Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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A Europa do Sul e a Europa do Norte

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2013-05-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

A Europa acabou. Nos últimos 30 anos embarcamos na ideia de que a Europa era um clube exclusivo onde valia a pena estar. Ele era a conjugação de interesses, a convergência de níveis de bem-estar; ele era o progresso, a liberdade, a cidadania europeia e a multiculturalidade. Víamo-nos a participar numa federação de fazer inveja a russos e americanos. A Europa, a velha europa ocidental, encontrava-se num novo Renascimento, numa era que perduraria à sombra da Razão e do Conhecimento, à sombra duma Economia progressista e ambiciosa.

Criaram-se e desenvolveram-se estruturas supranacionais, funcionários menores e estadistas de topo reuniram com a periodicidade de amantes insaciáveis, traçando metas, aprimorando planos, evidenciando critérios e parâmetros, multiplicando mecanismos de alerta e estruturas de supervisão. E quando não deu certo, pelo menos em relação aos malfadados Portugal e Grécia, proclamou-se com desfaçatez que a culpa era nossa. Sem cerimónia, fomos postos a um canto, de castigo, com o rótulo escarrapachado de gastadores ineptos e compulsivos.

Os gregos explodiram, nós amochamos. Questões de carácter, o nosso propenso à autocomiseração e ao sentimento de culpa. Talvez que a clareza e planificação que faltasse aos nossos governantes pudesse ser enxertada de fora, por assim dizer, à força. Gente pacata e temente a Deus, aguentaríamos: seria um ano, quando muito dois de sacrifício - que é isso para um povo com 900 anos de privações!

O tempo passa e o quadro fica cada vez mais carregado: a inversão, a retoma, a recuperação, mudam todos os dias de amanhã. A cada três meses, os homens que vêm de fora dizem que está tudo bem: mas nós não vemos. Os homens que vêm de fora são aqueles que iriam ensinar o bom governo aos nossos homens. Os nossos homens devem estar a aprender: mas nós não vemos. Tudo piora, mas é ilusão nossa: está tudo dentro do previsto!

Até que vem o dia em que os senhores que vêm de fora se dizem surpreendidos, chocados - com o desemprego, com a quebra do produto, com o definhar da economia e dum País. A culpa, que já era do lusitano, exclusivamente nossa se mantém. Não há nada que bata certo no plano: mas é para continuar igual. A economia afunda-se: mas nós é que temos que aumentar a competitividade e a produtividade. Estranho, mas a economia não é global? E quanto à competitividade: não se afirma que a robustez da economia portuguesa foi deliberadamente distorcida aquando da adesão ao Euro, e que só aí perdemos 20% na nossa capacidade de penetração nos mercados. Quem é que nos fez falsamente mais ricos, mais sólidos, mais competitivos: o político indígena, na ânsia do retrato, ou o prestidigitador e ilusionista centro-europeu? Ou ambos mancomunados?

Entramos no Euro, de cabeça, eufóricos por pertencer ao pelotão da frente. Hoje, emparedados por uma economia raquítica, vamos sendo tolerados, perigosamente equiparados a párias, que convém manter a uma certa distância, senão mesmo enxotar de vez. Já recebemos lições de Checos, reparos de Finlandeses, avisos de Alemães. Podemos mesmo vir a sair do Euro com a prestimosa ajuda de todos eles, sendo certo que, no dia em que isso aconteça, ninguém o assumirá como falha deplorável do sistema: para descargo das consciências europeias, o erro continuará exclusivamente português.

Em todo o caso, não cairemos sozinhos. Por muito que insistissem no contrário, a despromoção de Portugal perpetuar-se-ia como uma ferida do sagrado principio da solidariedade. Convencidos de que existem duas europas - a boa, a deles, a do norte; a fraca, a nossa, a do sul -, apostam num esboroar da situação, de modo a que a Espanha e a Itália possam ir no enxurro, ponto em que seria interessante ver para que lado penderia a França, sendo que estou em crer que se sentiria melhor acomodada numa aliança meridional.

Numa corrida a dois, a conveniência ganha sempre. Os do norte vêm a parte que lhes interessa, mas não faz o menor sentido que nos vejamos pelos olhos deles. Na medida em que as férias nas nossas paragens deixem de ser apreciadas, na medida em que deixem de se deliciar com os nossos vinhos, também nós poderemos prescindir dos primores da indústria automóvel alemã, da indústria de telecomunicações finlandesa. À falta de matéria-prima da Noruega não se perderá o pastel de bacalhau. Encontraremos alternativa para os Lego e torneios de sueca. Os armazéns Ikea serão sagrados templos da IURD. Talvez passemos a saber uns dos outros em documentários da National Geographic.

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