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A Europa a caminho do fim

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

A Europa a caminho do fim

Ideias

2024-01-26 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Sou de uma geração que se habituou a ver a Europa a caminho da sua unificação e transformação numa união política. Mas, tudo mudou ultimamente. A Europa está ameaçada externa e internamente.
Com a guerra da Ucrânia, a Europa tornou-se dependente dos Estados Unidos, não apenas sob o ponto de vista militar, mas também energeticamente. Por outro lado, a segurança da principal rota marítima do mar Vermelho passou a depender quase exclusivamente do poder militar norte-americano. Mas, como se tem verificado, os objetivos americanos e europeus nem sempre coincidem. E, se Trump for eleito presidente, como tudo indica, então a separação de interesses vai acentuar-se.
A Europa tornou-se um continente à deriva, ameaçado a leste pela Rússia e entre a China e os Estados Unidos. E, mesmo aquela análise que se fazia há anos de que “a Europa era um gigante económico com pés de barro”, deixou de ser verdadeira. Na verdade, a Europa tem vindo a diminuir a sua importância económica. Veja-se, por exemplo, a produção de carros elétricos, quase completamente controlada pela China.
Mas, a Europa não só está em declínio devido a causas externas. Internamente está a desabar. Sendo que o sintoma mais significativo é a ascensão dos populismos. Em alguns países europeus, os partidos populistas da extrema-direita iliberal são já os partidos mais votados. E, em muitos casos, preparam-se para fazer parte do governo. E, todos estes partidos defendem a saída da União Europeia.
Entre nós, o Chega, sem ainda ter adotado um discurso antieuropeu, acentuou na última convenção uma linguagem populista, antirregime democrático, apontando para um Estado iliberal e antissistema democrático, distinguindo os bons (eles) e os maus (os outros).
Como chegamos aqui? Os cientistas políticos têm vindo a analisar o fenómeno populista, Tendo apontado várias causas. Em primeiro lugar, está a incapacidade dos partidos tradicionais promoverem o bem-estar das populações. Em segundo lugar, o aumento de patronage e clientelismo que aumentou com o estado social. Em terceiro lugar, apontam como importante o aumento de escândalos de corrupção grandemente empolados pela comunicação social. Em Portugal, a comunicação social, em aliança com as redes sociais e com a colaboração do sistema judicial, tem desempenhado um papel determinante no descrédito dos partidos tradicionais e do sistema político e seus valores. Em quarto lugar, e sobretudo na Europa de leste, a tradição cultural tem apontado para o aparecimento de partidos dominantes de tipo iliberal. E, finalmente, o aparecimento de determinados movimentos sociais tem-se traduzido no declínio da identificação partidária. É significativo que as áreas de maior crescimento do Chega sejam Setúbal e o Alentejo interior. Além disso, os partidos populistas têm tido grande sucesso no arrebanhamento dos jovens, descontentes com a classe política. De resto, os partidos políticos são as instituições que inspiram menos confiança (abaixo de 10%).
Quer dizer, não estamos a andar pelo bom caminho. E o mundo que aí vem não será igual ao existente entre as duas guerras, mas não será muito melhor. Embora seja cientista político, não sei como curar esta doença do ocidente europeu.

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