Correio do Minho

Braga, sábado

A escola ponto de encontro

Investir em obrigações: o que devo saber?

Voz às Escolas

2016-04-21 às 06h00

José Augusto

O alargamento da escolaridade obrigatória para os 18 anos e as dificuldades de acesso precoce ao mercado de trabalho fizeram permanecer nas escolas um grupo particular de jovens adolescentes. Embora muito pouco, ou nada, motivados pelo trabalho escolar, são jovens que procuram diariamente as escolas como ponto de encontro com os amigos. No dia-a-dia desses jovens, a escola configura-se como sítio normal para estar durante o período diurno, pela simples circunstância de ser o local onde estão todos os jovens da sua idade. O que os move não é a procura do conhecimento, da cultura, da educação escolar, mas apenas a procura de companhia ou das companhias que valorizam. É pouco, mas é a realidade. Reconhecer a realidade pode ser o primeiro passo para lutar pela sua transformação num sentido mais positivo.
A melhor estratégia para operar essa transformação será conseguir uma influência positiva por parte dos pares. Perante níveis de desmotivação muito elevados, o chamamento dos pares pode ser um instrumento poderoso e, em muitos casos, o único capaz de produzir algum efeito. Nas idades em causa, a regulação dos comportamentos pelos colegas pode ser muito mais eficaz do que a que for tentada pelos pais ou pelos professores. Claro que importa que ela seja assertivamente orientada num sentido positivo. No sentido da valorização do trabalho escolar, da aprendizagem e da gratificação pessoal que vem da ampliação do conhecimento e do sucesso escolar individual.
Se a escola e cada um dos grupos de jovens em que se organiza o trabalho escolar, vulgo turmas, lograr ser um conjunto de pessoas estimulante e predominantemente orientado para a aprendizagem, podemos esperar efeitos de socialização convergentes com os objetivos da escola e da cidadania. Assim, sem prejuízo dos fatores individuais, o efeito grupo-turma é particularmente decisivo para os menos motivados. Nesse enquadramento, a constituição de turmas tem de poder ser muito mais do que um exercício administrativo e contabilístico. Por isso, permanece pobre a discussão centrada no número de alunos por turma. Pobre e dispendiosa, porque os custos do insucesso e do abandono nunca são introduzidos na equação dos encargos a assumir.
Os mecanismos de influência mútua a que aludimos tanto podem funcionar num sentido positivo, como num sentido negativo. Consequentemente, não é irrelevante haver ou não haver condições para cuidar de uma “diluição” equilibrada dos alunos com piores percursos escolares, quer entre escolas, quer entre as diversas turmas da mesma escola. Não sou adepto de constituir turmas homogeneizadas em função dos percursos escolares anteriores. Acredito até que isso é prejudicial tanto para os “bons” como para os “maus alunos”. Porém, já observei muitos casos em que o rendimento escolar de alunos com desempenhos mais fracos é “puxado” para cima por turmas com maior diversidade de desempenhos. Perante a diversidade, as abordagens pedagógicas que a maioria dos docentes, necessariamente, aplica é benéfica para todos. Em grupos muito nivelados, por cima ou por baixo, a expectativa de progresso parece sempre mais remota. É mais difícil vislumbrar hipóteses reais de melhoria, bem como criar sinergias positivas baseadas no apoio mútuo. Nos casos em que estão nivelados por cima, principalmente, porque ficam tomados pela competição entre si. Nos casos em que estão nivelados por baixo, frequentemente, porque todos se sentem igualmente impotentes e conformados. Em situações extremas, chega até a criar-se um fatalismo generalizado e uma aceitação “orgulhosa” do estatuto negativo alcançado. Em grupos mais diversos, todos podem tomar exemplos mais próximos e realistas e acreditar que podem alcançar desempenhos semelhantes. Nesses grupos, os fenómenos de entreajuda, de identificação e de emulação positiva podem ser muito mais eficazes.
Nessas condições, mesmo os que tomam a escola apenas como ponto de encontro, podem ter a felicidade de encontrar quem os leve a descobrir na escola outros pontos de interesse e encontrar na escola mais do que um sítio onde estar à espera da maioridade.
A escola pode continuar a ser o ponto de encontro dos jovens. É preciso é que seja um sítio de encontros virtuosos, de cruzamento de vidas que, cruzando-se, seguem juntas e juntas se enriquecem mutuamente.

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