Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A Europa do desespero

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2015-09-06 às 06h00

Artur Coimbra

1. É incontornável que a tragédia dos refugiados que procuram ansiosamente a Europa por estes meses se imponha às nossas consciências, tão embotadas pela rotina dos pequenos episódios do nosso provinciano dia a dia.
Que importância tem o folclore dos agentes políticos em pré-campanha eleitoral, com o seu cortejo interminável de tricas e de picardias sem sentido, perante o drama, a angústia, o pavoroso destino que milhares de seres humanos (homens, mulheres e crianças) jogam - a vida ou a morte - para escaparem à guerra, à violência, à fome, à opressão, ao martírio nos países do norte de África?!...
A Europa está, na verdade, a assistir a uma crise de refugiados, políticos e económicos, de proporções gigantescas que apenas tem paralelo na fuga dos judeus no quadro da II Guerra Mundial.
Centenas de milhares de emigrantes, explorados por mafias tenebrosas, que como sempre se aproveitam da fraqueza dos necessitados para engordar as suas imorais contas bancárias, deslocam-se à aventura, em busca de um mundo melhor, de liberdade, de paz e de trabalho, corporizado na Europa, e, em especial, na Alemanha.
As imagens que a comunicação social nos tem trazido, com dramatismo e verdade, desde o início do ano, não podem deixar de impressionar os corações mais empedernidos. Pela sua crueza, pelos sentimentos de revolta e de impotência que em nós desperta, pelas conclusões quanto à maldade do género humano que suscita.
No entanto, o símbolo maior dessa punhalada na consciência é o murro no estômago que o mundo sofreu a meio desta semana quando assistiu às imagens de uma criança que deu à costa, sem vida, na praia de Bodrum, na Turquia. O menino sírio, de nome Aylan Kurdi, tinha 3 anos e, tal como o resto da sua família, tentava chegar à ilha grega de Kos. Ao todo eram 16, os que desta vez naufragaram a tentar chegar às fronteiras da Europa. Além dele, sucumbiram um irmão e a mãe. Uma tragédia com rostos e nome é sempre mais insuportável…
Neste carrocel trágico, a Europa, mais uma vez, não se entende sobre coisa nenhuma, dando uma imagem de desunião, desnorte e até de perversidade que envergonha os criadores do “espírito europeu”. Os procedimentos dos diferentes países são os mais díspares, cada um sacudindo a água do capote para as nações onde as levas migratórias mais se fazem sentir.
Há os que constroem muros, como em Melilla, Espanha ou em Lampedusa, na Itália. Ou na Grécia e na Bulgária. Em Calais, em França. Ou na Hungria, na Ucrânia e na Estónia se levantam barreiras da colectiva vergonha, de arame farpado, a lembrar os campos de concentração nazis, para impedir que homens, mulheres e crianças passem de uns países para os outros.
Afinal, sempre é mais fácil a livre circulação de mercadorias e capitais do que a de pessoas, nesta Europa descaracterizada, ensimesmada, chauvinista, egoísta, com tiques ditatoriais e pouco respaldo autenticamente cristão.
Salva-se, nesta confusão desmiolada, a personagem mais improvável, tantas vezes criticada, a chanceler alemã Angela Merkel, que está a assumir corajosamente a necessidade de acolher os refugiados, no cumprimento dos princípios civilizacionais e humanistas que serviram de base à construção europeia. É uma atitude extremamente louvável e positiva (de resto, partilhada pelo presidente francês François Holland), de quem parece agora demonstrar uma abertura e um coração que não teve para com os povos da Europa do Sul, em especial Portugal e a Grécia, que foram alvo de cruzadas de opressão e agressão financeira, de limitação da soberania e de políticas de empobrecimento, falências e desemprego de todo execráveis.
Aliás, por mero exercício retórico, seria interessante verificar o comportamento da chanceler alemã se, em vez de emigrantes sírios, iraquianos ou afegãos, se tratasse de refugiados portugueses, gregos ou italianos… A boa vontade seria idêntica?...
Mas é sempre melhor fazer bem uma vez que não fazer vez nenhuma!...
É claro que se impõe urgentemente que a resposta da Europa, no seu conjunto, a esta colossal catástrofe humanitária (já há quem anteveja a cifra de 4 milhões de refugiados nos próximos tempos…), seja coerente, responsável e solidária, para não continuar a transmitir a triste imagem de desorganização que impera por estes dias. Mas o que se tem verificado, apesar do palavreado solidário e humanista, é que os actos não têm correspondido às boas intenções. Nas instâncias europeias, a discussão do assunto não mereceu grande pressa. A reunião do Conselho Europeu para discutir a questão dos refugiados está agendada apenas para 14 de Setembro, o que demonstra o desinteresse e a inércia algo desumana perante o que se está a passar na Europa, quando se exigiriam tomadas de posição mais céleres, consistentes e responsáveis, em função da emergência que se impõe a cada hora que passa.
É claro, por outro lado, que haverá que atacar as causas da sangria de tantos milhares de pessoas provindas de regiões problemáticas do norte de África. Situações de guerra, de ditadura, questões com a barbárie do chamado Estado Islâmico, devem merecer dos líderes do mundo civilizado uma resposta enérgica que devolva à região condições para que não seja necessário fugir para a Europa ou para outro continente, nas trágicas condições em que tantos milhares de migrantes o estão a fazer.
Não tenho dúvidas que este é o tema de maior premência dos nossos dias, que preocupa os estadistas mas também inquieta e choca o cidadão comum. E que terá de entrar seguramente na campanha eleitoral, porque não é um “fait divers” mas um tema estruturante, pelo menos no quadro europeu...
2. Internamente, o panorama político precipitou-se com a saída de José Sócrates da prisão, na noite de sexta-feira. Não se sabe o peso ou a influência que tal facto terá na campanha eleitoral que se aproxima.
Entretanto, a socialista Maria de Belém tomou a liberdade de afrontar o líder António Costa, anunciando a sua candidatura a PR, numa manobra claramente divisionista que configura, sem dúvida, um ajuste de contas da ala segurista relativamente ao secretário-geral do PS. O que, aliado a uma campanha pejada de percalços e a consecutivos “tiros nos pés”, a partir do Largo do Rato, a um mês das eleições, leva a coligação de direita a esfregar as mãos de contente e a aproximar-se nas sondagens, o que seria impensável há escassos meses.
Por isso, nem a demagogia, as aldrabices, as promessas absurdas, ou a chantagem, um balanço negativo de quatro anos e meio de poder, por parte dos partidos da direita, parecem fazer mossa, explorando inteligentemente as fragilidades do principal partido de oposição e a mais credível alternativa de poder. Com tantos erros dos socialistas, não admiraria que a direita renovasse o mandato por mais quatro anos. Já estive mais crente que tal não aconteceria.
Porém, bem vistas as coisas, é o Partido Socialista que se arrisca a perder as eleições, por culpa própria, por divisões intestinas inadmissíveis numa altura destas, por incapacidade de se impor como alternativa credível e por uma campanha que não há meio de “descolar”, antes pelo contrário!
Bem gostaria de me equivocar!

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