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A Escola em Ruinas

Plano, Director e Municipal …

Ideias

2014-02-17 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Consta que na Secundária de Maximinos terá havido masturbação pública em sala de aula, entre outros desacatos e manifestações de indisciplina. Queixam-se alguns pais ao Ministério Público; nega a Direcção da Escola a magnitude ou a extensão dos factos. Podemos discutir o assunto no plano da estupidez absoluta e desvergonha. Por mim, focar-me-ia numa questão anterior, a saber - porque é que há alunos que não vêm a Escola como um território de aprendizagem, de aquisição construtiva de competências?

Não é que eu queira validar ou minimamente desculpar comportamentos abjectos, grosserias, ameaças pessoais ou delapidações do património: nada disso! Mas se há alunos que tomam estes rumos, eles só o fazem porque a tal consagram o tempo que deveria estar consignado à progressão no conhecimento teórico, à experimentação de aptidões, à construção de habilidades. No fundo, à formação duma personalidade congruente com a sociedade que eles próprios integram.

Perturba-nos, hoje, a afronta acintosa destes jovens. Não conheço nenhum dos intervenientes, nem recolhi junto de nenhum amigo relato verosímil do sucedido. Ainda assim, creio que não cairei em especulação barata se expressar as minhas intuições e juízos.

Antes de mais, é muito provável que tenham chegado a este patamar de insubordinação e condenável mau-gosto, acumulando anos de insucesso e um progressivo afastamento do que de positivo a Escola possa e deva representar. Não digo que o insucesso dum aluno particular seja da exclusiva responsabilidade da orgânica educativa; não eximo nenhum aluno ao dever de se aplicar nas tarefas, à obrigação de persistir, e à disponibilidade para pedir, aceitar, e tirar proveito de ajudas. Mais, não embarco facilmente no fatalismo sociopsicológico que toma por adquirido que as crianças de famílias desestruturadas ou semimarginais estão irrevogavelmente condenadas ao insucesso ou a um sucesso mitigado. Mas, por muito que se queira o contrário, a Escola está longe de figurar aos nossos olhos como um pronto-a-vestir onde cada um encontra justa e adequadamente o seu fato.

Não há tanto tempo como isso, o percurso até ao 9º ano era necessariamente idêntico para todos: falsa igualdade que mascara ou nega como dois jovens podem ser vincadamente distintos, e o que é justo para um, é em igual medida impróprio para outro! Corre o consulado de Sócrates, reaparece um ensino prático como via alternativa para a conclusão do terceiro ciclo da escolaridade obrigatória. A medida é mais uma estratégia luminosa para a redução das taxas de insucesso e abandono escolar, do que uma reinvenção ou legítima recuperação das vias de ensino técnico. Já para o nível secundário é inegável que há mais soluções.

O drama real, porém, coloca-se mais atrás, aí pelo 6º ano de escolaridade. Independentemente de ideias igualitárias de bom-tom, os jovens não operam as ferramentas do pensamento abstracto com igual grau de adequação, da mesma forma como distam entre si na apetência para as tarefas prácticas ou mecânicas, na aptidão física ou na inclinação artística.

Perdoem-me a simplificação inevitável no curto espaço deste artigo. Em traços gerais, as escolas vivem sob a hegemonia do intelecto verbal, analítico, logico-discursivo. Os muitos jovens que possuem estas competências em alta, livres de outros transtornos de ordem emocional ou familiar, poderão fazer o percurso da escolaridade obrigatória com uma perna às costas, por assim dizer. Com os outros, é um sarilho. Correndo bem em casa, ainda levarão o barco a bom porto, não raro com a mágoa persistente de nunca serem bons, de nunca conseguirem ser ou estar entre os melhores.

Parte deste calamitoso insucesso poderia ser eliminado se instituíssemos um ensino vocacional para o terceiro ciclo da escolaridade obrigatória. Defendidos duma especialização precoce, os alunos testariam operações, tarefas progressivamente complexas, testariam materiais e ferramentas, aprofundariam as linguagens e os conhecimentos pertinentes em campos determinados de acção. Posteriormente, já ao nível do secundário, poderiam fazer uma escolha informada duma área específica. E evoluiriam. E seriam bons. Aqui, ou onde quer que as oportunidades de trabalho os levassem.

Mas não é isto que acontece. Embrenhados no insucesso, abandonam a escola muito antes de deixarem de entrar simbolicamente pelos portões. Indisponíveis ou incapazes de acompanhar um programa de qualificação formal, forçados a integrar um programa em que não reconhecem nenhuma virtualidade, descambam com facilidade para a indisciplina, má-criação, ou mesmo para indecência reportada. Os alunos serão castigados? Certamente! Mas convinha que continuassem na Escola, como espaço natural e minimamente restritivo. Por absurdo que pareça, a Escola pode ser a última boa oportunidade para trabalharem sobre si próprios, para procurarem linhas de ajustamento, antes de encontrarem as vias mais ambiciosas de formação e qualificação.

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