Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A escola: raiz e rizoma de tradições

Um futuro europeu sustentável

Escreve quem sabe

2017-03-29 às 06h00

José Hermínio Machado

Ah que diversidade e tudo sendo! - disse e escreveu Fernando Pessoa. Celebrar a diversidade não é bem a mesma coisa que celebrar a igualdade, assim como celebrar a igualdade não é bem a mesma coisa que celebrar a uniformidade, mas tudo é, significa precisamente que o fundo comum, a base de sustentação, a sedimentação que permite a apreensão das diferenças é a essência, o ser, esse tudo sendo que qualquer coisa ou realidade tem em si.

Começo assim por causa de poder afirmar que a tradição é um exemplo adequado do que se pode entender por identidade estável da essência de alguma coisa ou entidade. E se há instituição tradicional por excelência é a escola. Então, juntando tudo, atrevo-me a afirmar que a escola, enquanto instituição e enquanto centro de processamento de formação multidisciplinar, é, tem uma essência identificável ao longo do tempo, estável enquanto instância de ensino e de formação, constitui-se como promontório ou lugar ideal para nos percebermos como colectores e construtores de conhecimento. Sendo assim, até porque a escola tem tido ao longo dos séculos todas as funções sociais de reprodução e de produção do conhecimento, importa que nos perguntemos sempre como é que a escola aborda e resolve os problemas que vão surgindo e se vão configurando como necessários ao nosso desenvolvimento.

Quando a sociedade, ou melhor, quando uma outra instância da sociedade, como, por exemplo, o Estado, quer reformar mentalidades e currículos e cursos e perfis de pessoas, tendo em vista uma ideia prospectiva de engenharia social, devemos perguntar-nos que tradições deve a escola mobilizar para enfrentar este desafio e o poder consumar na sua quota-parte de responsabilidade.

Concretizemos: o Estado pôs em discussão pública o perfil do aluno à saída do ensino obrigatório, ou seja, o Estado perspectivou um documento que pretende enquadrar a formação dos cidadãos durante o ensino obrigatório num determinado sentido. Qual seja esse sentido, lendo o documento percebe-se porque é que eu comecei por citar Fernando Pessoa: é que tudo aponta para que o futuro nos vinque diversidades e alteridades e adaptabilidades e transformismos, como sempre assim foi ao longo dos tempos, umas vezes com mais força ou premência, outras vezes de modo mais lento.

Então, a escola vai ser desafiada a fazer mudanças interiores, vai ser desafiada a questionar-se a partir de suas tradições de ser e de estar e de mudar, vai fornecer, neste movimento de questionação, todos os seus recursos acumulados. É que a escola realiza no seu melhor o desiderato pedagógico de apren- der aprendendo, de fazer fazendo, de caminhar caminhando. Este seu lugar-comum resume-se na célebre forma «aprender até morrer», desiderato que é mais antigo que a Sé de Braga. Portanto, a propósito do perfil de alunos à saída do ensino obrigatório, documento que não faz qualquer referência à necessidade do estudo das tradições, é importante vincar bem a escola como o lugar do conhecimento, do método e das respostas para o alcançar. Conceber a escola na sua função de tradição é procurar sempre mais e melhor luz.

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