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A Família Educa, A Escola Ensina…

Voz às Escolas

2020-02-10 às 06h00

João Andrade João Andrade

Quem quer que fale dos jovens de hoje, aventando uma distinção entre a sua postura e comportamento e os das gerações prévias, corre o risco de se atribua esse discurso ao fosso intergeracional, que sempre existiu, e não a uma efetiva dos jovens atuais. Pois se já em 400 A.C., Sócrates arengava sobre as atitudes e comportamentos dos “jovens de hoje”…
No entanto, se por um lado nos parece que a postura e atitude dos jovens de hoje não difere, em nada, das gerações que os antecederam, já as suas carências – e que são muitas – não só replicam as das gerações prévias, como a elas se outras acrescentam outras novas.

A realidade que as novas tecnologias, em particular as redes sociais, trouxeram à sociedade moderna, exerce um particular, permanente e significativo impacto nas crianças e jovens dos dias de hoje.
Se a pré-adolescência e a adolescência são espaços de construção da identidade específica de cada um, num contexto em que impera a necessidade de aceitação e o reconhecimento dos pares, bem como a vivência de alguma crueldade inconsciente, derivada da ainda incapacidade das crianças e jovens avaliarem o real impacto das suas ações no outro, imagine-se o que é, por via das redes sociais, viver sem nenhum escape de tal contexto?
Por exemplo, em tempos prévios, se um jovem era vítima, na escola, daquilo que hoje denominamos de “bullying”, o simples ato de sair da escola e ir para casa ou para junto de outro grupo de amigos, a maior parte das vezes bastava para que a pressão aliviasse, ainda que temporariamente. Na própria escola, bastava evitar certos espaços, bem conhecidos, ou passar desapercebido aos “bulliers”, para levar uma vida razoavelmente sem pressão. Hoje já não é assim: se um jovem é vítima de algum tipo de ação negativa, ela torna-se, por via, principalmente dos “chats” nas redes sociais, numa tensão permanente e avassaladora. Outra consequência desta nova realidade tecnológica são as máscaras sociais: quer as por detrás das páginas pessoais, quer as assumidas, online, num grupo de conversação da turma ou noutro qualquer.

Temos, assim, um contexto de uma pressão vivencial permanente nas crianças e jovens. A que acresce, com o aproximar das etapas finais do percurso educativo, de uma outra significativa pressão, também específica dos dias de hoje, que é o facto de um percurso escolar razoável – ou mesmo bom! – não constituir garantia de acesso a uma vida profissional realizada e devidamente remunerada, numa sociedade que valoriza o sucesso material como central.
Assim, se por um lado achamos que os jovens de hoje, em termos de atitudes e valores, nada devem, antes pelo contrário, a todas as gerações antecedentes, já no que concerne às suas necessidades específicas, para que se possa construir um percurso educativo válido para todos eles (e não para uma maioria ou, até, para uns poucos alguns, devidamente filtrados, como antes sucedia), a realidade é completamente diferente.
Uma a que a sociedade, as famílias e, até, a escola, não estão devidamente preparadas para enfrentar.

No que concerne à sociedade, falta a consciência de que a educação, no seu sentido lato, é uma tarefa que a todos compete e a todo o instante. Em cada interação social, direta ou via os media, um jovem é educado (ou deseducado…). No que concerne às famílias, conforme muitas vezes referimos, embora o ato de criar um filho seja um dos mais importantes que se pode desempenhar, é dos para que somos menos preparados. A contrariar essa impreparação, somente o profundo amor paternal e maternal. O problema é que, muitas vezes, face à impreparação, esse amor não chega, até porque, muitas vezes, numa atualidade de famílias cada vez mais diminutas, também cega. Assim, tornou-se imperioso que a Escola, instituição educativa formal, se obrigue à responsabilidade – e à preocupação – de se constituir como garante do sucesso de vida e de percurso de todas e de cada uma das nossas crianças e jovens.

Sucede que, se entendemos que, em termos de consciência e preparação, a escola está à frente da demais sociedade, ainda carece de muita outra preparação específica e de recursos, ou mesmo reavaliação, para cumprir, com pleno sucesso, tal desígnio. Reavaliação que deveria começar pelos percursos curriculares herdados de outros tempos e construídos para outras realidades e por isso, claramente, desadequados, apesar de todos os remendos – não passam disso! – que se lhe tente fazer. Chamem-se a esses remendo Projetos de Promoção do Sucesso Educativo, Projeto de Autonomia e Flexibilidade, Inclusão, Cidadania e Desenvolvimento, Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória ou outros quaisquer que ainda aí venham...

O atual momento – poderíamos até dizer crise – em que se encontra a escola pública, com o elevado envelhecimento docente, a ausência de novos quadros motivados para a profissão, a diminuição do número de alunos, a diminuição dos fundos europeus para a formação profissional e as consequências das novas tecnologias e da globalização, poderiam ser a oportunidade ideal para repensar e refazer profundamente a organização escola, bem como procurar outra preparação para os seus quadros, principalmente para os docentes, para lidarem, com sucesso, com as realidades atuais.
Mantendo a estrutura atual, a escola não deixará de ser completamente central e fulcral na educação e ensino das nossas crianças e jovens. Mas, por muito que nos custe, não o será para todos! Muitos continuarão a sofrer, e muita disfunção – basta estar atento às notícias –, apesar de todo o esforço dos atores das escolas, continuará a acontecer e, inclusive, a aumentar. Esperemos não estar certos.

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