Correio do Minho

Braga, sábado

A escrita e a comunicação na cultura dos ecrãs

Investir em obrigações: o que devo saber?

Voz às Bibliotecas

2015-10-21 às 06h00

Aida Alves

Devido à ampla massificação dos suportes de informação digital, os tempos de escrita e de leitura têm-se “reinventado”. A “rede” assim o obriga. De facto, hoje em dia, não se utiliza apenas o tradicional computador de secretária para produzir e aceder à informação. Cada vez mais dominam os gadgets do tipo smartphone ou tablets, com características e habilidades capazes de fazer corar os computadores pessoais de há 5 anos atrás. Os ebook readers (kindle, boko, nook, entre outros) e outros gadgets da mesma natureza, são diferentes dos atrás referidos, pois permitem apenas a leitura focalizada de informação e não a sua produção.

Sobretudo os smartphones, pela sua portabilidade, passaram a ser um meio de aceder continuamente à informação, permitindo ler e escrever em todos os locais e a todos os tempos. Absorvem a atenção das pessoas comunicarem presencialmente umas com as outras. Em qualquer lugar, em qualquer altura, alguém lê informação num jornal ou uma publicação, numa qualquer rede social, e alguém publica ou partilha em qualquer lugar, em qualquer altura, informação (relevante ou não) sobre um qualquer acontecimento extraordinário ou simplesmente quotidiano. A célere movimentação da informação, a sua apreciação e a sua qualificação são imediatas.

Sinal dos tempos, tal imediatismo na produção de informação conduz à produção massiva de informação, por vezes não relevante e não tão refletida. Ou pelo menos, apenas relevante para o próprio e para um pequeno número de leitores.
Mas o que caracteriza esta nova forma de produzir, transmitir e aceder à informação é, por um lado, o seu carácter multifacetado de conteúdo multimédia (texto, imagem, vídeo, etc.) e, por outro lado, o seu carácter quase instantâneo de edição e publicação nas esferas sociais.

Alguém, num qualquer ponto do globo, publica numa rede social uma reflexão, a descrição das suas atividades ou estado de espírito no momento, uma opinião, e logo leitores em qualquer outro lugar do mundo opinam, mostram a sua aprovação, desagrado ou simplesmente comentam. Não é nem sequer necessário estar atento. Os gadgets “invadem” o nosso espaço com um toque diferenciado alertando que alguém, em qualquer parte do mundo, publicou algo que nos pode interessar.

Uma boa parte do registo de informação neste processo de comunicação em rede perdeu o seu carácter mais formal, deixou de ser tão elaborada e massificou-se.
Curiosamente, por vezes, este fenómeno de comunicação tão próxima do produtor-leitor e tão democrática, conduz à formulação de opiniões estritas, pouco personalizadas, por vezes pouco sentidas e compreendidas. Frequentemente basta um “like” imediato (“gosto” do leitor) para comunicar e mostrar posição existencial. Será que se leu e se compreendeu e se processou toda informação, num conjunto sistémico, não a retalho?

Perante um qualquer assunto emergente e de interesse geral no ecrã, é corrente surgirem opiniões díspares e antagónicas (explosão de ideias e argumentação social) em torno do assunto. A facilidade de comunicar provoca assim o fenómeno da existência de Prós e Contras, com aparecimento de raros casos em que a individualidade de opinião se evidencia e não se enquadra nas correntes dominantes (prós e contras).
Talvez tal fenómeno advenha da facilidade que a produção e consumo de informação apresentam hoje em dia, perante a facilidade de produção de informação. Porque se haveria de enveredar pela reflexão e pela produção de uma opinião fundamentada e própria? …

E por que não fazer diferente? Não será mais estimulante e enriquecedor para nós, seres pensantes, fazermos a travessia pela informação, amadurecendo-a com a experiência pessoal e coletiva, ultrapassando os limites socialmente estabelecidos, navegando por mares, terras e (novos) conhecimentos refletidos e apreendidos e começarmos a publicar mais textos amadurecidos, refletidos, posicionando-nos de forma mais crítica e argumentada diante do que nos rodeia? E se parte do tempo que perdermos na comunicação for reconduzido para a produção escrita amadurecida com o tempo, pensamento e sociedade, numa práxis ainda mais educativa?

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