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'A Fera de Barcelos' que viveu 15 anos debaixo de um celeiro!

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Ideias

2015-01-18 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Num momento em que os sequestros e as atitudes que vão contra os valores elementares do ser humano fazem parte das nossas conversas e das nossas preocupações, após o drama recente vivido em Paris, irei recordar, num contexto particular, um dos casos mais curiosos e surpreendentes que ocorreu na nossa região, passam agora exatamente 65 anos.
O episódio, que ocorreu em Barcelos, envolveu uma mulher (Emília Rosa de Figueiredo Oliveira), o seu marido (António José do Vale Miranda) e um cunhado de Emília Rosa (Rufino Alves Batista).
António Miranda era um jovem abastado de Barcelos, que se casou com Emília Oliveira, viúva, de quem teve um filho e uma filha.

Possuidor de hábitos muito próprios, António Miranda tinha dois estilos de vida que estavam bem vincados na sua personalidade e que eram do conhecimento da maioria da população que o rodeava: por um lado era um frequentador assíduo de festas e romarias desta região do Minho e, por outro, tinha o hábito de pagar toda as comidas e bebidas que os seus amigos consumiam, quando estavam junto dele.
Segundo a sua esposa, que se queixava aos familiares e vizinhos, o seu marido gastava muito dinheiro com estes seus hábitos, referindo que António Miranda deslocava-se por todas as romarias do Minho e, nos últimos anos, tinham inclusivamente ido a festas a Lisboa e, pior, ao Brasil, sempre na companhia de vários amigos.

Demasiado bondoso e despreocupado, António Miranda ignorava as insistências da mulher, que o acusava de não estar apreensivo com o futuro dos seus filhos, respondendo-lhe sempre que só gastava aquilo que era dele próprio!
Apercebendo-se da intransigência do marido, Emília de Oliveira não esteve com muitos rodeios, planeou e executou um plano, bem macabro, com a ajuda do seu cunhado.

De início passou publicamente a ideia que o seu marido estava doido e mandou-o internar na Casa de Saúde de S. João de Deus, em Barcelos. Enquanto o homem se manteve internado, Emília de Oliveira muniu-se de uma procuração e conseguiu colocar todos os bens do marido no seu próprio nome!
O problema é que a instituição de saúde disse que António Miranda não tinha condições para ficar internado, pois era uma pessoa normalíssima, educada e muito calma. Perante este “contratempo”, a senhora não esteve com mais rodeios e decidiu mandar construir uma prisão, mesmo por baixo do espigueiro da casa onde moravam, para lá colocar o marido! Essa era uma prisão bem segura, uma vez que fora construída com ferros e portas bem sólidas!

Ao longo de 15 anos, António Miranda foi mantido preso nesta autêntica cela solitária, sem conseguir contactar com ninguém, nem sequer com os seus próprios filhos! Apenas, casualmente, o cunhado lá se deslocava, para lhe entregar comida e para proceder à limpeza da corte imunda que o local se tinha tornado. Daí retirava grandes quantidades de estrume, que era depois utilizado para fertilizar os campos, que eram propriedade do próprio prisioneiro!

Algumas pessoas, poucas, que conheciam este caso, temiam denunciá-lo às autoridades, pois temiam a reação dos “tratadores da fera”, tal como eram conhecidos a mulher e o cunhado!
No início de 1950 alguém, anonimamente, ganhou coragem e denunciou o caso à GNR de Barcelos, que lá se deslocou imediatamente.
Quando lá chegaram, quer o comandante, quer os guardas que o acompanhavam, ficaram estupefactos com o cenário que encontraram. De imediato resolveram soltar o homem, que já não conseguia andar, apenas cambaleava com enorme dificuldade e só o conseguia fazer amparado pelos guardas. Também a luz do sol o incomodava profundamente.

Questionado acerca do tempo em que ali se encontrava, António Miranda não conseguiu dizer nada em concreto, pois tinha perdido completamente a noção dos dias, dos meses, dos anos!
Num primeiro interrogatório, Emília de Oliveira afirmou às autoridades que tinha decidido encarcerar ali o marido para ver se ele melhorava do vício que tinha em gastar dinheiro com os amigos!
Escusado será dizer que, uma vez libertado o marido, foi a vez da esposa e do cunhado passarem eles próprios para a cadeia, mas esta oficial e por determinação da Justiça!

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