Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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A fabulosa herança entregue aos escravos

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Ideias

2015-03-15 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Os portugueses tiveram sempre tendência para apostar em jogos de sorte, para tentarem resolver os problemas económicos que os atingiam.
Ao longo da nossa história coletiva passamos por episódios que, para além do nosso brilhantismo, revelam também uma vertente de busca de riqueza rápida. Assim foi, logo em 1415, quando conquistamos um dos mais proeminentes centros económicos da altura, a cidade de Ceuta; assim foi no século XVI e XVII, quando fomos a todos os continentes à procura de riquezas; assim foi no século XVIII, quando extraímos do Brasil ouro e diamantes; assim é desde 1986, com a chegada da Europa, quase diariamente, de milhões de euros que fazem sonhar (e destruir) muitas pessoas e instituições.

A nível individual ou familiar, na atualidade, a face mais visível da sorte são os jogos das lotarias e do “Euromilhões”. Esse recurso é o resultado das imensas dificuldades económicas que afetam a nossa população.
Ainda no mesmo plano, quando não existiam estes jogos, muitos portugueses ambicionavam encontrar antepassados que fossem donos de fortunas, as quais pudessem ser distribuídas e viessem resolver dificuldades financeiras. O Brasil era o destino onde muitos portugueses procuravam heranças fabulosas. Em locais públicos surgiam constantes anúncios onde algumas pessoas encarregavam-se de proceder à arrecadação de qualquer herança no Brasil, normalmente mediante o pagamento de uma comissão de 10 % da herança.

Estes anúncios ocorriam porque muitos familiares, que se encontravam em Portugal, evitavam ir ao Brasil devido ao custo da longa viagem, por receio daquilo que poderiam encontrar ou, ainda, por desconhecimento legal ou jurídico, relacionado com a herança a que eventualmente teriam direito.
Um dos casos mais célebres de heranças disputadas por portugueses no Brasil ocorreu no início de 1933 e comportava valores absolutamente astronómicos para a época: 72 mil milhões de escudos!

Esta fabulosa fortuna teve origem nos anos seguintes à independência do Brasil (1822), quando um alentejano, de nome Correia, decidiu emigrar para o Brasil, à procura de melhores condições de vida. Decidiu então instalar-se no Rio Grande do Sul, onde em pouco tempo adquiriu várias extensões de terrenos, pois na altura esta aquisição era relativamente fácil, devido à desertificação e à enormidade geográfica deste país, que se encontrava por explorar.

Em poucos anos o alentejano Correia conseguiu construir um lar e teve vários filhos. Após a sua morte, um dos seus filhos, o Comendador Domingos Faustino Correia, decidiu continuar a vida árdua do seu pai, aumentando ainda mais o número das suas propriedades.
Pouco antes de morrer, e verificando que não tinha descendentes, o Comendador decidiu entregar essa fortuna a quem tinha mantido mais convívio ao longo da sua vida, ou seja, aos escravos que o tinham servido. Deixou, no entanto, em testamento, que esse usufruto por parte dos escravos terminaria na quarta geração, passando então essa fortuna para os seus descendentes.

Quando esse período terminou, foram vários os que se apresentaram com procurações, dizendo que tinham direito a uma parte dessa fortuna. Um pouco por todo o Brasil, mas também em Portugal, foram largas as centenas de pessoas que se julgavam no direito à herança. A ansiedade foi de tal ordem, que no Brasil foi constituído um sindicato, bem poderoso, que tinha por finalidade a obtenção de uma parte da herança do Comendador.

Em Portugal, surgiram interessados nesta fortuna em Lisboa, em Coimbra e em várias regiões do Alentejo. Também no Minho surgiram vários interessados, principalmente em Ponte de Lima, Guimarães, Famalicão e Braga.
Todos estes sobrinhos bisnetos alegavam ser descentes do Comendador Domingos Faustino Correia, porque as suas mães sempre lhes tinham falado do Comendador e da fortuna que este possuía no Brasil.

A preocupação excessiva com as heranças ou fortunas; a preocupação excessiva com os valores materiais; a preocupação excessiva com o dinheiro, tem sido um dos grandes problemas que afetam a humanidade, desde há séculos. Quantas guerras já ocorreram por razões económicas? Quantos massacres já ocorreram por razões económicas? Quantas mortes já ocorreram por razões económicas? Quantas famílias já foram desfeitas, ou desestruturadas, por razões económicas? A lista seria longa, muito longa, se quisesse aqui elencar os problemas que o dinheiro trouxe à Humanidade.

No momento em que termina a primeira “Semana Europeia do Dinheiro”, que decorreu entre 9 e 13 março, o ideal teria sido aproveitar esses dias para incutir nos jovens, e na população em geral, não a importância que o dinheiro tem na vida individual e coletiva de cada um de nós, mas nos malefícios que esta invenção do Homem trouxe. Porquanto é urgente começarmos a alterar o rumo da nossa sociedade e centrá-la nos valores da solidariedade, da tolerância e do respeito.

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