questão do compromisso de atingir, em 2050, a neutralidade carbónica, o que passa por reduzir em 55% as emissões de gases com efeito estufa até 2030. Nesse particular, António Costa também admitiu por fim que o comboio “é o transporte do futuro”, pelo que acredita que é chegada a hora de ter “capacidade de decidir e de executar sem hesitação”.
É precisamente essa aptidão para decidir e executar, em tempo útil, que os portugueses esperam dos políticos que compõem um governo. Como se tem constatado com mais frequência do que seria expectável, as hesitações conduzem ao protelamento das decisões e, nessa medida, não podem fazer parte do modus operandi dos decisores políticos. Os portugueses querem celeridade na resolução dos problemas comuns, aqueles que de um modo geral afectam o país. E esperam dos governantes precisamente a tal capacidade de decidir e executar sem hesitação e sem delongas. Em suma, estão saturados de indecisões.
A aposta na ferrovia constitui uma alteração qualitativa na actuação governamental, uma disrupção em relação às práticas que vinham a ser seguidas e, nessa medida, pode considerar-se uma autêntica pedrada no charco. Mas impõe-se intervir da mesma forma, sem hesitações, noutras áreas e noutros projectos. Na questão do novo aeroporto, por exemplo, que tem sido fértil em avanços e recuos, em hesitações que não servem o país e os portugueses. Mas também em medidas legisla- tivas. Neste particular, os exemplos são inúmeros. Desde as leis eleitorais à divisão administrativa do território, passando pela legislação contra a corrupção e contra o enriquecimento ilícito, há um imenso campo de actuação que tem sido marcado por hesitações e protelamentos. O país está cansado de esperar e, naturalmente, começa a dar ouvidos aos cânticos de sereia dos populistas, não surpreendendo, assim, que alguns comecem a engrossar as suas hostes.
Receio bem que a manter-se tal estado de letargia, esse apoio deixe de ser apenas instrumental, como acredito seja agora o caso, e se transforme numa militância activa e consciente contra o regime democrático.

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