Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

A estação da CP em Braga

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2018-03-18 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Desde 1875 que a estação de caminho-de-ferro é o local mais central de Braga, ao nível de meios de transporte. Por aqui passou, desde esse ano, um movimento intenso diário, quer de pessoas, quer de mercadorias, que dinamizaram muito a economia e a sociedade bracarenses. Estes passageiros deslocavam-se de e para as zonas limítrofes de Braga, mas também para as grandes cidades, nomeadamente Porto e Lisboa.
Quem frequenta a estação de Braga, atualmente, depara-se com instalações modernas, com serviços de apoio aos clientes, quer a nível institucional, quer a nível comercial. Por outro lado, o movimento diário é intenso e quase permanente, deparando-se os passageiros com qualidade na limpeza, quer no seu espaço interior, quer no seu espaço exterior. Independentemente da estação do ano os comboios cumprem os seus horários com regularidade, não sofrendo atrasos ou supressões. Além disso, a ligação dos passageiros que chegam ou partem é complementada com outros meios de transporte de passageiros eficazes, nomeadamente autocarros e táxis.
Contudo, nem sempre a estação de Braga teve esta eficácia na prestação de um serviço, tal como o demonstra a realidade que aqui se vivia no início do século XX.
Deste modo, recordamos que, antes da chegada do comboio a Braga, uma viagem até ao Porto fazia-se em cerca de seis horas. Por outro lado, uma viagem de Braga até Lisboa durava cerca de 36 horas. Imaginemos, por isso, a importância que se revestiu o comboio para Braga e para toda esta região do Minho, com a redução do tempo para um terço!
Com o acesso a este transporte, o comboio, que chegou a Braga em maio de 1875, as transacções comerciais aumentaram, a circulação de pessoas passou a fazer-se de forma mais intensa, muitas figuras nacionais e até internacionais passaram a visitar Braga e todo o Minho. Contudo, ao irromper do século XX, a estação de Braga apresentava um aspecto verdadeiramente desolador para quem tinha a necessidade de a frequentar. Os comboios diários que aqui chegavam, ou daqui partiam, originavam a circulação de centenas de pessoas que se deparavam com um cenário verdadeiramente deprimente! O largo da estação do caminho-de-ferro encontrava-se, segundo o jornal Commercio do Minho, de 22 de dezembro de 1900, num estado lastimoso, incommodo e vergonhoso, apresentando-se num lamaçal imundo, onde se não póde transitar a pé sem se enterrarem as botas até acima do tornozelo. Perante este cenário, não é de estranhar que o calçado mais usual quer dos homens quer das mulheres da época fossem os tradicionais e enormes tamancos!
Para além do lamaçal que rodeava a estação de caminho-de-ferro, não existia iluminação pública, de tal forma que quem necessitasse de se deslocar para a estação, de noite, encontrava-se ao sair da estação cercado de trévas e mergulhado num atoleiro impossível ao trânsito, correndo até o perigo de ser atropelado por qualquer dos trens que alli vão esperar passageiros.
No início do século XX, deslocavam-se à estação de Braga vários carros de tração animal (bois ou cavalos) que transportavam muitas mercadorias com destino a outras terras portuguesas e, ao chegarem à estação, muitos ficavam enterrados no imenso lamaçal, causando embaraços ao já complexo e difícil transporte de mercadorias para a estação. Assim, a indignação era geral pois em qualquer terra medianamente civilizada, aquelle escarro, patente aos olhos dos visitantes como documento irrefutável de desleixo e atrazo, teria levantado o clamor das próprias pedras da calçada, até ser eliminado por quem tem o dever de o fazer.
Para além da forte degradação que existia no largo em torno da estação de caminho-de-ferro, os passageiros eram permanentemente importunados pelas largas dezenas de miúdos, quase todos descalços e esfarrapados, que rodeavam os passageiros, que entravam ou saíam dos comboios. Este bando de crianças, muitas delas esfomeadas, passavam várias horas do dia em torno da estação, agravando ainda mais o ambiente negativo que rodeava o local. Este incómodo diário deixava em todos os que aqui chegavam ou partiam, uma marca da cidade como um local sujo, subdesenvolvido e tendencialmente rural!
As dificuldades na época eram de tal forma elevadas que alguns comboios tinham que ser suspensos nos meses de inverno, como era o caso dos comboios rápidos que ligavam Braga ao Porto. Para que isso não acontecesse, eram envolvidas entidades de Braga, como o Governador Civil, a Câmara Municipal e a Associação Comercial, para que intercedessem no sentido da não supressão de comboios.
Sendo um meio de transporte com grande passado, e que muito contribui para a dinâmica da nossa região, os comboios constituem também uma aposta de futuro, principalmente por parte dos países mais evoluídos. Esperemos que Portugal continue a sua aposta na modernização deste meio de transporte, quer renovando linhas já existentes (como a que liga Nine a Valença) quer iniciando um projecto que leve à criação de um ramal que ligue Braga a Guimarães.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho